O LINDO VESTIDO DE CETIM CASTANHO
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Crónica nº.87 - Maio 2008
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Quando meu pai faleceu, em 1938, eu tinha somente 11 anos e ele 45.
Minha mãe era muito nova, linda e esbelta, mas tinha sofrido um enorme desgosto no seu primeiro amor, com um oficial madeirense de nome Santos Pereira, que tinha uma irmã com loucura, e disso veio a ter conhecimento a minha avó, que tinha um horror imenso às pessoas loucas.
Para piorar as coisas, minha avó teve conhecimento de que o namoro com o Santos Pereira, era mais devido a ele possuir uma pessoa que pudesse tratar e conviver com essa irmã louca, do que por amor.
Minha avó começou a enlouquecer e de tal maneira que meu avô, sendo médico e verificando o estado de saúde da minha avó, que já andava às gargalhadas pela casa e dizer disparates…acabou por ir pedir carinhosamente à minha mãe, que desistisse daquele casamento, para não ficar com a sua mãe louca.
Mas aquele primeiro amor da minha mãe, quase deu com ela em louca, mas não viu outra saída, que não fosse acabar mesmo com aquele namoro…
Felizmente que, por casualidade, aparece em S. Miguel, um continental muito fino e delicado, que estava a montar em Ponta Delgada, umas máquinas da sua Empresa Nacional de Máquinas, de Lisboa e o dono das máquinas, desejou apresentar a este ilustre personagem, do melhor que houvesse em S.Miguel, e que era a minha família que vivia nos Ginetes, a 25 Km de distância, os meus avós e mãe, pessoas muito conhecidas na ilha pela sua virtuosidade a tocar piano.
Minha mãe estava ainda muito longe de ter esquecido o seu primeiro amor dos 20 anos, mas estava com certa curiosidade de conhecer essa visita continental, um tal Martins Faria, um pouco mais velho do que ela, mas que era uma pessoa muito alegre e faladora, além de apreciar profundamente, a boa música.
Assim, lá chegou aquela rara sumidade e que foi logo recebida por meu avô e avó, mas minha mãe embora curiosa, estava um tanto relutante em aparecer…
Mas os meus avós é que simpatizaram muito com ele, até porque sabia muito de música, de automóveis, motores, mecânicas, de electricidade, tudo coisas que meu avô também gostava.
Até que chegou o momento de irem buscar a minha mãe e ela lá veio, muito envergonhada, conhecer o Sr. Faria, aquele personagem que tinha uma voz grave e muito bem timbrada com todo o sotaque continental, que tanto encanta dos açorianos, porque falam muito claro. Após poucos minutos de conversa, ele até disse que tocava violino e adorava o piano, pelo que estava desejoso de a ouvir.
Minha mãe logo se assentou ao piano e tocou uma das suas melhores interpretações, que deixou o Sr. Faria completamente encantado… Ele nunca tinha ouvido tocar assim…aquilo era demais !
Os meus avós estavam muito atentos aos acontecimentos, até porque desejavam ardentemente que minha mãe esquecesse aquele primeiro amor pelo oficial, e se deixasse aproximar deste jovem engenheiro de máquinas e tão conhecedor de música séria.
Assim, ficou combinado que na sua próxima viagem a S. Miguel, ele viria acompanhado do seu violino e fariam os dois, uns belos concertos.
Ele não era o que se pode chamar de homem bonito, mas o encanto da sua
conversa, acabou por tocar bem perto a minha mãe que, a pouco e pouco se deixou levar pela sua agradável companhia, aquele tão lindo sotaque continental e habilidade para contar anedotas finas, até porque sabendo tocar violino, estava mais perto dela, do que o antigo namorado que só sabia tocar campainhas de porta… e tinha lá em casa, a tal irmã enlouquecida…
Assim, não foi difícil levar minha mãe a esquecer o antigo namoro e com tão enorme reportório musical, cada vez mais encantar o Sr. Faria, que a ouvia extasiado!
Meu pai era uma pessoa muito alegre, mas um tanto reservada, só se abrindo para pessoas muito especiais, daquelas com quem dá gosto conviver e além disso, estava solteiro e livre.
Daí ao seu casamento com a bela Maria da Luz, assim se chamava ela, foi um saltinho.
Como meu pai teve de vir ao continente buscar mais máquinas, tratou logo dos papeis necessários para o casamento e na volta, teve de passar pela ilha da Madeira, onde foi procurar saber quem era o tal oficial e, ao encontrá-lo, logo lhe perguntou:
«O Sr. é que queria casar com a D. Maria da Luz Leça? “, ao que ele respondeu de imediato que sim.
Meu pai sacou da algibeira os papeis para o casamento e lhe respondeu:
«Pois fique a saber que quem vai casar com ela, sou eu e até já levo aqui a papelada para o casamento..:”
O oficial nem queria acreditar, julgando que ele estivesse a brincar, e lá se despediram, embora deixando o oficial muito baralhado de ideias….
Mas nos Açores, houve qualquer complicação com as máquinas e ele teve de voltar urgentemente ao Continente, ficando combinado que o casamento teria de ser feito em Lisboa e assim vieram meus avós, a acompanhar a filha para que se casasse em Lisboa. o que veio a acontecer por volta de 1923.
Meu pai vivia por cima da Empresa Nacional de Máquinas, num prédio de esquina, imponente, e que dá para a rua da Palma e Av. Almirante Reis e Largo do Intendente.
Portugal estava constantemente em revoluções militares que iam deitando por terra, todos os empreendimentos em que meu pai se metia…
Entretanto adoece gravemente de diabetes e pulmões, indo acabar os seus dias nos Açores, em S. Miguel, na casa de meu avô, onde o vim a conhecer pessoalmente e assistir à sua morte.
Desta vida, faço fé, no meu blog, em “Martins Faria, uma vida de sonhos “.
9 meses depois, nasce o meu irmão Carlos Mar, depois a minha irmã Maria Manuela, mas por qualquer motivo que desconheço, eu fui nascer em S. Miguel, nos Ginetes, na “casa cor de rosa” de que tenho falado várias vezes no meu blog, mas os outros irmãos já no Continente, novamente.
Esta conversa só serviu para que o meu leitor entendesse melhor o meu amor por S. Miguel.
Mas a morte prematura de meu pai, deixou a família em sérias complicações financeiras e embora ainda tivesse tirado o curso do Magistério Primário, e trabalhado com ele durante uns anos, acabou por saltar para Lisboa, onde arranjou emprego interno na Santa Casa da Misericórdia e teve de “arrumar os filhos”, da melhor maneira possível .
É nesta altura que descrevo no meu blog, “Um açoriano abandonado em Lisboa”, com enormes dificuldades financeiras, mas acabando por ir parar ao Arsenal do Alfeite, onde o seu Director Técnico, era o Eng. Vargas Moniz, amigo de infância da minha mãe, e de quem falei no meu blog, em ” Meu amigo Eng. Rogério Vargas Moniz”.
Infelizmente, a precária alimentação e muito cansaço, acabou por me originar uma grave doença pulmonar e isso, conto no blog, em “Atacado pelos ácaros”.
Minha mãe moveu mundos e fundos, para que eu fosse para um sanatório dos instalados na Serra do Caramulo e como sempre, vestida de negro, se foi despedir de mim no comboio, na estação do Rossio, num apertado abraço, lavado em lágrimas, como eu já não via desde a morte de meu pai… provavelmente pensando que seria o seu último abraço dum filho, em vida, mas talvez devido à minha ignorância da importância da minha doença, até ia contente, pois o doloroso tratamento a que estava a ser sujeito em Lisboa, deveria ser menos mau no sanatório.
Felizmente que a morte só me agarrou de raspão e uns anos depois, eu me via curado e de volta a casa, a Lisboa.
Aí, cá estava eu sem emprego, mas como minha avó me tinha ensinado a falar, escrever e entender o inglês, um dia me entusiasmei em entrar no Consulado Americano e pedir para falar ao Sr. Cônsul que, após uma certa insistência minha, lá me atendeu e, como eu lhe expliquei que já havia construído a minha estação de radioamador, de que mostrei uma fotografia, que gostaria de trabalhar para a RARET, ele me deu a morada da Sede da Empresa e lá fui eu, onde fui muito bem recebido, talvez por ir recomendado pelo Sr. Cônsul…
A minha entrada em Benavente, foi trágico-cómica, porque nós éramos considerados “os americanos”, mas era tudo malta muito nova e pronta a conviver.
É desta entrada em Benavente, que me refiro no blog, em “E me convidaram a tourear a cavalo”, em Outubro de 2007.
Mas eu não havia esquecido aquela roupa preta que minha mãe teimava em vestir e jurei a mim mesmo, que logo que tivesse algum dinheiro, lhe ofereceria um tecido de outra cor e, assim, procurei o melhor que o Pedro Vermelho, que tem uma loja de fazendas, possuía, em Benavente, e que me recomendou um tecido de cetim castanho, realmente bonito.
De imediato saltei a Lisboa para ofertar aquele tecido à minha mãe que, talvez para me agradar, lá foi mandar fazer o vestido que lhe ficava lindamente. Que linda que ela ficava !
Ela era mais ou menos assim bonita, como nesta foto.
Sobre esta fisionomia muito suave, havia um olhos castanhos. Toda ela era romantismo para a música e o seu piano de cauda brilhava todo o dia.
Mas passado pouco tempo, eu venho a descobrir uma linda garota que me enfeitiçou desde o primeiro encontro !
Eu estava desejoso de meter conversa com ela, mas só conhecia bem um rapaz, um pouco mais novo do que eu e se chamava Gualtar Santos, e lhe perguntei se ele conhecia aquela garota de casaco vermelho, ao que ele me respondeu que conhecia e muito bem.
Assim lhe perguntei se ma poderia apresentar e marcou-se esse encontro para o dia seguinte, mas para meu espanto, ao chegar na hora certa, ao local, vejo o meu amigo abraçado à garota dos meus sonhos, na janela do rés-do-chão, e os dois com cara de gozo !
Quando me viram tão aflito, ele adiantou: ” Não te aflijas. Ela é minha irmã Alice Rosa”… Livra, que alivio !
Ela era tão pobre como eu, mas de boas famílias, e dois anos mais velha do que eu, mas estava livre, embora tenha vindo a saber que tinha tido uma paixão antiga, mas nunca me disse porquê não a tinha usado para casamento… mas para mim, tanto melhor e queria lá saber dos antigamentes…
Mas como éramos ambos pobres e eu nem tinha reservas, toda a sua família achou por bem ajudar ao nosso casamento e, passados 2 meses, estávamos casados e a morar numa velha casinha, no meio do campo, que os seus avós tinham conseguido arranjar, por dentro e por fora, em Vale de Estacas, e até pertencia aos que foram os meus padrinhos de casamento, Dr. Ferreira Lourenço, Presidente da Câmara e sua esposa, a D. Joaquina.

Como ela estava ainda mais linda, vestida de noiva !
E, como não podia deixar de ser, lá estava minha mãe no seu vestido de cetim castanho, com um bonito chapéu, de abas largas, tão linda que mais parecia uma rainha e eu todo feliz.
A partir dessa data, e enquanto viveu até aos 95 anos, nunca mais a vi vestida de preto.

Bom dia Macanudo!!!
Peço desculpa pela intrusão no “seu” espaço, ao qual acedi via Ana Ramon, e felicito-o pela forma como, do malto dos seus oitentas e tais se agarra e dá valor à vida. As suas histórias de vida são autênticas pérolas que importa reter e divulgar e o Senhor fá-lo com muita qualidade e saber.
Aceite os meus sinceros parabéns e os votos de que continue a teclar por muitos anos.
Boaventura Eira-Velha
Meu caro Mário Portugal
É provável que não se recorde assim às primeiras de mim. Sou o Nunes, mas o CT1CIR de Leiria e da ARAL, lembra-se?
Vim aqui parar vindo da Ana Ramon e depois de alguns desnortes, por causa dos blog e blogspot.com mas cá cheguei.
A transcrição que a Ana ramon fez no seu blogue é extraordinária e, só o facto de ela se ter lembrado de falar do meu bom amigo levou-me imediatamente aqui ao seu contacto.
Vou começar a aparecer por aqui. Tenho andado um tanto arredio das lides radioamadorísticas mas acho que vou voltar. Um dia destes…
Se tiver oportunidade de passar pelo meu blogue fica a situar-me melhor. Talvez.
Muita saúde, meu amigo, que disposição e vontade de continuar activo não lhe tem faltado.
Sempre QRV
A Nunes - CT1CIR Leiria
Belíssimo texto, belíssima história, belíssimo… tudo.
Obrigada por emocionar o meu dia
Que história maravilhosa,certamente vou lembrar para sempre dela. toca fundo nossos corações.
Um abraço, muita paz,amor e longos dias
bjooo