E DEU -LHE O NOME DE CAMILA
E DEU-LHE O NOME DE CAMILA
Crónica nº. 102 de Março de 2009-03-04
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Quando a minha amiga
Ana Bela, mais conhecida na NET, por Ana Ramon, me disse que havia dado o nome de Camila, à sua linda cadelinha Serra da Estrela, que o seu empregado Sebastião lhe havia ofertado, até senti um bac no coração !
Mas aquele minúsculo animal, iria ser mais uma preocupação para ela e, por isso, não achou graça nenhuma à oferta…
Só que Camila era a meiguice “em pessoa” e logo se afeiçoou à sua dona, só pedindo carinhos, o que tocou fundo no seu coração.
Felizmente que os outros cães a aceitaram muito bem, embora ela sempre sentisse a necessidade de se refugiar no colo da dona, mal eles se aproximavam…
Como ela tem na sua quinta, muitas ovelhas que tem de guardar e por a pastar, ainda não havia encontrado aquela raça de cão, que consiga acompanhar o rebanho, sem lhe fazer mal.
Aquilo é um problema complicado, porque os seu cães de guarda, se atiram aos recem nascidos e os matam. Tinha de ser um cão que desde pequenino, conseguisse dormir junto delas, para as considerar como “irmãs” a quem defender, embora tenha de ser bem ensinado…
É que, quando eu estava muito doente e num sanatório do Caramulo, mas já me encontrava na linha dos curados, apareceu por lá um conjunto musical muito simpático, em que a Estrela era uma linda garota de nome Camila. Era o TRIO ODEMIRA.
Aquele pequeno conjunto de 3 artistas, em que os irmãos tocavam maravilhosamente viola e a acompanhavam , mas o mais virtuoso era canhoto, e o braço da sua viola, ficava para a direita, enquanto o outro irmão, que era destro, e ficava para a esquerda.
Assim a Camila, ficava ao meio, vestida de sevilhana, tecido de cetim azul, cantando lindamente em espanhol e rodopiando enquanto tocava as castanholas, com uma linda rosa vermelha agarrada ao cabelo.
Aquela visão duma tão jovem alourada, deu-me volta ao miolo…
Eu nunca havia estado perto duma “espanhola tão linda” de pele acetinada, e que pronunciava tão distintamente o espanhol , como as que eu ouvia na rádio!
Dentro de toda a assistência, eu era o mais novo e fiquei mesmo à frente, a cerca de uns dois metros deles, porque não havia palco. Era uma sala normal de recreio.
Talvez já fosse hábito dela, sair de dentro dos irmãos e vir cantar muito perto da assistência que a seguia hipnotizada.
No meu caso, ela quase que me tocava com o seu nariz no meu !!! Aquilo era bom DEMAIS… até porque tínhamos a mesma idade, e ambos solteiros.
Naquele tempo, ainda não havia televisão e os artistas tinham de andar sempre de terra em terra, à procura dos seus ouvintes. Era pois uma vida extremamente dura e mal paga , pelo que eles tinham muita dificuldade em sobreviver, até porque ela era todo o amparo da sua mãe, que estava cega.
Talvez por isso, a “minha” Camila adoeceu dos pulmões, mas como estava de visita ao Caramulo, logo foi vista e tratada pelos simpáticos médicos, e passado poucos meses, já estava a caminho da sua cura.
Como eu já estava curado, ainda a fui visitar ao seu sanatório, Senhora da Saúde, e conversar com ela muitas vezes, pelo que ela ficou a saber de toda a minha vida, também muito difícil e cheia de solidão.
Mas como eu não queria, de forma alguma, recair, nem um beijo lhe podia dar !
Entretanto, já curado, tive de a deixar lá, à procura da sua convalescença, e me fui embora para Lisboa, sempre com aquela fisionomia na ideia. E pensava, : será que ela se cura ? Será que ainda está viva ?
Eu não lhe podia oferecer nada, mesmo nada, a não ser aquela adoração, mas passados uns 10 anos, já com os meus 24 anos, casei-me e já tinha os meus 3 filhos miúdos, quando, quando já empregado numa firma americana, fui fazer umas férias a Albufeira, no Algarve e no meio daquela grande confusão da chegada das pessoas, vou dar de caras com ela, também já casada e com filhotes. Ela estava tal e qual a havia conhecido, embora com roupa simples, de passeio, mas era o mesmo sorriso, aquela meiguice de olhar e sorrir, aquele falar baixinho que não fazia adivinhar a linda voz que ela tinha , ao cantar !
De imediato a apresentei à minha esposa que também simpatizou imenso com ela, e se fizeram grandes amigas, nunca mais se separando durante aquelas férias.

Ela se havia casado e com um rapaz, também lá doente num sanatório, que não a queria mais ver a cantar e a ter de correr meio mundo, para conseguir sobreviver. Assim, o seu casamento foi feito com a condição de ela largar a vida artística, e estava agora, só a fazer a vida de qualquer dona de casa.
Nesta foto, está ela com uma mão debaixo do queixo, enquanto a minha esposa se entretinha sempre com as suas rendas e um olho na garotada.
Quem ficou a perder, foram os irmãos, que não conseguiram adaptar-se a outros conjuntos musicais muito barulhentos, e nem me lembro de que viveriam, agora sem a sua Estrelinha, no meio deles.
E agora, viúvo e solitário, fico a pensar se ela ainda estará viva e livre… ERA BOM DEMAIS !