Wednesday, March 21, 2007

COM A MORTE NAS MINHAS MÃOS

   

 Estava um dia lindo nos Ginetes, em S.Miguel e eu estava a brincar na rua, quando tinha os meus 10 anos.

 No meio do profundo silêncio daquela terra, ouço o galopar desenfreado de um cavalo e de imediato, um velho chibatando o cavalo violentamente, e num repente, puxando pelas rédeas, fez parar a carroça mesmo em frente à nossa casa, tendo saltado dela e agarrado uma criança de dois anos, que estava desmaiada e deitada atrás, na caixa da carroça.

 Meu avô estava em casa, por acaso, e abriu-lhe de imediato a porta do consultório, dizendo ao velhote para pousar a miúda na marquesa e berrou por mim, bem alto. “MÁÁÁÁRIO…” !

 Aquilo devia ser uma situação muito grave, pois meu avô nunca costumava gritar assim, mas num segundo, eu estava ao seu lado a ouvir as suas explicações:

 ”Comprime aqui nos intestinos com a mão direita e com a esquerda, comprime o peito, alternadamente ” .

 Ele estava a valer-se da minha ajuda, porque o pobre velho, não conseguia ter coragem para o fazer.

 Aquilo estava mesmo feio, pois a criança mal conseguia respirar e só se ouvia um ligeiro apitar do ar que teimava em não querer entrar nem sair dos seus minúsculos pulmões…

 Meu avô pegou uma lanterna eléctrica, abriu a boca da garota e espreitou o melhor que podia, mas o que estava a bloquear a respiração, devia estar mais abaixo, talvez à entrada dos brônquios e, por mais que tentasse, nada conseguia ver…

 Ao nosso lado, o velho avô, todo amargurado, chorava banho e ranho, pedindo, continuamente,  ”Sr.Doutor, salve a minha neta “….

 A miúda tinha-lhe sido entregue pela mãe, enquanto ele tinha de tratar da horta onde vários cachos de uvas ainda verdes, pendiam ali por perto e a garota havia metido uma uva na boca e engolido inteira…

 O velho, ao ver a miúda asfixiada, largou tudo, atirou com ela para cima da carroça, depois de lhe ter dado uma palmadas nas costas, e vai de procurar ajuda médica, mas eles estavam a uns 5 quilómetros de distância e, mesmo com o cavalo no seu máximo, talvez já não fosse a tempo. Na realidade, já se haviam passado alguns minutos e a pele da criança, já se estava a tornar azulada, situação indicadora de muita falta de oxigenação.

 E eu lá estava a fazer o meu melhor, ora comprimindo as costelas ora os intestinos, sempre esperando que algum vagido me indicasse que o ar já estaria a entrar e sair, enquanto meu avô insistia para que eu não parasse e continuava a tentar ver cada vez mais fundo, usando várias “ferramentas” que tinha no consultório.

 E eu tinha a morte dela, nas minhas mãos, eu não podia dizer que já estava extenuado…

 Infelizmente, uns minutos depois, meu avô auscultou a miúda e depois com o dedo polegar e indicador, de uma mão, abriu-lhe os olhos e verificou que as pupilas estavam todas dilatadas !

 Meu avô endireitou-se e largando as “ferramentas”, disse-me: ” Podes parar, porque ela já está morta “…

 Não havia mais nada que fazer ! A miúda estava morta e nas minhas mãos…

 Senti um arrepio imenso e tive de afastar-me de imediato, para não vomitar, pois nunca gostei de estar ao pé de mortos…

 O pobre velho, avô da garota, lá pegou no seu cadáver e muito lentamente, saiu do consultório, enquanto os seus velhos olhos agora jorravam abundantes e amargas lágrimas de desespero e foi deitá-la na carroça que estava ali à espera, com o cavalo todo encharcado de espuma do seu suor…e sem estar amarrado a lado algum, talvez a pressentir o que estava a acontecer com o seu dono, ali estava à sua espera.

” E o que é que eu vou dizer aos pais dela ?, eles que tinham tanta confiança em mim !”…lamentava-se o velho …enquanto as lágrimas lhe pingavam do queixo… e eu, ao vê-lo naquele sofrimento, também deixei cair algumas lágrimas. E ao tentar olhar bem lá para cima, para a cara de meu avô, ele a desviou, talvez para eu não ver a sua vista desfocada por alguma lágrima furtiva.

 E lá subiu para a carroça, dando ordem de marcha, enquanto tanto meu avô como eu, estávamos ali feitos parvos, por não termos conseguido salvar aquele pobre criança das garras da morte, enquanto víamos a carroça afastar-se, lá para os lados da freguesia da Candelária, no extremo Oeste da ilha de S. Miguel.

 

 A vida de qualquer médico de aldeia, tem muitas destas situações. Ele faz o seu melhor e o mais rapidamente possível, mas há situações em que cada segundo conta e este, foi mais um dos muitos casos que lhe passaram pela mãos e, a alguns, eu assisti bem por perto, todo amargurado !.

 E recordo como estes episódios, poderão ser tratados hoje.  Provavelmente e com muita sorte, o avô desta malfadada criança, pegaria o telemóvel, chamaria os bombeiros que, por sua vez iriam chamar o INEM que, por sua vez iria mandar um helicóptero para o sítio e levar a criança para um hospital, mas certamente que depois de um intervalo de tempo muito superior a duas horas…era impossível que ainda se mantivesse viva !

E isto, se o velho tivesse telemovel e se os bombeiros existissem por perto, o que não era o caso, e houvesse o INEM e houvesse helicóptero que necessita de mais de meia hora para aquecer os motores, e…etc. etc…

Aqui, possivelmente o leitor estará a pensar no porquê do velho não ter levado a criança para o hospital…mas será bom de lembrar, que o hospital existe em Ponta Delgada, a 25 Km de distância… da Candelária…

 

 

Posted by Engenhocando at 13:06:58
Comments

One Response to “COM A MORTE NAS MINHAS MÃOS”

  1. tibeu says:

    Parece que estou a ler um livro, mas este com histórias de ensinamento. Obrigada pelos lindos artgºs que nos conta, para mim sou de muito valor. Um respeitoso abraço. Isabel

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