E QUERIAM VER-ME TOUREAR A CAVALO…
(Artigo nº.74 de ENGENHOCANDO)
ct1dt@sapo.pt
A minha entrada no Ribatejo, em 1951, e dada a minha juventude de 23 anos, foi repleta de experiências trágico-cómicas e que tenho vindo a descrever deste há alguns anos, neste Blog.
No mundo exterior a esta região agrícola, só se sabia que era terra de sezões, e quando os amigos souberam que eu estava destinado a vir viver para Benavente, até me deram as condolências…mas, felizmente, essa época das sezões, já tinha sido ultrapassada há muito e sob controlo dum médico que cá se radicou muitos anos, o Dr. Fonseca.
Entrar nestes lados, Samora Correia, Benavente, S. Estevão, e Salvaterra de Magos, era uma odisseia, porque só se podia cá entrar por barco em Vila Franca de Xira, dado não haver qualquer ponte. Todo o material pesado da Empresa, estava a chegar de barco à vela, via Vala Nova, tanto a Benavente, como Salvaterra de Magos, de onde era carregado em camionetas da Empresa Irmãos David de Benavente.
A Empresa para onde eu viria trabalhar, a RARET, estava cá há poucas semanas e só conseguiu arranjar hospedaria e alimentação para a rapaziada, em Salvaterra de Magos, na Rosa Grilo, que dista uns 6 Km de Benavente e todos os dias tínhamos de andar este trajecto de “jeep”, 4 vezes por dia.
Lisboa ficava muito distante…, pelo que os fins de semana eram passados a ver as terras e as pessoas, pelo que rapidamente nos fomos dando com as gentes novas das terras, especialmente as suas lindas garotas, que gulosamente nos olhavam envergonhadas, e assim aconteceu em Salvaterra, um certo dia em que uns jovens como eu, me perguntaram se eu gostaria de ir dar um passeio a cavalo.
Realmente, eu havia entrado no Ribatejo, pela “porta do cavalo”…
Benavente dessa altura, tinha quanto muito, 3 ou 4 automóveis e as pessoas andavam todas avontade pelo meio das ruas, sem a mais pequena preocupação com o trânsito, até porque nestas alturas, o que se via, eram charretes e malta a cavalo ou a pé.
Não me fiz rogado, embora de cavalos não tivesse experiência nenhuma, mas lá fui, e me deram um belo cavalo para montar. Assim, passados poucos minutos, já íamos todos em cortejo, a passo, sair da vila de Salvaterra, para a lezíria, ali mesmo ao lado, nos terrenos do Conde Monte Real. Mal sabia eu o que me esperava, pois mal eles lá se apanharam, começaram a galopar à bruta e o meu cavalo, sem que eu fizesse nada, seguia-os também na sua louca desfilada.
Aquilo era tenebroso, porque em cima daquela “montanha” de carne, eu via o chão lá muito em baixo e, quando me ia assentar, levava um pontapé no rabo e aquilo estava mesmo feio, porque não conseguia sincronizar o meu rabo, com o sobe e desce da garupa do animal, chegando a ver-me abraçado ao seu pescoço, para não cair dele abaixo ! Assim, resolvi afastar o rabo do selim, como fazem os “cowboys”, e lá me deixei eu ir atrás daquela malta que fez de tudo para me ver cair da minha montada, fazendo curvas muito apertadas que o meu cavalo repetia, quase atirando comigo “borda fora”…se eu não estivesse bem agarrado…e talvez até, a meter as esporas…sei lá…
Os animais já espumavam por todos os lados, quando eles reconheceram a minha “habilidade” para montar sem cair…e lá fomos deixar os animais descansar na cavalariça, tendo-me eu apeado todo a tremer e até me dava a impressão de que tinha ficado com as pernas arqueadas de tanto as apertar na barriga do animal….
-Mas em Agosto desse ano, nas festas religiosas de Benavente, da Senhora da Paz, e tendo conhecido um jovem de Benavente que se chamava José Pedro Neto, infelizmente já falecido, filho dum grande lavrador da terra, o Sr. Xico Neto, ele me convidou para ir dar uma volta a cavalo pela Vila e para “abrilhantar” o meu aspecto, resolveu vestir-me o seu fato cinzento de lavrador, incluindo chapéu preto masantino e botas com esporas…
Como tínhamos fisicamente, muita parecença, 1,75m de altura e magros, eu até estava “bonito” dentro daquela “farda”. Assim belamente vestido, ele deu ordem ao maioral que me arranjasse um cavalo e assim lá vou eu a atravessar a Vila, passando à porta da casa do Dr. Sousa Dias e fui até ao Calvário, passando pela rua dos Correios, que fica no fim da vila, tendo depois ido descer a rampa que passa junto da fonte de S.Antonio, sempre a passo, onde parei para cumprimentar uns fabianos que me estavam a barrar o caminho e me saudaram alegremente.
” Isso é que é sorte…oh sr. Portugal…isso não é para qualquer um…”
Eu até parecia alguém importante !
Mas na despedida, um deles deu uma palmada forte na garupa do cavalo que não achou graça nenhuma e arranca numa correria infernal para Rua Luiz de Camões acima, e que acaba mesmo em frente à loja do Sr. Castelo, pelo que eu, na impossibilidade de fazer parar o malvado cavalo, já me estava mesmo a ver ir parar dentro da loja, em cima ou por baixo do cavalo…
Eu nem sabia se ia a trote se a galope…
Aquilo estava mesmo feio, porque a estrada era muito escorregadia de pedra, e àquele velocidade, o cavalo não se conseguiria manter em pé, mas como a sua tendência, era ir para a rua de onde tínhamos vindo, a do seu curral, foi por aí que ele tentou meter-se, mas como estava apinhada de gente, toda aos gritos “fujam, fujam, ele vai cair…” -e eu a puxar pela rédeas, enquanto agarrava o chapéu que queria levantar voo, o cavalo pôs-se em pé a relinchar, enquanto toda a malta se afastava e assim, quando ele viu que já podia pôr as 4 patas no chão, continua na sua louca correria a caminho do seu estábulo, voltando a passar em frente à casa do Dr.Sousa dias, e depois o cemitério, onde só não parti a cabeça à entrada, porque me baixei até ficar com a minha cara, ao lado do focinho do cavalo…que se devia estar a rir…
E lá parou o animal, certamente muito espantado com as manobras que eu havia tentado pedir-lhe e que ele acharia, por certo, muito impróprias…de um cavaleiro decente…e tinha razão…
Mas isto não ficou por aqui, pois uns dias depois, vêem-me bater à porta umas pessoas da festa, a pedir-me para eu ir tourear na velha e desconjuntada praça de touros que cá havia.
Eu fiquei petrificado e logo lhes disse: “Nem pensem, eu não entendo nadinha de cavalos nem de toureio”, mas eles logo me avançaram que eu estaria a ser muito modesto, pois me haviam visto uns dias antes, no largo fronteiro à igreja, dominar de tal forma um cavalo, que eu teria de ser um grande cavaleiro, a pessoa indicada para o toureio…
Bem que eu lhes explicava que tinha sido a segunda vez na minha vida, que tinha andado a cavalo e que não havia caído dele abaixo, porque isso seria a única coisa que eu não queria, de todo, que me acontecesse, pois nem um osso ficaria inteiro…especialmente porque o largo era todo de pedra…além de que não queria devolver ao José Pedro Neto, o fato todo rasgado e sujo…aparte os meus ossos que certamente por ali ficariam todos espalhados…
Assim se foi o comitiva da festa, muito chateada, por não me terem conseguido convencer a entrar a cavalo na praça de touros…. Olha eu, que de touros, só aos bocados e dentro do prato, a ver-me ali num espaço tão pequeno e sem ter prática alguma de tourear a cavalo….Ia ser bonito !!! Pobre do cavalo e de mim !!!
