E A CHAVE ATÉ ABRIU A PORTA…
Quando eu tinha 12 anos, estava na Escola Industrial em Ponta Delgada, Ilha de S.Miguel e a minha maior paixão, já vinha de anos antes, com o cinema.
Eu já havia feito várias Lanternas Mágicas, usando umas lentes duns velhos óculos da minha avó, e havia desenhado em tiras de papel Celofane, a tinta da China, uma data de bonecada, que depois ia mostrar todo contente, às minhas irmãs, projectando as imagens num lençol à laia de ecrã. Perante a alegria que isso lhes dava, e as risotas despoletadas, muitas vezes a família graúda vinha ver o que se estava a passar naquele quarto às escuras e mesmo sem qualquer comentário, eu achava que até as pessoas mais velhas, estariam a apreciar os meus brinquedos, mas nunca ouvi um piropo… ou se o faziam, era em voz tão baixa que eu nem os ouvia…
Naquela época, não havia corrente eléctrica lá em casa, e até aos meus 15 anos, idade em que me vim embora dos Açores para o continente, e havia que tomar mão de velas, pelo que a visão dos meus desenhos, deixavam muito a desejar, mas viam-se, que era o mais importante…se a sala estava bastante escura.
Obviamente, não havia movimento dos desenhos e eram imagens paradas, mas eu sonhava um dia poder vir a conseguir movimentar aquelas imagens…Isso é que seria mesmo bom ! Mas para tal, eu tinha a necessidade de construir uma máquina para mim, exageradamente sofisticada.
Meu avô, que sempre havia gostado muito da fotografia e até tinha uma belissima máquina profissional de fotografia, que fazia fotografias em chapa de vidro, até 9X12 Cm. não era insensivel a este meu gosto pelo cinema e um dia chamou-me para me mostrar dum seu livro, escrito em francês, que, se bem me lembro, se chamava “Les Secrets de l’économie Domestique”, de 1890, como aquilo era feito e foi desse livro que vim a saber que teria de haver um mecanismo com carretos para puxar o filme de cinema e teria de haver uma Cruz de Malta, que faria as imagens saltarem de umas para as outras, muito rapidamente, coisa que me parecia muito complicada de fazer… Meu avô até me explicou que a visão do movimento das imagens, se devia à persistência das imagens no nosso cérebro. Aquilo até me parecia “magia”…
Mesmo perante esta enorme dificuldade, lá me abalancei a expor o meu problema ao meu Mestre da Oficina, que, pelos vistos até achou graça no meu entusiasmo e me alvitrou como eu a poderia construir, além da construção dos carretos que também eram necessários. Mas para tal, eu teria de usar o torno, ferramenta que só os alunos dos anos posteriores, 4º e 5º, poderiam usar…enquanto eu ainda estava no primeiro…
Felizmente que havia nascido com um pequeno torno mecânico em casa, em que já havia conseguido tornear várias coisas, em madeira, latão e marfim de dentes de baleia, embora com grande sacrifício, porque ele era de pedal e exigia uma força que estava nos meus limites…
Ainda me lembro de ter agarrado um valente dente de baleia (mais propriamente cachalote), e ter aproveitado o lado da sua raiz, onde há um grande buraco, para abrir à goiva, um orifício maior e dar-lhe a forma dum cálice. Assim, depois do meticuloso interior, e com muito cuidado, fui torneando o exterior e depois o pé. Aquilo estava mesmo bonito de ver, porque eu tinha conseguido fazer uma parede muito fina no lado de cima do cálice, que ficava quase transparente.
Quando o fui mostrar à minha mãe, logo ela me disse que iria oferecê-lo à minha madrinha e assim foi.
Durante alguns anos, sempre que ia à casa dela, via a “minha taça”, em lugar de destaque sobre uma mezinha onde ela guardava várias fotografias de família.
Como o torno já não me metia medo, foi, com grande alegria que informei o meu Mestre, de que me parecia ser capaz de tornear as peças necessárias e ele não só acreditou em mim, como me deixou ir para o enorme torno da escola, perante o olhar desconfiado e talvez de inveja, de todos os meus colegas de turma.
Aquilo até meteu forja, para fazer uma espécie de prego (veio de 6mm de diâmetro) com uma grande cabeça de 5 Cm de diâmetro, onde foi facetada, marcada, cortada e limada a tal Cruz de Malta, com a maior precisão que me foi possível.
Depois dum bloco de aço de 5 centímetros de diâmetro, foi feita a peça que iria fazer andar a Cruz de Malta e depois de mais umas aulas, ali estava a maquineta a andar e a fazer o barulho característico dos saltos das cruzes de Malta. Depois foi tornar em aço, os dois carretos de entrada e saída do filme à Cruz de Malta, trabalho bastante aborrecido, porque nessa altura, eu ainda não sabia abrir à fresa, rodas dentadas. Assim, enrolando um pedacinho de filme de cinema em forma de cilindro, marquei os sítios onde teriam de aparecer os dentes e aquilo também foi conseguido com sucesso.
O Chefe da Oficina, de vez enquando, passava perto de mim, mas depois de olhar bem, não dizia nada e lá se ia embora. Nesses momentos toda a turma parava de trabalhar, para apreciar a cara do nosso Mestre…
Passado alguns meses, eu já conseguia projectar pequenos pedaços de filme de cinema, embora com uma barulheira terrível da “malvada” Cruz de Malta, porque eu não tinha ainda caixa de lubrificação e vedação de som.
Certo dia, ao entrar no gabinete do meu Chefe, vi pendurado, um molho de chaves Yale, virgens, e uma já feita. Aí perguntei-lhe, muito envergonhado, se me deixava fazer uma chave igual, ao que ele me perguntou: -E que ferramentas necessitas ?
Logo lhe respondi que me bastaria um conjunto de limas de ourives, coisa que eu já tinha visto em minha casa, e ele, abrindo a gaveta da sua mesa, entregou-me o jogo de limas. Aí vou eu para uma bancada, com uma craveira e vai de copiar a chave, com a máxima precisão que pude. Aquilo até parecia que estaria bem e assim fui mostrá-la ao meu Chefe que olhou, olhou, viu por todos os ângulos, com as duas uma sobre a outra, e acabou por me dizer que a fosse experimentar na porta do Director da Escola. E assim vou eu à procura da porta e não é que a chave abriu de imediato a porta ? Mas, para meu espanto, estava lá dentro o Director que me chamou de imediato, muito rispidamente, com um grande berro, e me pergunta onde fui arranjar aquela chave…
Só me faltou chorar de vergonha, mas lá lhe expliquei que a havia estado a fazer e que o meu chefe me tinha dito para a ir experimentar, provavelmente não sabendo que o Sr. Director estivesse lá…
Lá me mandou embora, mas dizendo-me para chamar, o meu Chefe, o que aconteceu de imediato.
Não sei, ainda hoje, o que se teria passado, mas certamente que o meu chefe deveria ter apanhado um bom raspanete do “malvado” Sr. Director, ao ver um miúdo abrir-lhe a porta do gabinete e sem sequer bater primeiro…e ele que estava em conferência com outros professores, todos de boa aberta a olharem para mim…Mas que grande bronca !!!!



