Friday, August 1, 2008

E A MINHA CADEIRA PEGOU FOGO…

  
   E A MINHA CADEIRA PEGOU FOGO !

   Crónica Nº.93 de 1 de Agosto de 2008
   e-mail  CT1DT@SAPO.PT
   Nota: Os 92 artigos publicados, estão em Julho de 2007

  Era Inverno, mas eu havia estado tranquilamente assentado na véspera, na minha cadeira favorita, de costas para a janela que dá para a rua, e dele me vinha a luz, mais do que a suficiente, para poder ler e pensar tranquilamente, ou ouvir deliciado as minhas músicas favoritas e irradiadas pelas minhas brutais colunas de HI-FI, dado ser um apaixonado pelo som de alta qualidade.

  Como toda a gente, eu também gostava muito daquele meu cantinho, que tem sido desde há muitos anos, mais de 30, o meu lugar preferido e de tão tranquilo e calmo, que imensas vezes, me deixo adormecer por algum tempo.

 Dele posso comandar toda a aparelhagem de HI-FI, Gira-discos, Videotape, DVD e CD’s, além dum receptor de TV de médias dimensões, só com o estender dum braço.

O mais engraçado, é que quase toda esta aparelhagem, me foi oferecida para deitar ao lixo e talvez poder aproveitar algumas peças.  Mas como Deus me deu um pouco de habilidade e paciência, mais ou menos , sempre fui encontrando maneira de as repor em funcionamento … nem que para tal, tivesse de usar semanas e semanas de trabalho…muita persistência e estudo.
 Quase todas estas reparações, deram origem à escrita de artigos técnicos que ia publicando na única revista técnica portuguesa, de rádio, que se publica em Portugal, em Viseu, e que se chama QSP, onde descrevi como havia executado as reparações, com a ideia de entusiasmar outras pessoas a optarem por reparar elas mesmas, em vez de simplesmente, deitar ao lixo.
 Pelos comentários e correio que alguns dos seus  8000 leitores, me iam fazendo, a pouco e pouco fui ficando talvez demasiadamente conhecido… mas só nessa revista, já publiquei quase 1000 paginas, e desde há muitos anos.
 Verdade seja dita que as minhas conversas via rádio, com tanta gente desconhecida, também ajudaram a que as minhas comunicações deixassem transbordar um pouco desta alegria de ajudar os outros e assim ganhei centenas ou milhares de amigos.
 Hoje, com 81 anos, sinto a felicidade profunda de ter podido ajudar imensa gente com ideias e opiniões.

    

  Mas para estar melhor de temperatura, eu havia colocado um cobertor eléctrico sobre as pernas, desses pequenos, que só colocava sobre as pernas, transversalmente, na cama, até que havendo chegado a hora de jantar, sacudi-o de cima de mim, e desliguei a corrente eléctrica geral do meu “quarto dos brinquedos”, onde tenho quase tudo o que é ligado à rede de energia, como PC, equipamento de comunicações rádio em muitas bandas, imensa aparelhagem de análise de electrónica, Printers, Piano electrónico,  além da biblioteca repleta de artigos técnicos de todo o estilo, até mesmo médicos, montanhas de discos LP, cassetes e CD’s, máquinas fotográficas, cinema, video, etc…

 Esta operação exige um disjuntor geral e, para ter a certeza de que não fica nenhum aparelho ligado, desligando-o, posso abandonar a sala em descanso.

 No dia seguinte, e por norma, enquanto me estou a “alindar”, ligo esse disjuntor e o computador, deixando-o a carregar tudo o que é normal, incluindo o correio electrónico.
  Assim, mal me sinto suficientemente “alindado”, venho ver o que o PC deixou entrar e logo começo a faina do dia, vendo os mails e respondendo a todos os que têm de ser respondidos, ou gozando com muito do correio entrado, algum mesmo de me fazer rir, de tão jocoso que é, e outros me deliciam a ver imagens de todo o Mundo, daqueles .pps, com imagens de sonho, ou pequenos filmes do YOUTUBE. Ou seja, deixo entrar no meu quarto, O MUNDO !

 Mas naquele dia “malvado”, enquanto me estava a “alindar”, notei cheiro a fumo e logo me dirigi à cozinha, sítio mais provável de me ter esquecido de alguma coisa ligada, até porque a minha governante estava lá, mas não; o cheiro vinha do meu quarto dos brinquedos, para onde corri, mas embora estivesse a luz acesa, não via nada !!!  Estava completamente às escuras com espesso fumo negro e, de imediato, ainda sem saber o que estaria a originar aquela fumarada, logo desliguei o disjuntos, mas nesse preciso instante, o cobertor eléctrico entrou a arder em poderosas chamas ! Explodiu !
  Pior, agora já não era só o fumo, mas o calor das chamas era insuportável !

 Ainda corri ao WC à procura dum balde de água, mas já não conseguia apagar o fogo que se agarrou aos cortinados da janela e já as chamas iam no tecto, com a minha cadeira a arder e até as madeiras da janela, além do chão e duma secretária cheia de material electrónico, que está mesmo ao lado !

 Ainda berrei à porta de entrada, para me chamarem os bombeiros, mas eu já sabia que se eles aparecesse, e até só estavam a uns 500 ou 600 metros de distância, toda a minha valiosa aparelhagem, iria para a sucata com a água que eles me iriam lançar sobre ela…provavelmente…

 Felizmente que a minha governante, a D. Paula Pirico, mulher intrépida e muito desenrascada nas lides do campo e com as fogueiras que tinha de fazer todos os anos, para se ver livre do pasto seco, logo se lembrou que o melhor seria abrir a janela e atirar com o cadeirão a arder por ela fora, e se alguém lá estivesse a passar, que se afastasse !
 Uma coisa era certa, não havia mais tempo a perder e a falta de ar era enorme, além do calor abrasador que inundava o quarto todo !  Felizmente que era um rés-do-hão !

 Mas como chegar à janela, se aquilo era um mar de chamas ?
 Mas com enorme coragem, a D. Paula enrolou uma toalha no seu braço direito, estendeu-o por entre as chamas e conseguiu abri-la de par em par, e com a minha ajuda, lá conseguimos  nós os dois, agarrar os dois pés da frente do cadeirão, nuns centímetros que ainda não estavam a arder e num repente, atirámos com o “maple” para a rua, onde já estava toda a vizinhança a ver o espectáculo…do outro lado da rua.

 Daí a momentos, surgem os bombeiros que abafaram o incêndio do cadeirão, aquela coisa estranha e incrível, pois provavelmente ninguém entendia porque estaria um cadeirão a arder daquela forma…

 Eu já não podia mais respirar e estava quase a desfalecer, mas a minha intrépida governante, arrancou os restos dos cortinados que ainda estavam a arder, enquanto eu ia buscar mais água e assim, lá conseguimos acabar com aquele incêndio, mas a sala estava toda negra de fumo, paredes e todos os aparelhos existentes !
 Que tristeza de quarto, mas felizmente a estante dos livros não tinha sido afectada e com imensa paciência, peça a peça, lá se foi limpando cada uma e inclusive o soalho de madeira, até tive de arrancar muitos tacos que já estavam a arder e eram só carvão.

 Nos dias seguintes, havia imenso que fazer, como lavar as paredes enegrecidas, até voltar a ter o meu cantinho dos brinquedos, em condições de se poder lá estar, se levou muito tempo, pois havia que deixar secar tudo e inclusive pintar o quarto de creme, que era a sua cor normal, e o tecto de branco, trabalho que a minha governante teimou em fazer por suas mãos.

 Para a D. Paula, aquilo tinha sido só mais um incêndio, mas para mim, não ! 
 Por que diabo o cobertor eléctrico se teria incendiado ?

 Na verdade, bêbado de sono, na véspera, eu não me lembrava de o ter desligado, quando o tirei de cima de mim e ele tinha ficado mais ou menos dobrado, quando eu liguei o disjuntor no dia seguinte.
 Ou seja, naquelas dobras do cobertor, a temperatura tinha subido drasticamente em poucos minutos, logo se seguindo o disparar do incêndio.
  Aquilo nunca mais me deveria acontecer e até escrevi depois, um artigo para uma revista técnica de radio, para que nunca se deixasse um cobertor eléctrico dobrado e ligado.
  E fiquei a pensar nos imensos incêndios que estes cobertores eléctricos têm proporcionado, por este motivo.
  São coisas muito bem feitas, mas têm de estar sempre alisados e nunca os tratar como simples e vulgares cobertores.  Eles não permitem dobras.

 

Posted by Engenhocando in 14:39:45
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