Tuesday, February 27, 2007

UM AÇORIANO ABANDONADO EM LISBOA…

    O leitor deste Blog, já deve estar um tanto farto de ver esta cara alegre e prasenteira, mas ela não mostra nada, o que este garoto de 13 anos, estava a viver e até pode parecer que vivia feliz e contente, tratado com todo o carinho.

A verdade era muito outra !

Nascido e criado até a esta idade, numa respeitosa família açoriana de S.Miguel, rodeado de carinho de toda uma família feliz, acabou por ter de ser “exportado” dos Açores para o Continente, porque toda a sua família se estava a desmoronar…

Meu pai já tinha morrido, de tuberculose e diabetes, com 47 anos, quando eu tinha 11 anos e deixou a minha mãe em profundas dificuldades financeiras.  Entretanto o “Rei” da nossa casa, médico, meu avô, o adorado Dr. Leça dos Ginetes, acaba por falecer de angina de peito, aos 73 anos e, como estava marcada a minha “exportação” para esse mesmo dia, só o pude beijar, já morto, mas deitado na cama onde faleceu, com cara sorridente, como se estivesse simplesmente a dormir, com a sua cara deitada sobre a sua mão esquerda. Mais um profundo desgosto !

 Minha mãe, ainda conseguiu tirar o curso de Regente Escolar e estava a dar aulas, uns tempos antes, numa freguesia ali perto, embora tivesse de andar a pé uns quilómetros diários, para lá chegar. Com o vencimento de 250$00 mensais, aquilo não dava nem para os sapatos que os seus 5 filhos gastavam…e meu avô também tinha deixado minha avó em séria situação financeira, pelo que não nos podia ajudar…

Assim, resolveu procurar emprego em Lisboa, o que conseguiu na Santa Casa da Misericórdia, exactamente onde se faziam as extracções dos Jogos Santa Casa, e lá conseguiu enfiar as minhas irmãs, num colégio interno de freiras, ali perto do seu emprego.

Fiquei eu e meu irmão, à deriva, sem eira nem beira, à procura de sítio onde viver, mas o ordenado da mãe quase não dava para nada e foi o pior tempo da minha vida, pois tinha de estudar e ir fazendo alguma coisa para poder comer um bolo ou beber um copo de leite. Pessoa amiga, que tinha filhos mais ou menos da minha idade, mas também estavam em dificuldades, fazia os filhos pegar em molhadas de revistas, que ainda me lembro se chamava FLAMA, e vai de alombar com elas para a porta duma Igreja, lá para os lados do Marquês de Pombal. E ali ficávamos um bom bocado a apregoar a revista.  Por cada revista vendida, davam-nos 50 centavos, mas com um pouco de habilidade e cortesia, sorriso estampado na cara, eu sempre conseguia vender mais do que os outros e ficava todo feliz, por poder juntar uns  cinco escudos ou pouco mais, o que já dava para poder comer mais alguma coisa numa taberna qualquer, das mais baratinhas…

Depois acabei por arranjar mais um “emprego” numa casa que fabricava candeeiros, ali para a rua da Vitória, 46-48, no meio da baixa, e tanto tinha de andar a pé, por Lisboa inteira, para receber facturas atrasadas, subir e descer imensas escadas, para depois levar com a resposta de que lá fosse noutra altura…ou ter de alombar com enormes candelabros cheios de pingentes, e que só podiam ser transportados ao ombro, perante o tilintar chato daqueles vidrinhos todos, com toda a gente a olhar com cara de gozo. Mal sabiam eles que aquele pobre garoto açoriano, estava a fazer um sacrifício dos diabos, para poder comer um pastel de bacalhau como almoço… e ainda tinha de estudar para à noite, ir pegar a Escola Marquês de Pombal, lá para casa do Calvário. Aquilo era mesmo um calvário !

Mas um dia, minha mãe encontrou uma rapariga que tinha sido sua criada, quando dos tempos áureos, mulher ainda bem bonita e que nunca havia vestido farda, o que muitas vezes provocava em minha mãe ataques de histeria, porque quando ia à porta, e sendo tão bonita, toda a gente julgava que se tratasse da minha mãe…

Gozava a criada e enfurecia a minha mãe, está claro …

Mas este “senhora” vivia ali perto da Misericórdia de Lisboa, numa casinha muito modesta do Bairro Alto, mas cheia de boa vontade, lá me arranjou um cantinho na casa, com uma mesa e cama, mas havia colocado uma cortina a tapar o resto do quarto.

Mal eu sabia, que ela se tinha tornado prostituta e dificilmente eu conseguia dormir, com tantos ais e isss, gemidos e palavrões, das suas “visitas” !  E logo eu, que nem sabia o que era uma prostituta, nem de longe nem de perto… e até lhe tinha muito respeito !

Mas a minha mãe, que também não sabia nada daquilo, lá nos empurrou para a Av. Almirante Barroso, ali para os lados do Arco do Cego, e albergou-me a mim e meu irmão Carlos, no mesmo quarto.

Felizmente que, com a ajuda dum outro açoriano, de S.Miguel, amigo de infância da minha mãe, e era engenheiro no Arsenal do Alfeite, de nome Vargas Moniz, nos conseguiu lá plantar os dois. Nós éramos os “Farias” e tratados com muito deferência, pois toda a gente sabia que éramos protegidos do patrão!

Aquilo até podia ser pior, mas era muito chato ter de ir apanhar o eléctrico às 7 da manhã, para o Cais do Sodré, todas as manhãs, para apanhar a corveta da Administração, que nos transportava para o Arsenal do Alfeite, do outro lado do rio Tejo. Á tarde, a corveta “despejáva-nos” no Cais do Sodré e lá íamos os dois de eléctrico comer qualquer coisa e depois eu teria de ir novamente de eléctrico para S.Amaro, mesmo do outro lado de Lisboa, para a Escola Industrial.

A alimentação no refeitório do Arsenal, até não é que fosse má, mas ficava muito caro para a nossa bolsa. Assim, tínhamo-nos de contentar com qualquer coisinha que ia eu buscar ao “guichet” , porque meu irmão preferia ficar sem comer, do que ir para a bicha, de braço estendido…

Infelizmente, em casa, mal podíamos comer, porque ainda era cedo para os donos da casa e muitas vezes só “bebia” uns golos de água quente com umas nabiças a flutuar, ao que chamavam de sopa…para ir apanhar o eléctrico para Santo Amaro. 

Aquela falta de descanso e de comida suficiente, não me podia deixar ir muito longe e, um dia, tendo ido a uma praia do Seixal, deixei-me dormir, estampado ao Sol, mas quando acordei, nem me conseguia por de pé… Assim, fiz todo o percurso a pé, imensamente cansado, a empurrar a bicicleta, pois nem força tinha para a montar e  pedalar.

Meu irmão grande entusiasta pelas coisas científicas, estava a experimentar fazer exames microscópios num aparelho por ele construído e observando a minha expectoração, logo verificou que eu estava muito doente com bacilos de Koch, embora o médico julgasse que se tratava duma simples gripe, mas perante o ensaio do meu irmão Carlos Mar, achou por bem mandar fazer um exame mais exaustivo e confirmou-se a doença… aquela malvada doença com que havia morrido meu pai uns anos antes, doença de terríveis e demorados anos de tratamento e foi por isso que fui “exportado” para o hospital do Desterro e onde se passaram os episódios rocambolescos, que descrevi no artigo  “Chateado pelos ácaros”.

Mas dado o saber da terrível possibilidade de contágio da doença, logo exigi que houvesse o máximo cuidado com tudo o que me dizia respeito e, felizmente, nenhum dos meus irmãos foi contagiado.

Felizmente que logo me arranjaram forma de ser “exportado” agora para um Sanatório do Caramulo, levando a tiracol a minha máquina fotográfica…como se fosse passar umas férias na montanha…o que tanto gozo deu à malta que me viria a conhecer. Mas só, ao fim de um ano de penoso tratamento de pneumotóraxes, é que os bacilos de Kock foram desactivados e comecei, muito lentamente, a ganhar vida, enquanto ia vendo muitos outros, da minha idade a socumbirem à terrível doença.

Tive o “desplante” de me vir “despir” aqui em público, pensando em tantas crianças da minha idade, que, por este ou aquele motivo, rodeadas de tudo o que é bom, com uma boa casa para viver, rodeadas de amor e carinho dos pais, não se alimentam convenientemente, e acabam também por adoecer, mas talvez não tendo a sorte e vontade que eu tive de me curar, embora tivesse de fazer um tratamento por 5 anos…

E quando vos apetecer fazer alguma asneira das grandes, lembrem-se daquele puto açoriano, de 13 anos, o Mário, que vocês conheceram via Internet.

Hoje, perto dos 80 anos e olhando para trás, não posso ter saudade alguma da minha mocidade, em especial desde o momento em que toda uma família se começa a desmoronar, como pode acontecer a qualquer um, e sentindo uma imensa vontade de viver, dou graças a Deus de ainda estar vivo e poder relembrar aqueles tempos tão distantes da minha mocidade tão amargamente e estupidamente perdida…e sem ser por minha culpa…

 

Posted by Engenhocando at 14:08:02 | Permalink | Comments (5)

Thursday, February 22, 2007

CHATEADO PELOS ÁCAROS…

   Quando uma pessoa tem a sorte e alegria de chegar aos oitenta anos, como vai ser, se Deus deixar, já este ano, olha para trás e recorda imensas situações que na altura, nem tinham grande interesse, ou importância.

 Quando eu tinha 15 anos e estava a estudar na Escola Industrial Marquês de Pombal, em Lisboa, a minha mãe, que vivia interna e empregada na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, não tinha onde me por a viver, mas lá conseguiu descobrir ali pela baixa de Lisboa, um quarto num terceiro andar.

Era um belo quarto, bem mobilado, até com cama de casal e tudo muito limpo, mas pela janela, aquilo relampejava toda a noite com as luzes de Lisboa e seus reclames luminosos, mas tinha uma boa vista sobre a cidade. Fora as luzes, até se poderia dizer que estava bem instalado…

O pior, foi quando resolvi deitar-me ! Ainda estava à procura do sono, quando começo a sentir comichão no corpo, por todos os lados ! Mas que diabo seria aquilo ?

Num repente, acendi a luz e levantando o lençol, vejo disparar em todos os sentidos, centenas de percevejos que se iam esconder pelos cantos da cama !  Eu nunca tinha visto tanta bicheza e logo me apercebi de que a noite estava estragada.  Mas agarrei num dos cobertores e enrolei-me nele, deitando-me sobre o tapete que estava ali aos pés da cama.

Mas passados poucos minutos, já estava novamente a ser “devorado” por dezenas e dezenas daqueles malvados bichos !  “E agora, Mário, como te vais sair desta ?”, perguntei a mim mesmo, todo amargurado, apetecendo-me mais sair do quarto e ir protestar junto dos donas da casa, mas já estavam todos a dormir e resolvi-me deitar, todo enroscado, sobre uma pequena escrivaninha, tendo finalmente pegado no sono, mas acordado às 6 da manhã, todo dorido e dormente, enquanto Lisboa mal havia acordado, e depois de ter aproveitado uns minutos para estudar, lá fui ter com a minha mãe que vivia ali no topo do elevador da Glória, para lhe falar desta terrível situação.

 Obviamente, teria que haver uma solução, mas qual ?

Nesse mesmo dia, foi à casa que havia pago um mês adiantado, para expor a situação e ainda hoje estou para saber se teria recebido de volta o seu dinheirinho…

Uns anos mais tarde, com 15 anos, mal comido e mal dormido, acabei por contrair uma doença pulmonar e fui enviado para o Hospital do Desterro, que ficava ali à Praça do Chile, para pessoas infecto-contagiosas, mas para mal dos meus pecados, pelo menos, a cama onde me deitaram, também estava infestada de percevejos, mal ia iniciar o meu sono !!!

Como seria aquilo possível numa unidade de serviço hospitalar de doenças contagiosas, aquilo existir ?

E pensei nas milhares de pessoas que se teriam infectado naquelas camas, picadas por estes insectos…

No dia seguinte, depois de ter contado todas as horas da noite, pedi à minha mãe, na hora da visita, se me arranjava uma embalagem de DDT, que se usava muito nessa época e polvilhei todo o lençol à minha volta, com ele, tendo conseguido finalmente dormir, mas no dia seguinte, perante o espanto das empregadas que arrumavam as camas, de verem o meu lençol com centenas de percevejos mortos…

Pelo que entendi, elas nem sabiam da existência de semelhantes insectos e em tão elevada quantidade, e originei uma corrida de muito pessoal, incluindo enfermeiros e médicos, para verem aquele exército de bicharada morta, se calhar a pensarem que tinha sido eu a para lá os transportar…..sei lá…

Felizmente que passados poucos dias, fui encaminhado para a Estância Sanatorial do Caramulo e já a rezar para que os malditos percevejos, não existissem por lá, o que felizmente aconteceu. Aquilo era “outra louça” e até os tratamentos eram muito menos dolorosos dos que me estavam a fazer em Lisboa. Aquilo era outro mundo !

Mas actualmente, 2007, e diariamente, sempre que me aconchegava para iniciar o meu sono, era atacado duma comichão nos sítios mais estranhos do meu corpo, mas não conseguia encontrar nada !

Desesperado, porque aquela comichão era de endoidecer, experimentei tudo, desde as águas frias às quentes, aos diferentes sabonetes, a por ao Sol toda a roupa da cama, e a borrifar toda a cama, colchão e tudo, com os actuais “sprays” de insecticidas, ao encher-me de pó de talco, mas o resultado continuava a ser o mesmo.. À meia noite, mais minuto, menos minuto, lá aparecia a malvada e intensa comichão que quase me deixava em carne viva…e pelo menos durante mais de uma hora…

Naquelas horas de desespero e solidão, só me vinha à cabeça o que tinha passado 65 anos antes com os percevejos, mas que agora eram invisíveis, e todas as 24 horas, se reuniam para me atacar, mal sentiam a cama quentinha e a escuridão.

Na realidade, toda a gente tem comichão no corpo, mais dia menos dia e muitas vezes até, uma pessoa se tem de esfregar pelas esquinas das portas, para coçar as costas…quando não tem ninguém por perto que o faça…mas até estou pensando que quem mete as unhas para se coçar, está a ficar com elas cheias de ácaros…

Não há dúvida de que toda a gente sofre de acessos inexplicáveis de profunda comichão e certamente, os bebés, arrancam no berreiro, à tantas da noite, sem que os pais encontrem qualquer motivo… Parece que ninguém sabe nada disto…

Uma coisa parece certa, uma vez que a bicharada tem a barriga cheia, deixa de chatear as pessoas, até ao dia seguinte, 24 horas depois, e isso seria, provavelmente, o que me estaria a acontecer, mas às tantas pensei que teria de ter uma opção mais violenta e, como já sabia até a hora em que a malvadez iria atacar, muni-me dum “spray” de insecticida e lá me fui deitar, esperando pelo “começo da batalha”, mas desta vez eu estava preparado…

Na realidade, mal havia começado a dormir, eles (ou lá o que era), começou a batalha, mas em vez de me por a coçar, e sem acender a luz, enfiei o “spray” por baixo do lençol e…zás !

Oh remédio santo, “aquilo” que tanto me vinha atormentando há tanto tempo, silenciou-se em poucos segundos e, de tal maneira que passei a dormir que nem um anjo velho…

    

Mas eu estava desejoso de ver a “cara” do chatarrão, (ou chatarrões), pois de certeza que ele deveria estar por ali completamente morto, mas depois de levantar a roupa e ter despido o pijama, nada encontrava. Aquilo era demais !  Ele teria de estar ali por bem perto, pois depois daquele “tiro” certeiro, nem deveria ter ficado com pernas para fugir…

Mas com muita luz e muita atenção, lá encontrei uma coisinha minúscula, da cor da minha pele e por isso, um pouco mais escura do que o branco do lençol e com muito cuidado, peguei uma pinça muito aguçada, e transportei o “cadáver” para o meu “laboratório” onde o coloquei numa lamela do microscópio, mas para meu espanto, aquilo era simplesmente uma coisa horrorosa, com várias pernas e garras, tudo um tanto estilhaçado de tantas voltas que o meu corpo tinha dado em cima dele, ao dormir.

 Aqui fiquei a pensar que em vez de coçar, toda a gente devia era tocar com o veneno, no sítio das comichões, pois aqueles ácaros quase invisíveis a olho nu, não devem sobreviver as estes ataques. Julgo até que bastará por um pouco de “spray” num dedo e passar levemente pelo sítio.

Estou a pensar nos bebés, que cheios de roupa e muito aquecidos, rebentam em choradeira à noite, talvez por também estarem a ser atacados, e não serem capazes de dizer onde, a não ser através do choro, e dando com os desgraçados pais em loucos…

Claro que pensei se estes venenos não iriam fazer mal à minha pele, mas certamente que seria bem pior o ficar todo arranhado pelas minhas unhas, ao tentar ver-me livre deles…e até ensanguentadas e talvez até a transportá-los, debaixo das unhas, para outros sítios do meu corpo…

Mas estou convencido de que eles andam agarrados ao nosso corpo, com “unhas e dentes” , e, qualquer recanto mais ou menos obscuro, vivendo connosco e só esperando a hora certa para acordar e começar o ataque…

Então tomei uma imponente decisão:  A partir de agora, vou ter sempre na mesa de cabeceira, um “spray” destinado a este fim… E agora, venham eles… os malvados…

Nota: Depois da publicação desta história, vários foram os pedidos de leitores, que sofrendo do mesmo problema, me enviaram o pedido sobre o tipo de “Spray”, o que muito me regozijou, até porque vieram de pessoas que nem conheço…Para dizer a verdade, julgo que servirá qualquer tipo das muitas marcas existentes no mercado, mas obviamente, não poderei fazer propaganda, embora possa ajudar com a indicação de que, o que tinha à mão, era o Raid.  No caso de haver mais pessoas interessadas, agradecia que me escrevessem para (ct1dt@sapo.pt), indicando o vosso nome e morada, para poder responder directamente.

 

Posted by Engenhocando at 13:08:48 | Permalink | Comments (1) »