Sunday, February 15, 2009

MEU AMIGO JOÂO PEREIRA

  “MEU AMIGO JOÂO PEREIRA”
  Crónica nº.100 de 15/2/2009
  
   Todos nós temos pessoas que se cruzam na nossa vida e há algumas que sobressaem por algo nos dizerem muito de especial.  João Rodrigues Pereira, foi em deles.  Ele tinha uma figura interessante e até se parecia muito com o actor de cinema americano  Clark Gable.  
   Quando eu adoeci dos pulmões, em 1945, fui encontrá-lo e conhecer, no sanatório CENTRAL do Caramulo, lá para os lados de Tondela, e ele tinha tuberculose num rim.
   Felizmente que ele já estava em estado de cura e logo que me aconteceu o mesmo, nos colocaram na mesma mesa da sala de jantar, onde já estavam dois técnicos dos CTT, o Mário Martins, e o José Fonseca. 
  Naquela sala enorme, havia gente de todas as idades e profissões, mas eu era o mais novo.
  Talvez por eu ser uma pessoa muito extrovertida, logo chamei a atenção de alguns outros doentes, uns em melhor estado do que eu, e outros bem pior.
  
  Uma coisa de que eu gostava muito de fazer, eram caricaturas e havia ali, naquela malta toda, imensas para fazer.  Assim escolhi o que tinha uma cara mais fácil de caricaturar, o que os meus colegas da mesa, acharam imensa graça, porque estava mesmo parecida…
  Como o meu amigo João Pereira, tinha muita habilidade para escrever versos, logo iniciámos uma página que era colocada no painel da sala de jogos, com os seus versos e as minhas caricaturas.

  Este meu amigo João Pereira, era engenheiro Geógrafo, e toda aquela malta era casada, mas vivendo muito afastados das suas familias. Só eu era ainda solteiro.

 
  Nas mesas mais próximas, estavam também doentes, médicos como o Dr.Amaro da Silva Rosa, o desenhador Alvaro Caffer e Reno, e muitos outros, pintores, caixeiros viajantes, professores e sei lá, quantas mais profissões.

  Logo a seguir`ao almoço, onde nos tínhamos de apresentar da camisa, casaco e gravata, havia um espaço de tempo de quase uma hora, antes de termos de ir fazer as CURAS,  em que todos tínhamos de estar deitados numas camas estreitas de ferro, num alpendre, a apanhar os belos ares da montanha, sem nos deixarmos dormir e sem falar.
  
  Neste período de pausa entre o almoço e a CURA, o meu enorme quarto de dormir, era “Invadido” por estes amigos, embora fossem só uma meia dúzia dos mais selectos, mas como todos fumavam, quando dali saiam, era tanto o fumo, que eu tinha de abrir as janelas, para ele sair…

   Cada um falava das suas coisas, das saudades das esposas e filhos e se contavam anedotas, quase sempre bem picantes… 
   Toda a outra malta se juntava numa sala de jogos no outro extremo do andar, a jogar as cartas ou o dominó.

   Talvez, e não sei porquê, eu havia ficado no centro daqueles encontros mais ou menos ruidosos, mas também é certo de que era o maior quarto daquele sanatório, porque se havia curado o meu companheiro de quarto, o Isolino, e assim, eu estava com mais espaço disponível.
  Foi na época da foto que encabeça esta crónica, que me entusiasmei em construir uma estação de rádio “pirata”, muito pequena e sem conhecer nada de eletrônica, que a construi e pus a funcionar, mas os seus 2 ou 3 Watts, chegavam a quase todos os outros sanatorios.
  Naquele tempo, nenhuma outra rádio lá chegava, e depois das CURAS, eu ainda tinha uma hora disponível, para irradiar o meu radio. Depois entrava a funcionar o Radio Polo Norte, também montado no Caramulo, por outro meu amigo, o Joaquim Seabra.

Como no inverno, todos andávamos de fortes capotes pretos, mais parecíamos uns pinguins e daí o ter dado o nome de Radio Clube dos Pinguins, (RCP) à estaçãozinha de rádio.
  Como a energia eléctrica era fornecida por um grande gerador, à noite, a luz ficava tão fraca, que nenhuma telefonia conseguia tocar, mas como eu havia construído um elevador de tensão, já tinha energia para um rádio, e lá vinha aquela malta toda para o meu quarto, para ouvir as noticias, os discursos políticos, as rádio-novelas, a música e…fumar.
  
   Como ele não tinha filhos, vivia com uma pena imensa das crianças doentes e internadas do SANATORIO INFANTIL, ali mesmo atrás da Ermida e que era controlado por freiras, até porque havia crianças de colo e todas cheias de saudade dos seus pais.  Aquilo fazia mesmo pena !

  Um dia, em que havia adquirido um pequeno projector de cinema de manivela, ele me perguntou: E se mandássemos vir uns filmes de desenhos animados, para entreter os miúdos ?
  Aquela ideia também me apaixonou e começámos a fazer peditórios destinados aquele fim, por todos os sanatorios , pelo que se conseguiu o dinheiro suficiente para mandar vir os filmes, e comprar uns pacotes de rebuçados, para entregar aos miúdos mais disciplinados…
  Logo que chegavam os filmes, lá agarrava eu num tripé com o projector de 9,5mm, enquanto o João Pereira levava os filmes e os pacotes de rebuçados.
  A criançada ficava louca de alegria e nós os dois também.

  Depois de nos termos separado, porque ele se veio embora e curado, ainda lhe escrevi a dizer que estava a viver em Benavente, e ele me havia contado que estava a trabalhar nas medidas da Barragem do Alqueiva, em pleno Alentejo.
   Não me lembro porquê, às tantas perdemos o contacto um do outro e ele até pensou que eu tivesse morrido.

   Mas um dia em que um casal de Benavente, onde eu vivia, estava de férias no Alentejo, e no mesmo hotel do meu amigo, ele ouviu falar do meu nome e logo desejou fazer referência à minha pessoa, com ar muito contristado, por julgar que eu já não existisse, mas logo foi informado de que me conheciam perfeitamente e que já tinha casado com uma linda ribatejana e tinha 3 filhos !
   De imediato me apareceu de visita, acompanhado da sua esposa, a D. Carlota, e tendo passado a viver em Samora Correia, a 6 Km de Benavente, agora empregado na Companhia das Lezirias.

 

   E vivemos mais alguns anos, imensos fins de semana, até que ele começou a ter muita dificuldade de andar e vim a saber depois, que ele havia falecido de Parkison.

   Entretanto, este tão grande amigo, de há mais de 50 anos, nunca mais esqueci e dele me recordo imensas vezes, com imensa saudade. 
  
     

Posted by Engenhocando at 15:29:24 | Permalink | Comments (3)