Monday, January 8, 2007

E A CHAVE ATÉ ABRIU A PORTA…

   Quando eu tinha 12 anos, estava na Escola Industrial em Ponta Delgada, Ilha de S.Miguel e a minha maior paixão, já vinha de anos antes, com o cinema.

Eu já havia feito várias Lanternas Mágicas, usando umas lentes duns velhos óculos da minha avó, e havia desenhado em tiras de papel Celofane, a tinta da China, uma data de bonecada, que depois ia mostrar todo contente, às minhas irmãs, projectando as imagens num lençol à laia de ecrã. Perante a alegria que isso lhes dava, e as risotas despoletadas, muitas vezes a família graúda vinha ver o que se estava a passar naquele quarto às escuras e mesmo sem qualquer comentário, eu achava que até as pessoas mais velhas, estariam a apreciar os meus brinquedos, mas nunca ouvi um piropo… ou se o faziam, era em voz tão baixa que eu nem os ouvia…

Naquela época, não havia corrente eléctrica lá em casa, e até aos meus 15 anos, idade em que me vim embora dos Açores para o continente, e havia que tomar mão de velas, pelo que a visão dos meus desenhos, deixavam muito a desejar, mas viam-se, que era o mais importante…se a sala estava bastante escura.

Obviamente, não havia movimento dos desenhos e eram imagens paradas, mas eu sonhava um dia poder vir a conseguir movimentar aquelas imagens…Isso é que seria mesmo bom ! Mas para tal, eu tinha a necessidade de construir uma máquina para mim, exageradamente sofisticada.

Meu avô, que sempre havia gostado muito da fotografia e até tinha uma belissima máquina profissional de fotografia, que fazia fotografias em chapa de vidro, até 9X12 Cm. não era insensivel a este meu gosto pelo cinema e um dia chamou-me para me mostrar dum seu livro, escrito em francês,  que, se bem me lembro, se chamava “Les Secrets de l’économie Domestique”, de 1890, como aquilo era feito e foi desse livro que vim a saber que teria de haver um mecanismo com carretos para puxar o filme de cinema e teria de haver uma Cruz de Malta, que faria as imagens saltarem de umas para as outras, muito rapidamente, coisa que me parecia muito complicada de fazer… Meu avô até me explicou que a visão do movimento das imagens, se devia à persistência das imagens no nosso cérebro. Aquilo até me parecia “magia”…

Mesmo perante esta enorme dificuldade, lá me abalancei a expor o meu problema ao meu Mestre da Oficina, que, pelos vistos até achou graça no meu entusiasmo e me alvitrou como eu a poderia construir, além da construção dos carretos que também eram necessários. Mas para tal, eu teria de usar o torno, ferramenta que só os alunos dos anos posteriores, 4º e 5º, poderiam usar…enquanto eu ainda estava no primeiro…

Felizmente que havia nascido com um pequeno torno mecânico em casa, em que já havia conseguido tornear várias coisas, em madeira, latão e marfim de dentes de baleia, embora com grande sacrifício, porque ele era de pedal e exigia uma força que estava nos meus limites…

Ainda me lembro de ter agarrado um valente dente de baleia (mais propriamente cachalote), e ter aproveitado o lado da sua raiz, onde há um grande buraco, para abrir à goiva, um orifício maior e dar-lhe a forma dum cálice. Assim, depois do meticuloso interior, e com muito cuidado, fui torneando o exterior e depois o pé. Aquilo estava mesmo bonito de ver, porque eu tinha conseguido fazer uma parede muito fina no lado de cima do cálice, que ficava quase transparente.

Quando o fui mostrar à minha mãe, logo ela me disse que iria oferecê-lo à minha madrinha e assim foi.

Durante alguns anos, sempre que ia à casa dela, via a “minha taça”, em lugar de destaque sobre uma mezinha onde ela guardava várias fotografias de família.

Como o torno já não me metia medo, foi, com grande alegria que informei o meu Mestre, de que me parecia ser capaz de tornear as peças necessárias e ele não só acreditou em mim, como me deixou ir para o enorme torno da escola, perante o olhar desconfiado e talvez de inveja, de todos os meus colegas de turma.

Aquilo até meteu forja, para fazer uma espécie de prego (veio de 6mm de diâmetro) com uma grande cabeça de 5 Cm de diâmetro, onde  foi facetada, marcada, cortada e limada a tal Cruz de Malta, com a maior precisão que me foi possível.  

Depois dum bloco de aço de 5 centímetros de diâmetro, foi feita a peça que iria fazer andar a Cruz de Malta e depois de mais umas aulas, ali estava a maquineta a andar e a fazer o barulho característico dos saltos das cruzes de Malta.  Depois foi tornar em aço, os dois carretos de entrada e saída do filme à Cruz de Malta, trabalho bastante aborrecido, porque nessa altura, eu ainda não sabia abrir à fresa, rodas dentadas. Assim, enrolando um pedacinho de filme de cinema em forma de cilindro, marquei os sítios onde teriam de aparecer os dentes e aquilo também foi conseguido com sucesso.

O Chefe da Oficina, de vez enquando, passava perto de mim, mas depois de olhar bem, não dizia nada e lá se ia embora. Nesses momentos toda a turma parava de trabalhar, para apreciar a cara do nosso Mestre…

Passado alguns meses, eu já conseguia projectar pequenos pedaços de filme de cinema, embora com uma barulheira terrível da “malvada” Cruz de Malta, porque eu não tinha ainda caixa de lubrificação e vedação de som.

Certo dia, ao entrar no gabinete do meu Chefe, vi pendurado, um molho de chaves Yale, virgens, e uma já feita. Aí perguntei-lhe, muito envergonhado, se me deixava fazer uma chave igual, ao que ele me perguntou: -E que ferramentas necessitas ?

Logo lhe respondi que me bastaria um conjunto de limas de ourives, coisa que eu já tinha visto em minha casa, e ele, abrindo a gaveta da sua mesa, entregou-me o jogo de limas.  Aí vou eu para uma bancada, com uma craveira e vai de copiar a chave, com a máxima precisão que pude. Aquilo até parecia que estaria bem e assim fui mostrá-la ao meu Chefe que olhou, olhou, viu por todos os ângulos, com as duas uma sobre a outra, e acabou por me dizer que a fosse experimentar na porta do Director da Escola. E assim vou eu à procura da porta e não é que a chave abriu de imediato a porta ?  Mas, para meu espanto, estava lá dentro o Director que me chamou de imediato, muito rispidamente, com um grande berro, e me pergunta onde fui arranjar aquela chave…

Só me faltou chorar de vergonha, mas lá lhe expliquei que a havia estado a fazer e que o meu chefe me tinha dito para a ir experimentar, provavelmente não sabendo que o Sr. Director estivesse lá…

Lá me mandou embora, mas dizendo-me para chamar, o meu Chefe, o que aconteceu de imediato.

Não sei, ainda hoje, o que se teria passado, mas certamente que o meu chefe deveria ter apanhado um bom raspanete do “malvado” Sr. Director, ao ver um miúdo abrir-lhe a porta do gabinete e sem sequer bater primeiro…e ele que estava em conferência com outros professores, todos de boa aberta a olharem para mim…Mas que grande bronca !!!!

 

Posted by Engenhocando at 15:06:20 | Permalink | No Comments »

Veludo e Pó Caiado….. pelo Prof. João Martinho

   João Vitalino Martinho, não descreve somente episódios da sua terra ribatejana ESPINHEIRO, e o leitor irá ficar um tanto surpreendido por o poder ler falando sobre a NAZARÉ, terra de que ele gosta intensamente e desde há imensos anos, passando lá muitos dos seus períodos de férias. Da mesma forma, ele fala das gentes desta terra e com o mesmo sabor, o mesmo detalhe, observação e saborosa linguística.

    O Editor Mário Portugal

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   Nazaré, terra de sonho !

 

                     Veludo e Pó Caiado
  

 

     Imobilizado num leito do hospital do Sítio, Pó Caiado ruminava a sua vingança..  O cérebro febril não parava. Havia de matá-lo ali mesmo na praia à vista de toda a gente quando a barca do ti Olhinha viesse da pesca e a palecada (banhistas)  estivesse em força no areal. Primeiro agarrava-o pelos cabelos e  depois batia-lhe com a cabeça ,cem vezes, na roda de proa duma lancha qualquer, mas antes havia de ter uma conversa :

  -Olha lá  Velude se és  home, bota a navalha no chão e vira-te cá pra mim…!O  outro, já se vê, havia de vir para ele mas sempre com a mão no bolso a apalpar a mola  para lhe dar outra naifada.  Pó Caiado, durante as três semanas de internamento cogitou e calculou todas as situações. A  Nazaré havia de fazer daquele encontro o caso do dia. Nas tabernas, na lota, nas vielas, nos cafés e na praça, o caso Pó Caiado e Veludo,  ia ser falado…..Ah isso é que ia….!    

                             

           E á medida que o tempo passava e a comichão das cicatrizes se acentuava dando mostras duma cura total, o plano lá ia amadurecendo e sofrendo as alterações que o seu estado humoral comandava. De modo que, quando o médico, numa das suas visitas diárias lhe deu alta e o aconselhou a ter juízo e  a não se meter em brigas por causa de mulheres, já o Pó Caiado tinha comutado a pena de morte ao seu adversário para se ficar numas lambadas bem assentes e uns socos nos olhos, com umas nódoas negras que haviam de servir gozo ao mulherio.  - Olha cá Velude….tás de lute….quem é que te merreu ? Foi a tua menher..?  Pó Caiado, conformado com estas antevisões, lá desceu no elevador pela calada da noite escolhendo um percurso furtivo que o levou a casa sem ser notado pelos poucos transeuntes que encontrou.-  Olha lá  filhe, queres que coza  umas cavalinhas com batatas….?- Quero sim nha mãe…..- Olha filhe gostava que saísses esta noite…tou sempre sozinha…. Faz-me a vontade…preciso tanto de companhia….- bem  nha mãe…            E lá passaram o serão trocando banalidade, até que o sono os venceu.           Mal rompeu a manhã, Pó Caiado foi espreitar o mar….- Que é iste…?  O mar tá grosso  ..!  (e pensando no outro)…Se calhar o malandro pira-se pra  S. Martinho e lhe ponho a vista em cima….!  Contudo ficou-se pela praia aguardando os acontecimentos.  Não tardou que a barca do Ti Olhinha, lembrando um  enorme cetáceo, encalhasse no meio de grande rabiosa e com  a companha encharcada até aos ossos. Vieram depois o Antoino Vapor e  o Álvaro que à cautela deixou o ferro para lá da rebentação, não fosse o diabo tecê-las. Com o mar assim e sem rasos, todo o cuidado era pouco.    E não havendo mais embarcações no horizonte voltou a casa para ir tratar dos apréstimos guardados na cabana…mas sempre a remoer…a pensar no outro. Tão absorto e alheado ia, que não deu pela corrida desusada do mulherio que,..finalmente , o reconduziu à realidade.    - Acudam….!  Acudam…..! Ai o mê rico home que vai merrer…!   Pó  Caiado apercebeu-se que  algo de anormal tinha  acontecido e lesto voltou à praia…Sim…muita gente…tinha havido um desastre….Um batel flagelado pelas vagas e tinha-se voltado. Numa confusão enorme de remos, cabazes e redes que bailavam na crista das ondas….no meio duma algazarra enorme e gritos de apelo à Senhora da Nazaré, os de terra  iam recolhendo os náufragos.     Entretanto um velho de barbas com as roupas coladas à magreza do corpo gritava:  - Falta um.. !  Falta um…!  É aquele…!   É  o Velude…!    E apontava para o mar onde se via uma cabeça que se afastava levada pela maré.   Foi então que o Pó  Caiado, mesmo vestido, embalou no declive da duna, se atirou com arrojo e decisão às águas revoltas e ameaçadoras. Com braçada forte e ritmada aproximou-se e agarrando o Velude, pelos cabelos, iniciou a difícil e perigosa  retirada, contrariado pela corrente, pelo frio e pela ressaca. Na praia reinava o silêncio. Cada rosto denotava angústia e nos lábios adivinhava-se uma  prece:      - Deus queira que se salvem…!  Deus queira …..E numa lentidão enervante em que a progressão se fazia em avanços alternados com horríveis arrecuas..as duas cabeças ora subiam ora desapareciam…Os de terra apercebendo-se do momento mais crítico gritavam:       -.Força….!  Força…..!  Agora….!  Agora….! E de repente uma vaga enorme trouxe-os à borda e deixou-os em seco, exaustos, esfarrapados e semiconscientes. A chusma dos palecos e mirones rodeou-os e prestou-lhes os primeiros socorros. Quando conseguiram pôr-se de   abraçaram-se e, convulsivamente, choraram lágrimas de arrependimento e perdão, mas o Pó Caiado, num último assomo de energia, finalizou com a simulação duma bofetada no Veludo, numa espécie de certificado de homem de palavra:

                      - ê nã te disse que as havias de levar …?

        A Nazaré acabara de escrever mais uma página na sua longa história de naufrágios em que nunca faltou coragem e abnegação… como as demonstradas pelo patrão Sousa Lobo que numa noite tempestuosa se levantou da cama, atacado de pneumonia, para dirigir um salvavidas, a remos, que foi acudir a um pobre de Cristo que andava perdido na escuridão e na braveza do mar e a quem a Senhora da Nazaré deu força anímica até chegarem as mãos benditas dos salvadores…..

 

Posted by Engenhocando at 14:29:55 | Permalink | No Comments »