Monday, March 23, 2009

MEU AMIGO ARCÍLIO COSTA

      


 

       MEU AMIGO ARCILIO COSTA

  

Artigo Nº. 103            23 de Março de 2009
Ct1dt@sapo.pt   e   http://engenhocando2.blogspot.com

 

         Arcilio Costa, é um amigo que conservo  há mais de 50 anos, desde Maio de 1951, e nunca tivemos um amargo de boca, uma ausência de carinho.

   

    Desde que o conheci via rádio, na banda dos
40 metros, logo descobri uma pessoa invulgar, daquelas em que gostamos de “tropeçar” pela nossa vida, talvez por sentirmos que é GRANDE e, em muitas situações, maiores do que nós, daquelas pessoas a que hoje se chama, “amigo do peito”.

 

   O radioamadorismo, é uma espécie do que hoje chamamos de “Blog”, onde conhecemos imensas pessoas, anos e anos, mas agora, com a grande facilidade de as podermos conhecer por fotografias, imagem e som.

  O seu indicativo oficial, era CT1MI e a sua actividade radioamadorística, permitiu-lhe mais tarde, vir a conhecer perfeitamente, toda a aparelhagem electrónica da aviação, que estava a aparecer no mercado e a ensinar aos novos pilotos, como toda ela funcionava, para poder voar muito acima das nuvens, noite e dia.

 Toda a gente queria que fosse ele o seu piloto de instrução, porque sabia da sua capacidade imensa de ensinamento.

 

   Quando usando a rádio, não se pode fazer a mais pequena ideia de quem está “do outro lado”, e esta situação, muitas vezes, nos leva a grandes desaires, quando nos conhecemos pessoalmente… porque encontramos pessoas muito diferentes do que levámos anos a imaginar…

 

  Mas há 50 anos, só se podia ouvir a sua voz, mas podíamos conversar horas e horas, sobre o que estávamos a fazer e o que havíamos feito, e podíamos comentar toda a nossa vida, desde a infância, à adolescência, os azares e grandes alegrias da vida, as nossas aventuras e desventuras, com a complacência dos Serviços de Escuta Oficiais da DSR, Direcção dos Serviços de Radiocomunicações..

 

 Tanto podíamos ter uma vida muito desafogada, como cheia de dificuldades e em cada dia podíamos descobrir um assunto para conversar, uma experiência nova para fazer.

  Assim viemos a descobrir umas infâncias um tanto difíceis, mas tão semelhantes, que até parecíamos irmãos.

  Uma vontade insaciável de fazer experiências e arcarmos com as responsabilidades dos nossos, às vezes, incríveis projectos.

    

  Ele, na sua adolescência, também se entusiasmou pela aviação e de tal forma que em algum tempo, havia evoluído até à instrução de novos pilotos, e aprendido a voar imensas máquinas, praticamente todos os modelos ligeiros, existentes em Portugal.

  Não havia avião que fosse autorizado a voar, sem ter passado pelas suas mãos e corrigido de algum defeito existente e perigoso. Era um autêntico “piloto de teste” e tinha de conhecer a fundo, todos os defeitos e qualidades de cada avião, para auxiliar nas suas correcções e novos voos de ensaio, até ficar satisfeito.

  Ele tinha de conhecer as características de cada avião e, quando eles tinham de ser levados para a sua manutenção em Alverca, ele é que os transportava pelo ar e os experimentava antes da volta.

 

  

 

  Em 1961, eu me havia entusiasmado imenso pelos AUTOGIROS, aparelhos voadores  de asas rotativas e desejava fazer os primeiros ensaios, a reboque de um automóvel. Enquanto ele já era um sábio na aviação dos pequenos aviões ligeiros e de reboque de planadores, ele sabia do perigo em que eu me iria meter, e veio de Oliveira de Azeméis, a 200 Km de distância, propositadamente para me dar o reboque e conhecer um autogiro,  e como sabia pela experiência já antiga, que havia de fazer uma série de  corridas, até descobrir a velocidade em que o automóvel teria de andar, até se criar a sustentação, fez o seu melhor.

  E assim foi feito, mas o rotor de sustentação, é que não ganhava a rotação suficiente, e havia que fazer outra corrida um pouco mais rápida, e muito constante.

 

 A certa velocidade, as 360 rotações necessárias (RPM) , aconteceram e o aparelho descola muito suavemente, enquanto provocava um “zip-zip-zip” da corrente de ar no rotor, lá venho eu pendurado “naquela coisa”, a cerca de um metro de altura ! Estava a voar e a comandar a minha máquina ! Era a primeira máquina deste género, existente em Portugal.

  Mas como a pista se estava a acabar e eu ainda nem sabia que para ir mais alto, teria de aumentar a velocidade, assim que tentei fazê-lo, exagerei tanta a inclinação aos comandos, que o grande rotor de 9 metros de diâmetro, acabou por tocar no solo, à minha retaguarda, e como se danificou, tive de fazer uma aterragem forçada, mas com tanta violência que se partiu o trem de aterragem e sai uma cambalhota com a cabeça no chão e cegueira completa, embora consciente. Eu queria falar, mas não saía som nenhum…Eu estava a ouvir tudo o que se passava à minha volta, mas não podia dizer que estava vivo e nem um dedo conseguia mover…

  Então e depois dum grande esforço para dizer qualquer som, lá saiu um gemido e o Arcilio, ajudado por várias pessoas que logo apareceram, me pôs em pé, perante o alvoroço dos presentes, que gritaram ao mesmo tempo :ele está vivo!. Aí é que eu verifiquei que estava completamente cego e lhes pedi para me tirarem a terra que devia ter nos olhos, mas eles responderam que não viam terra alguma. !  Então, logo pensei que estava completamente cego ou partido a coluna !

 Foi realmente um momento de pânico, porque estava casado há pouco tempo e logo pensei o que iria ser da minha vida, completamente cego… mas muito lentamente, e seguro em pé para não cair, fui recobrando a visão e tudo voltou ao normal. Mas tinha sido uma experiência inolvidável !  Tinha valido a pena !

 Um camionista que se apercebeu do acidente, veio de imediato com ajudantes e colocaram em cima do camião os restos do meu autogiro.

 40 anos depois deste acontecimento, uma grande amigo meu, já estava a voar em autogiro MAGNI, um lindíssimo aparelho comercial e nele acompanhou a volta aérea a Portugal, e me concedeu a alegria de voltar a voar naquela estranha mas lindíssim máquina.


 
Há poucos anos, e dada a sua curiosidade pela aviação, consegui que ele fosse experimentá-la pela primeira vez, por convite do meu amigo Dr. Joaquim Figueiredo, dono e piloto do autogiro que tanta confusão lhe estava a fazer.

 

  

 

  Ambos amantes de tudo o que fosse científico, até entrámos pela medicina e construído aparelhos para tratamento de dores e inflamações, cada um com suas soluções . Ainda hoje defendemos pontos de vista diferentes !

 

   

 

Mas como pessoa muito exigente, constrói tudo com muita perfeição, nem que seja pelo gozo de as estudar, construir, afinar e experimentar ! Até os painéis são construídos por ele !


 
Como profissional exigente, percorreu o mundo de ponta a ponta, dos EUA ao Japão, para conseguir os melhores contratos e isso o levou à Direcção Técnica de várias empresas, embora mantendo a pilotagem dos aviões.

   Hoje vive da sua reforma, sempre muito distraído com tecnologias diferentes, com muito acesso aos computadores e usando o MSN que nos tem proporcionado imensas horas de contacto visual., embora nem sempre de acordo, como já é nosso velho habito.

 

   Infelizmente, como a mim aconteceu  também, perdeu a sua amada esposa, e felizmente que lhe deixou 3 filhos muito amigos, que lhe vão emoldurando a vida, tal como a mim.


  Com a sua enorme capacidade de realização, construiu uma belíssima auto-caravana, com tudo o que há de mais moderno, incluindo TV de satélite, HI-FI, painéis solares para recarga de baterias, frigorífico, etc.
passando imensas horas rodando pelo país maravilhoso que temos, para não se deixar envelhecer e enferrujar, embora já esteja com um pouco mais de 70 anos…

   Desculpa-me, Arcílio, o ter-te vindo “despir” um pouco em público,  mas se o não fizesse hoje, talvez amanhã já fosse tarde.

 

  

Posted by Engenhocando at 17:34:20 | Permalink | Comments (1) »

Monday, March 16, 2009

E DEU -LHE O NOME DE CAMILA

       E DEU-LHE O NOME DE CAMILA

Crónica nº. 102 de Março de 2009-03-04

 http://www.engenhocando.blog.com

http://engenhocando2.blogspot.com/

e-mail   ct1dt@sapo.pt


 

  Quando a minha amiga
Ana Bela, mais conhecida na NET, por Ana Ramon, me disse que havia dado o nome de Camila, à sua linda cadelinha Serra da Estrela, que o seu empregado Sebastião lhe havia ofertado, até senti um bac no coração !
  Mas aquele minúsculo animal, iria ser mais uma preocupação para ela e, por isso, não achou graça nenhuma à oferta…
  Só que Camila era a meiguice “em pessoa” e logo se afeiçoou à sua dona, só pedindo carinhos, o que tocou fundo no seu coração.
  Felizmente que os outros cães a aceitaram muito bem, embora ela sempre sentisse a necessidade de se refugiar no colo da dona, mal eles se aproximavam…

  Como ela tem na sua quinta, muitas ovelhas que tem de guardar e por a pastar, ainda não havia encontrado aquela raça de cão, que consiga acompanhar o rebanho, sem lhe fazer mal.
  Aquilo é um problema complicado, porque os seu cães de guarda, se atiram aos recem nascidos e os matam. Tinha de ser um cão que desde pequenino, conseguisse dormir junto delas, para as considerar como “irmãs” a quem defender, embora tenha de ser bem ensinado…

  É que, quando eu estava muito doente e num sanatório do Caramulo,  mas já me encontrava na linha dos curados, apareceu por lá um conjunto musical muito simpático, em que a Estrela era uma linda garota de nome Camila. Era o TRIO ODEMIRA.

  Aquele pequeno conjunto de 3 artistas, em que os irmãos tocavam maravilhosamente viola e a acompanhavam , mas o mais virtuoso era canhoto, e o braço da sua viola, ficava para a direita, enquanto o outro irmão, que era destro, e ficava para a esquerda.

  Assim a Camila, ficava ao meio, vestida de sevilhana, tecido de cetim azul, cantando lindamente em espanhol e rodopiando enquanto tocava as castanholas, com uma linda rosa vermelha agarrada ao cabelo.

  Aquela visão duma tão jovem alourada, deu-me volta ao miolo…

  Eu nunca havia estado perto duma “espanhola tão linda” de pele acetinada, e que pronunciava tão distintamente o espanhol , como as que eu ouvia na rádio!

  Dentro de toda a assistência, eu era o mais novo e fiquei mesmo à frente, a cerca de uns dois metros deles, porque não havia palco. Era uma sala normal de recreio.

  Talvez já fosse hábito dela, sair de dentro dos irmãos e vir cantar muito perto da assistência que a seguia hipnotizada.

  No meu caso, ela quase que me tocava com o seu nariz no meu !!! Aquilo era bom DEMAIS… até porque tínhamos a mesma idade, e ambos solteiros.

 

  Naquele tempo, ainda não havia televisão e os artistas tinham de andar sempre de terra em terra, à procura dos seus ouvintes.  Era pois uma vida extremamente dura e mal paga , pelo que eles tinham muita dificuldade em sobreviver, até porque ela era todo o amparo da sua mãe, que estava cega.

 Talvez por isso, a “minha” Camila adoeceu dos pulmões, mas como estava de visita ao Caramulo, logo foi vista e tratada pelos simpáticos médicos, e passado poucos meses, já estava a caminho da sua cura.

 Como eu já estava curado, ainda a fui visitar ao seu sanatório, Senhora da Saúde, e conversar com ela muitas vezes, pelo que ela ficou a saber de toda a minha vida, também muito difícil e cheia de solidão.

 Mas como eu não queria, de forma alguma, recair, nem um beijo lhe podia dar !

Entretanto, já curado, tive de a deixar lá, à procura da sua convalescença, e me fui embora para Lisboa, sempre com aquela fisionomia na ideia.  E pensava, : será que ela se cura ? Será que ainda está viva ?

 

  Eu não lhe podia oferecer nada, mesmo nada, a não ser aquela adoração, mas passados uns 10 anos, já com os meus 24 anos, casei-me e já tinha os meus 3 filhos miúdos, quando, quando já empregado numa firma americana, fui fazer umas férias a Albufeira, no Algarve e no meio daquela grande confusão da chegada das pessoas, vou dar de caras com ela, também já casada e com filhotes. Ela estava tal e qual a havia conhecido, embora com roupa simples, de passeio, mas era o mesmo sorriso, aquela meiguice de olhar e sorrir, aquele falar baixinho que não fazia adivinhar a linda voz que ela tinha , ao cantar !

De imediato a apresentei à minha esposa que também simpatizou imenso com ela, e se fizeram grandes amigas, nunca mais se separando durante aquelas férias.

 

 
   

  Ela se havia casado e com um rapaz, também lá doente num sanatório, que não a queria mais ver a cantar e a ter de correr meio mundo, para conseguir sobreviver.  Assim, o seu casamento foi feito com a condição de ela largar a vida artística, e estava agora, só a fazer a vida de qualquer dona de casa.
  Nesta foto, está ela com uma mão debaixo do queixo, enquanto a minha esposa se entretinha sempre com as suas rendas e um olho na garotada.

  Quem ficou a perder, foram os irmãos, que não conseguiram adaptar-se a outros conjuntos musicais muito barulhentos, e nem me lembro de que viveriam, agora sem a sua Estrelinha, no meio deles.

  E agora, viúvo  e solitário, fico a pensar se ela ainda estará viva e livre… ERA BOM DEMAIS !
 

Posted by Engenhocando at 13:23:16 | Permalink | Comments (1) »