Tuesday, January 15, 2008

PORTUGUÊS de Cravo e Ferradura

       A REVOLUÇÃO DA LINGUA PORTUGUESA

   ( Artigo Nº. 77 de Engenhocando.blog.com  )
             ( e-mail   ct1dt@sapo.pt )

   Esta tremenda revolução na língua portuguesa, que já está em funcionamento desde Janeiro de 2008, vem colocar os idosos portugueses, entre a espada e a parede, em especial para os mais idosos !
   Levámos 80 anos a aprender a escrever a nossa língua, depois da revolução de 1900, (?) desde aquela exigência de alterar a ortografia mais ou menos afrancesada, como o escrever Farmácia sem o PH , methodo, excellente, physiologia, extractos, e milhões de outras palavras…
   O novo tratado, por causa dos nossos irmãos brasileiros acharem que era mais fácil escrever retirando várias letras que não se pronunciavam, veio provocar um abalo tremendo na nossa forma de escrever o português de Portugal, o ORIGINAL.

  « Embora já existam cavalos e outros quadrúpedes para “calçar”, (ferrar) há muitos milhares de anos,  talvez não venha a despropósito, falar de “cravos” e “ferraduras”, antes de entrar nesta crónica, até porque é provável que muita gente nunca tenha visto um potente animal a ser ferrado…

 O Ferrador, tinha de ser um indivíduo bastante forte e dotado de muita habilidade, para segurar a pata do animal entre as pernas, enquanto “alindava” o aspecto do “casco” (unha) à lima, e tinha de ter as duas mãos livres…e tinha de ir fazer à forja, uma ferradura ao tamanho do casco e fazer-lhe uma data de furos cónicos, com o ferro em brasa, e ir experimentando no casco do animal, até acertar a ferradura que, como é natural, não podia ser nem mais pequena do que o casco no animal, nem maior.

 Depois vinham os cravos, uma espécie de pregos cónicos que tinham de ser enfiados um a um, de forma a entrarem pelo casco, como se fossem a nossas unhas, e saindo pelo lado, onde as pontas eram reviradas.

 E tinha de fazer esta operação nas quatro patas do animal, trabalho que tinha de ser feito rapidamente, dado haver outros animais à espera e para que eles não ficassem extremamente nervosos e impossíveis de se deixarem ferrar.

 Com o advento da electricidade, em 1880, e das pilhas, houve até quem experimentasse com sucesso, meter na boca dos cavalos mais rebeldes, os fios dum gerador de choques, durante uns segundos, tendo verificado que os animais ficavam como anestesiados e muito calmos. Depois, o técnico dos choques podia parar a máquina de choques, mas tinha de se lá deixar ficar à frente do cavalo, muito quieto, para dar a entender ao animal, que ainda estava a receber os choques na boca…

 Quando eu vim viver para o Ribatejo, em 1951, os cavalos eram aos milhares e todos os dias os dois Ferradores aqui existentes, tinham até trabalho demais ! 
 Mas um dia, eu fui assistir, por curiosidade, àquele trabalho e até fiquei a admirar aqueles Ferradores que, todos os dias tinham de fazer aquele penoso trabalho, pois não só os animais não gostavam de ser ver só com 3 patas no chão, mas de cada martelada que o ferrador lhe dava, para ir cravando os cravos, os animais respondiam encolhendo a pata, e levando atrás o desgraçado do ferrador que a tinha bem apertada entre as pernas… 
 Era pois necessária muita habilidade para conseguir acertar nos cravos e muitas vezes, o martelo acertava era na ferradura.
 Foi devido a esta situação de uma vezes se acertar no cravo e outras na ferradura, que intitulei esta crónica, como “Português, de cravo e ferradura”.

       Assim, sempre que qualquer pessoa falhava nos seus intentos, o povo se habituou a dizer: dás umas no cravo e outras na ferradura, ou quando se teimava insistir numa ideia, mas às tantas, se mudava 180 graus para o lado oposto, era a mesma coisa. Quando alguém muda de opinião, é a mesma coisa…

   Isto é o que vai acontecer agora, e durante muitos anos, talvez mais de 50, até que todos os portugueses que aprenderam a escrever de uma certa forma, se vão ver na eminência de acertar “uma no cravo e outra na ferradura”, quando desejarem escrever , por exemplo  “acção”, ou “reacção”, ou “colecção”, ou “objectivo” como sempre escreveram, e desejarem acompanhar a Revolução ortográfica do Tratado, pois inevitavelmente irão escrever “à antiga”, até se habituarem à nova forma de “ação”, reação” ou “coleção” ou “objetivo”…
   Para o português de Portugal, estas palavras soam como notas desafinadas, falsas, como “a  ção”, ou “rea  ção” ou “cole  ção”, “obje   tivo”, porque aquele “c” servia para ABRIR a vogal, que agora vai ficar fechada…
  E como são aos milhares, as pessoas mais idosas, vão morrer sem conseguirem escrever à nova moda, à “ moda dos muitos milhões de brasileira
“…

  Eu sou um deles, desses velhos do antigamente e como gosto muito de escrever, é certo e sabido que vou dar muitas mais “marteladas” na ferradura, do que no “cravo” e quantas vezes me irei perguntar se está bem ou mal o que escrevo ? Vou passar a ter vergonha de mim mesmo, sempre com a impressão de que me vão chamar de ignorante, ou analfabeto… ou talvez “analfabruto”, como se diz aqui na gíria popular….

  Talvez que os meus leitores, já habituados à minha forma de escrita, me perdoem os deslizes e até me convidem a escrever “à antiga” ou ” à moderna”…mas isto faz doer, demais, a alma, de quem sente orgulho na sua língua Mãe !
  Claro que tenho sempre a opção de deixar de escrever e editar, mas também isso me faz doer a alma… quando sinto que ainda tenho tanta coisa para contar…ou comentar…ou descrever…
  Também é certo que os correctores (ou será agora corretores ?…) estarão à disposição de quem escreve nos PC’s , mas se não existirem, lá se fica com o escrito todo cheio de sublinhados encarnados, a nos chamarem a atenção de que já não é assim que se escreve…que somos “analfabrutos”…
  Vamos ter de estar constantemente a folhear o Prontuário de Ortografia à brasileira, e enquanto isso se estiver a fazer, lá se vai a ideia do que se estava a escrever…

  E tudo o que se escreveu de 1900 para cá, está errado, ortograficamente…faz doer…

  Talvez que os nossos leitores brasileiros, que sempre foram tão simpáticos e gentis, nos seus comentários, até nos cheguem a dizer: escreva de qualquer forma, que a gente perdoa…e entende…
  Mas é interessante verificar que isto só acontece em Portugal, pois nem os franceses nem os ingleses, nem outros, mudaram nada às suas raízes.  Quem desejar que altere, mas nunca a língua Mãe…
  Uma grande parte dos portugueses, já de idade avançada, como eu, até chegam a jurar que nunca irão mudar de ortografia… e alguns foram professores da sua amada língua  portuguesa !

  Isto me faz lembrar se algum iluminado ou iluminados, por verem que era difícil tocar músicas de todos os compositores musicais, como Beethoven, Chaminade, Grieg, Chopin, Mendelssohn, Debussy, Schumann, etc, se lembrassem de retirar algumas notas ! Ia ser o bom e o bonito ! E o que pensariam esses compositores, se pudessem ouvir as suas músicas tão mal-tratadas ? (ou será mal tratadas, ou maltratadas ?…)
  Felizmente que isso nunca passou pela cabeça de ninguém e, ainda bem !

 Mas lá que vai ser uma grande confusão,…isso vai…

  
  
 

Posted by Engenhocando at 11:37:47 | Permalink | Comments (1) »