Saturday, November 11, 2006

UM LINDO PASSEIO DE CARRO DE BOIS

 

                                  « UM PASSEIO DE CARRO DE BOIS  »

Nos dias de hoje, ninguém pensaria em ir fazer um passeio em carro de bois que se desloca a uma velocidade de dois ou três quilómetros por hora, mas durante imensos anos, era, embora muitíssimo lento, o veículo mais potente para arcar com pesadíssimas cargas ou vencer terrenos e estradas muito inclinadas.

Mas, naquela Primavera de 1937, meu pai nos surpreendeu com a hipótese de irmos todos dar um passeio de carro de bois, à lagoa das SETE CIDADES. Aquilo nos surpreendeu um tanto, porque ele já estava muito doente e até viria a falecer dois anos depois, com somente 45 anos !

    Na ponta esquerda do mapa, na seta amarela, fica a freguesia de GINETES onde nos encontrávamos. VARZEA que fica a uns 3 Km de distância, era a terra para onde nos tínhamos de deslocar, antes de ser iniciada a enorme subida da montanha, a cumieira. No mapa, aquela mancha azul, é a lagoa das SETE CIDADES.

Tudo foi preparado nos dias anteriores, até porque o passeio iria demorar o dia inteiro e havia que preparar comida para uma data de gente grande e miúda.

Com os meus 10 anos, meu irmão Carlos Mar com 13 anos, minha irmã Manuela com 11, a Leonor com 9 e a Gabriela com 7 ou 8, todos adorando aventuras pelo campo, aquilo estava a prometer !!!

No dia marcado, fomos todos levantados à força, até porque ainda era quase noite, toca a vestir as roupas de passeio e a tomar o pequeno almoço.

Ainda mal se via, mas vimos chegar o carro de bois que nos iria transportar até à lagoa das SETE CIDADES e vai de ajudar a para lá transportar toda aquela tralha, de cestos e mais cestos, sacos e mais sacos, garrafas de água …que o agricultor/condutor, em cima do carro, ia arrumando convenientemente, lá na frente.

Dado que nessa época, nem havia água canalizada, o Sr. Manuel, empregado da casa, todos os dias tinha de empurrar uma carrocinha com dois barris de água, com mais de 80 litros cada um, que ia encher numa fonte, ali a uns 200 metros de distância e de volta, tinha de “alombar” com eles e despejá-los num grande depósito de barro que tinha uma torneira em baixo, ou então transportá-los até ao lavadouro da roupa.

Ele também se ocupava de ir buscar a lenha necessária para o grande e negro fogão de ferro da cozinha e até de manter o automóvel Austin-7, adquirido há poucos meses, sempre brilhante.

Assim, não se podia tomar banho geral todos os dias e aquilo era tudo muito economizado…

 -O carro de bois trazia duas parelhas de 4 enormes bois que pacientemente, ali estavam à esperar da ordem de marcha, o que veio a acontecer poucos minutos depois, com toda a malta “arrumada” de pé, encostada a uma espécie de cesto de vimes, que só deixava a traseira aberta, onde se assentaram meu pai e minha mãe, com as pernas penduradas do lado de fora do carro. Com aquele cesto dum metro de altura, todos ficávamos só com a cabeça de fora e não havia qualquer possibilidade de lá cairmos para a rua.

Assim, mais parecíamos cachos de uvas num carro de bois nas vindimas do Norte de Portugal…chiando por entre os vales do Douro, carregados de toneladas de uvas…

     « Ermida Senhora de Fátima, entre GINETES e VARZEA»

Mas ao fim de um quilómetro, já estávamos todos fartos de lá estarmos “encestados”…e vai de saltar tudo para a rua e correr para todos os lados…

Ainda o Sol não tinha nascido, já estávamos a passar ao lado da linda ermida Nossa Senhora de Fátima, e com todo o Oceano Atlântico à nossa esquerda, a perder de vista !

 Mais uns 3 quilómetros à frente, chegámos à VARZEA, de onde se iria começar a enorme subida, encosta acima da cumieira, até ao topo e já com a lagoa à vista, lá a uns 300 metros abaixo, iríamos começar a descida. Quanto mais subíamos, mais a nossa vista abrangia… e os fortes bois, lá iam conseguindo puxar aquele pesado carro por ali acima. Durante as nossas explorações de terreno, lá fomos encontrando nascentes de água muito fresca e pura, que pondo as mãos em concha, íamos bebendo sofregamente.

Com pena do esforço que os animais estavam a fazer, até os meus pais se apearam do carro, que seguia agora e só, com os mantimentos, enquando iam subindo os dois, a pé,  sorrindo e conversando, de mãos dadas, talvez comentando as nossas brincalhotices.

Para todos nós, aquilo era uma aventura imensa, porque era a primeira vez que iríamos apreciar a beleza daquela tão falada lagoa, onde tantas vezes meu avô tinha de ir visitar os seus doentes, mas a cavalo, pois o carrinho tinha de ser poupado !

     « À vista de tão grande beleza, quase chorámos de alegria »

 (Aquilo que estávamos a ver, era um pouco diferente desta imagem, porque estávamos num outro lado, mas desse lado, não tenho fotografia.)

Devido aos arbustos que circundam a enorme cratera, formam-se duas lagoas, em que uma é nitidamente verde e a outra azul. Elas são unidas por um estreito corredor, ficando do lado de lá…o “curral das freiras”…não sei por que diabo era esse nome…

Como o dia estava lindo, coisa um tanto rara nas ilhas, porque tão depressa faz Sol como chove a cântaros…lá fomos passando o tempo correndo e brincando uns com os outros, na melhor galhofada possível ! Na realidade, raramente entrávamos em brigas e nada de queixinhas, porque ainda levávamos algum puxão de orelhas…

Agora, havia que meter a toda a força os travões de sapata àquelas rodas de madeira, chiando que se fartavam ! Por todos os lados havia amoras lindas e muito negras, molhadas pela humidade da noite, e tudo nos servia para as apanhar, comer e guardar. Foi cá uma barrigada das antigas !!!

Assim, rapidamente chegávamos ao povoado e logo de corrida, perante a aflição dos nossos pais, vai de despir e meter os pés dentro de água, e mais qualquer coisa ! Aquilo era tão grande, que mais parecia um mar, mas completamente plano e brilhante, com nenúfares aqui e ali, a boiar à flor da água ! Aquilo era o paraíso !

Algumas mulheres estendiam roupa lavada na lagoa, sobre a relva limpa, para secar ao Sol. O silêncio era tal que quase doía ! A nossa gritaria, repetia-se em eco pelas montanhas e vai de experimentar as vozes que fizessem mais ecos…e ficávamos a rir com aquele olá…olá…olá… 

- Hoje, vai-se de automóvel até à borda de água e até se podem visitar miradouros sabiamente escolhidos, como este, de onde um fotógrafo tirou esta espectacular fotografia.

Quando o avião aterra em S.Miguel, é mesmo ali ao pé de Ponta Delgada, onde os taxis nos levam a visitar toda a fabulosa ilha, levando-nos aos miradoiros mais belos, embora só alguns possam ser “descobertos” pelos naturais da ilha, porque se tem de andar uma centena de metros por veredas apertadas, onde um automóvel não pode circular.

Meu primo Eduardo Leça, que foi lá faroleiro na ilha, uma data de anos, teve a gentileza de nos ir mostrar os melhores sítios, quando há poucos anos, em 1988, fui mostrar a “minha” ilha à minha falecida esposa, que havia de falecer em 1991. E ele até nos mostrou as imponentes terras do Nordeste, com as suas matas cerradas e a profundidade enorme e dada a sua grandiosidade, até nos chocava. Aqueles milhões de árvores haviam nascido DENTRO uma das outras, naturalmente e, por isso estavam completamente emaranhadas, e tudo aquilo era verde, muito verde, a mais de 300 metros e profundidade !

   « A ESPECTACULAR  LAGOA  DO FOGO »

E também nos mostrou a LAGOA DO FOGO, também linda de morrer !

Quando chegou o meio da tarde, todos borrados das amoras que havíamos comido, e sujos dos pés à cabeça, lá voltámos para casa, depois de um passeio de carro de bois, que havia de ficar para na minha história.

 

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A LAGOA DAS SETE CIDADES e outras

                         

                                            « A LAGOA DAS SETE CIDADES E OUTRAS »

Quem nunca foi visitar as ilhas dos Açores, não pode fazer a mais pequena ideia do que aquilo é !

Verdade seja dita que eu só conheci a ilha de S. Miguel, onde nasci em 1927, mas até para os açorianos, não era fácil nem barato, conhecer a ilha toda, até porque ainda são umas léguas de comprimento !…

Para qualquer continental, aquilo é um bocadinho de terra com água por todos os lados, mas pensando em LÉGUAS… já se pode ter uma ideia da sua dimensão !

      « As lagoas verde e azul, das Sete Cidades  »

Lá em baixo, uma pequena povoação, com o mesmo nome da sua lagoa, lá vive e reza na sua linda igreja, para que aquele Paraíso seja mantido pela Providência.

Nascida de vários vulcões extintos há imensos anos, é composta de enormes crateras onde as nascentes e as chuvas, formam lindíssimos e enormes lagos, repletos de arvoredo luxuriante por todos os lados, reflectindo nas suas límpidas águas doces, toda a vegetação circundante.

                «  Um recanto da Lagoa das Furnas  »

Sendo um micro-clima, as chuvas são tão abundantes, que não se encontra um metro quadrado de terreno sem planas e todas elas viçosas e regadas constantemente por Deus Nosso Senhor. Ali, e dadas as temperaturas tão amenas, tudo se cria na terra, nem que seja nas valetas, facto que obriga a que os cantoneiros, estejam sempre de enxada na mão a limpá-las… Aquilo chega a ter a sua graça, porque é frequente encontrarmos pés de milho com mais de 2 metros de altura, nas valetas…

É por isso que S.Miguel é conhecida pela “Ilha Verde”, onde o pó não existe, por mais vento que se levante…e o gado se cria a pastar com um pé amarrado, para se ir alimentando das ervas frescas e que vai “adubando” enquanto anda em círculos com uns 10 metros de diâmetro. Os pastores só têm de lá ir retirar as estacas, de vez enquando, para o mudar de sítio, retirar o seu magnífico leite, de que produzem os belos queijos açorianos, e , ao chegar da noite, o gado ali fica a dormir ao relento, com o seu pêlo malhado de preto e branco brilhante. 

Assim, é frequente vermos diariamente cavalos carregados de dois latões a cada lado e o pastor em cima, viajando pelas estradas cobertas de túneis de árvores, onde o Sol mal consegue penetrar.

O clima é pois propício para o desenvolvimento de plantas como o Chá e os ananases, embora estes sejam criados em estufas, o vinho tinto, a groselha, o araçal, os figos, etc.etc. 

   

 Numa piscina das Furnas, a água jorra tão quente e sulfurosa, que imensas pessoas de todo o Mundo, lá vão à procura de cura para as suas doenças de ossos, reumatismos e doenças de pele.

  Ali mesmo ao lado, um magnífico hotel está à espera destas pessoas que podem gozar de passeios a pé, a toda a hora, por entre aqueles espectaculares e aromáticos jardins.

          «  O Hotel Terra Nostra, junto da Lagoa das Furnas  »

Nenhuma destas belezas se vê, quando se entra em S. Miguel pelo mar, porque tudo está “escondido” no seu interior, mas felizmente que actualmente, em poucos minutos de viagem, de automóvel, as podemos ver e, normalmente em miradouros habilmente escolhidos onde, num repente, se abrem a nossos pés estas imagens poderosas de encanto e surpresa ! Parece que se abre o Céu na nossa frente, e até  parece que nos falta o ar ! Como é possível haver tanta beleza, e aqui a uma hora de avião !

Depois podemos viajar até lá abaixo, a mais de 300 metros de profundidade, para apreciarmos de perto aquelas indiscritíveis maravilhas, num ambiente celestial de silêncio, perfume e limpeza !

Mas a ilha “está viva”, “respirando” constantemente pelas suas imensas “narinas”, onde se pode ver, ali mesmo a nossos pés, água a ferver e gases, o seu hálito especial, a sair das suas profundidades, nas Fumarolas , e tirando os sapatos, podemos sentir que a terra e as ervas estão mornas !  Por baixo de nós, está a terra a ferver, mas ninguém se assusta… Aquilo é mesmo assim, há centenas de anos, e até achamos graça…

A meio metro de profundidade, estrategicamente enfiados pela terra abaixo, os açorianos enfiaram tubos de cimento, cheios de buracos de lado e por onde jorram os violentos “calores” da terra, como maçaricos, e lá se podem colocar panelas com comida que, passada uma meia hora, se apresenta toda cozida e pronta a comer !

Conta-se por lá, com muito gozo, que um cientista estrangeiro, lá foi visitar essas furnas fumarentas e mal sentiu o calor que brotava da terra a seus pés, e o rugido das “narinas” das entranhas da terra, fugiu assustadíssimo, com todo o seu material científico às costas,  garantindo que aquilo estava eminente de explodir…

   « As “fumarolas” na Lagoa das Furnas »

Esta tremenda agitação vulcânica, deu origem, há uns anos, ao seu aproveitamento, com uma estação geotérmica construída na freguesia da Ribeira Grande, onde S.Miguel aproveita 30% da sua energia eléctrica, com água captada a cerca de 1000 metros de profundidade, à temperatura de 200ºC.

  A Central Geotérmica da Ribeira Grande

Um rico inglês que há imensos anos foi visitar estas “Furnas” ficou de tal forma extasiado e fascinado com o clima que lá encontrou, que mandou vir de imensas partes do Mundo, plantas exóticas que lá plantou e, assim, podemos apreciar as luxuriantes plantas do Japão, Indonésia, Brasil,  etc.etc. É tudo do que há de mais belo.

Descrever por palavras, esta ilha tão especial, só por Grandes Escritores.

E eu, relembrando tudo isto, penso ter tido a sorte de ter nascido no Céu !

 

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Friday, November 10, 2006

DESCOBRI O PARAISO …

     

                                «  DESCOBRI  O  PARAISO  »

   A minha “mania” das aventuras, já vem de muito longe, porque meu pai também gostava muito de sair à aventura por qualquer lado. Para tal, minha mãe preparava um belo farnel e vestia-nos roupas que se pudessem sujar à vontade, enquanto meu pai dava voltas às ferramentas necessárias para se poder safar dalgum “enrascanço” proporcionado pelos caminhos de cabras, por onde se aventurava a meter o velho carrão, e até levava uma valente corda, para o caso que ser necessário pedir reboque a alguém…

  Meu pai, artista como era, só procurava as delícias do campo.

Quando acabava a passeata, muitas vezes rocambolesca, com o rebentamento de pneus que só meu pai podia substituir, mas às tantas e por vezes, já sem o pneu de reserva, era mesmo ali no campo, que ele o desmontava e pregava um ou mais remendos, coisa que acontecia com frequência naquele tempo, até porque havia pregos por todos os lados e cravos das ferraduras…

Enquanto ele se entretinha a fazer estes trabalhos, nós corríamos brincando por todos os lados, e deixava-mos rolar por qualquer declive mais ou menos acentuado. Aquilo era uma festa !

Uma data de anos depois, comigo já com uns 36 anos, e tendo adquirido um velho carro Ford com motor de 8 cilindros em “V”, e que comia gasolina que se fartava… passeando com a família na estrada entre Salvaterra de Magos e Coruche, descobri a indicação duma barragem, mas aquilo só tinha como acesso, pedras e mais pedras, uma coisa horrorosa, mas muito lentamente, lá fomos andando à procura dela.

Ao fim de uns 2 KM, lá estava ela, toda rodeada de árvores por todos os lados, uma lagoa lindíssima ! Aquilo era mesmo “O PARAISO” !  Como era possível que coisa tão linda, tivesse tão difícil acesso ?

  Aquilo era realmente um “Paraíso ” !

Quando cheguei a casa, e aproveitando o jornal da terra, o “Aurora do Ribatejo”, vai de escrever um artigo a tentar alertar as autoridades para uma das coisas mais lindas que havia 100 Km em redor e, para meu espanto, poucos dias depois, vem visitar-me um amigo dos velhos tempos do Sanatório, um tal João Pereira, que havia lido a notícia e me vinha informar de que tinha recebido ordem da Junta Autónoma de Estradas, para ir calcular o quanto custaria alcatroar aqueles 2 Km de estrada e mais, dizendo-me que já tinha na mão todos os cálculos e certamente, que aquilo seria obra para fazer de imediato !.  E foi !!!!

Um ou dois meses depois, já se podia lá entrar de automóvel, podendo chegar-se com ele até à borda de água e debaixo das árvores, acampar deliciados. Como a noticia do acesso à barragem, eu havia publicado de imediato, foi uma correria imediata de centenas e centenas de pessoas a lá aparecerem, muitos levando os seus barcos e barquinhos. Nessa altura eu ainda não tinha qualquer barco para lá por na água, mas gozávamos a ver os outros brincar e gozar aquela maravilhosa barragem.

   Da esquerda para a direita, meu filho mais velho, minha esposa que sempre se fazia acompanhar dos seus bordados, minha mãe, minha filha e meu filho mais novo.

 Assim, a partir dessa altura, milhares de pessoas de todos os lados iam aparecendo aos fins de semana, com os seus farneis e a criançada festejando a sua liberdade, sempre vigiada por perto, não fossem cair dentro de água e afogar-se…

Na realidade, a água vinha até quase aos nossos pés, pelo que toda a criançada se deliciava a tomar banho.

Infelizmente, o povo português daquela época, pouco habituado a estas maravilhas, rapidamente começou a estragar o ambiente, com veraneantes transportados em camionetas, fazendo uma porcaria dos diabos, assando sardinhas nos seus pestilentos fogareiros e deixando o ambiente completamente conspurcado de latas e garrafas, plásticos, espinhas, etc. etc…

Mas como a barragem é muito grande, ali se começaram a fazer corridas de barcos de todos os tipos, o que trazia a reboque muitos milhares de curiosos.

Era pois frequente o vermos por lá os entusiastas pela náutica, Mário Madeira, João Valente e toda a família Raposo de Salvaterra de Magos, de quem nos fizemos muito amigos.

Depois vieram as motas de água, que fazendo uma turbulência dos diabos, até muito perto de terra, obrigavam toda a gente a fugir da borda de água, até que há poucos anos, decidiram fechar o acesso à barragem e aquele “paraiso” acabou por ficar mais ou menos abandonado…

  Minha filha em Snype, passeando com uma amiga.

Pouco tempo depois, e já com um barquinho construido em casa, também lá andávamos não só a motor como à vela.

Infelizmente, passado poucos anos, toda aquela água estava infectada por abusivas descargas de pesticidas, e todos estamos à espera de que a Câmara Municipal de Salvaterra de Magos, nos volte a brindar com aquela magia de paisagem…

 

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Thursday, November 9, 2006

À ESPERA DUM RAIO QUE NÃO ME PARTISSE…

                     À ESPERA DUM RAIO…QUE NÃO ME PARTISSE 

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Todas as ilhas são atritas ao disparo de raios e S. Miguel, não é excepção.

Não é por ser muito alta, nada que se pareça com a ilha do Pico nem com a da Madeira, mas era certo e sabido que era usual ouvir-se falar de raios que tinham fulminado pessoas e gado, atravessado casas, atirado pelos ares panelas e tachos, etc.

Meu avô, como médico, tinha sempre de ser chamado para ir verificar e passar a certidão de óbito daqueles desgraçados que, fugindo à chuva, se iam meter debaixo das árvores e eu ouvia dizer que os seus corpos, se encontravam totalmente carbonizados.

Assim , tremores de terra e raios, não amarguram nada, os açorianos. Aquilo é o pão nosso de cada dia.

Estava eu, em certa altura, a ouvir meu irmão Carlos Mar, que era dois anos mais velho do que eu, que as coisas metálicas, em especial de ferro, atraiam os raios e, com tanta força, que até os derretiam, perante uma espécie de fogo de artifício incrívelmente lindo !

     

Aquilo devia ser um espectáculo interessante de observar e, em certo dia, perante uma trovoada das grandes, resolvi agarrar umas chapas de ferro e, carregando os meus 10 anos de vida, subi ao morro que ficava mesmo ao lado da casa onde vivíamos, munido de um guarda-chuva, para tentar observar o espectáculo que seria, um raio cair nos meus ferros…

    Do outro lado da nossa casa, está o outeiro onde me fui plantar à espera que um raio caísse nos meus ferrinhos…

 Aquilo estava mesmo feio, com o céu muito negro a os raios a caírem por todos os lados, menos nos meus ferros que havia colocado ali a uns metros de mim…e os trovões eram tão fortes que todo abanava, mesmo assentado no chão de pernas cruzadas e já com os calções e o rabo todo encharcado…

Um criado da casa que havia ido carregar mais um barril de água para a cozinha, deu comigo lá em cima, no topo do outeiro e foi de imediato chamar meu pai e toda a família, e eu logo vi pelos seus bracejares, que dali não me viria nenhuma festinha…mas lá desci e venho encontrá-los imensamente arreliados comigo. Cada um gritava para seu lado e eu nada entendia…

Ninguém me bateu, mas meu pai agarrou nuns 2 ou 3 metros de linha, amarrou-mos aos pulsos e crucificou-me entre duas portas, avisando-me que se eu rebentasse as linhas, então levaria uma grande tareia…

Ali fiquei eu “crucificado” sem poder deixar os braços cair, até que as dores nos ombros passaram de ligeiras a alucinantes e as lágrimas começaram a rolar-me pela cara abaixo. Aquilo doía demais !

Por que diabo eu estava a merecer um tal castigo ? E dele, de quem tanto gostava ?

Naqueles minutos de tremenda angústia eu cheguei a abominar meu pai, pois ainda hoje, passados mais de 70 anos, ainda não sei o porquê de ele não me ter explicado o perigo por que estava a passar, mas meu avô ao ouvir o meu choro baixinho, acabou por me aparecer dizendo, “já basta” e lá me deixou ir embora arrasado de sofrimento, para o meu quarto que era no sótão.

Meus 4 irmãos, estavam à minha volta, sem dizerem palavra, mas todos com caras muito tristes, enquanto eu continuava a chorar desesperado, não com a ausência do raio… e já nem com as dores nos ombros, mas por me terem “roubado” a possibilidade de observar por perto, uma coisa que tanto me estava a encantar e, pior, ninguém me ter explicado onde estava o real perigo…

A partir dessa altura, logo pensei que quando fosse grande, iria fazer tudo o que estivesse ao meu alcance, para explicar aos que me rodeassem, não só os perigos que nos rodeiam, mas a forma de fugir deles… e muito menos castigar violentamente uma ignorante criança, como eu era, e muito menos daquela forma.

E continuava a pensar no porquê de nenhum dos GRANDES, ter aproveitado aquela situação macabra, para me dar uma explicação suficiente para a minha tenra idade.

Hoje, rondando os 80 anos, embora consciente dos tantos “disparates” que levei a vida a fazer, “bricalhotando” e “engenhocando”, sinto que, de qualquer forma, estes “disparates” todos, me ensinaram a viver e conviver com os perigos que, mais ou menos, todos encontramos pela vida fora, na vida.

Mas lá que era “levado da breca”…isso era …

 

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BRINCANDO COM A ÀGUA

                                          BRINCANDO COM A ÁGUA

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  O meu primeiro barco com motor.

Como o leitor se poderá aperceber, isto parece tudo, menos um barco, mas funcionou e com ele muito me diverti em 1953, com uns 27 anos, já casado e com três filhotes.

Esta mania dos barcos, já vem desde a minha infância, mesmo antes de entrar para a Escola Primária…

A nossa casa, tinha um subterrâneo enorme, do tamanho de toda a casa, escuro que se fartava e cheio de teias de aranha por todos os lados, mas ali haviam ido parar muitos trastes velhos, daqueles que toda a gente gosta de guardar…

Um dia, de vela acesa, desci a escadas que davam acesso pela cozinha, a este subterrâneo e fui lá encontrar um velho baú que até tinha a tampa sem dobradiças e logo aí pensei, com os meus 5 anos, que aquilo posto de pernas ao ar, poderia flutuar no tanque da lavagem de roupa e vai disto, com muito custo, reboquei-a cá para fora e consegui metê-la dentro do enorme tanque de lavar a roupa, verificando que flutuava lindamente e vai de enfiar-me lá dentro…

Aquilo era mesmo um barquinho que balanceava perfeitamente, mas passados poucos segundos, começo a sentir-me todo molhado no rabo e a “coisa” a afundar-se…

Havia que saltar para fora e voltar a levar o “meu barco” lá para o escuro subterrâneo.

Não sei ainda se esta vontade de flutuar, era devido a ter nascido na ilha de S.Miguel, rodeada de água por todos os lados, mas só muito mais tarde, e ainda solteiro, mas já empregado numa firma chamada RARET, “fundeada” no Ribatejo, muito perto do rio Tejo, me voltou a despertar o interesse de ter qualquer coisa que pudesse meter dentro de água.

Tendo encontrado os restos duma velha mota, uma Harley, ainda com motor mas sem rodas, logo pensei que poderia construir uns flutuadores e colocá-la entre os dois, fazendo uma roda de palhetas, como usavam os barcos do Mississipi, e conseguir alguma coisa que andasse na água.

Infelizmente, não guardei nenhuma fotografia, para mostrar.

Mas no dia da primeira experiência, como ainda não havia colocado um guarda-água, assim que o motor pegou e aquilo começou a rodar, era água por todos os lados !!!

Completamente encharcado, dos pés à cabeça, logo pensei que aquilo precisava mesmo era dum guarda-água e lá o construi, deixando uma pequena abertura atrás, para facilitar a saída da água e, vai de fazer nova experiência na Vala de Salvaterra de Magos, onde alguns bateiras estavam em conservação, ali a alguns metros de distância.

A assistir a este evento estranho, estava uma data de malta curiosa, mas mal a roda das palhetas foi posta a rodar, reparo que toda a gente estava a esbracejar, muito aflita e a apontar para as bateiras…

Voltando-me para ver o que estava a acontecer, é que reparei que do buraco que eu havia feito no guarda-água,  saía um jacto de água fortíssimo e que estava apontado às bateiras, encharcando aquela malta toda !

Mas que grande barraca ! Talvez por se aperceberem de que aquilo era uma experiência, acabou tudo em grande risota, mas tive de ir pensar em alterações, arrumando a maquineta para um lado.

Um ano depois, fui transferido para Benavente e vendo que havia água muito perto, ali no sítio chamado de Vala Nova, e o rio Sorraia, e com a ajuda do meu amigo Fernando Côdea e do David, lá se engenhou um hélice para substituir aquela malvada roda das palhetas, o que veio a acontecer poucos dias depois e a coisa já podia assim navegar perfeitamente.

Vala abaixo, vala cima, agora vais tu, agora vou eu, aquilo até estava giro, mas um dia, com o estranho aparelho fora de água, veio um camião que não reparou nele e o esborrachou completamente ! Minha rica Mota de àgua…

Entretanto já casado, vai de construir coisa muito diferente e usando um motor VW com hélice do tipo dos aviões, como se vê na foto acima, e pensando que aquilo agora, com 30 HP até iria voar em cima de água… vai de por o motor a funcionar, mas sabendo nadar como um martelo sem cabo…vai de colocar bem à vista, uma câmara de ar de automóvel, ali mesmo à mão… 

Aquilo estava “tão fino” que até tinha dois farois cromados e eu até havia conseguido um boné de oficial de marinha, que havia comprado por 50$00, ao meu amigo Zé Rodrigues da Fonseca, que havia sido oficial radiotelegrafista na Marinha.

Só que o motor “berrava” que se fartava, mas aquilo só andava lentamente…  Tinha de fazer outro e mais outro hélice, mas como o motor já era muito velho e com cada pistão de sua nação…continuava a não “voar” sobre água, como eu tanto desejava…

Assim e perante o perigo eminente de vir a ser “cortado às fatias”, pelo hélice, vai de retirar o motor e em seu lugar, colocar um pequeno motor de pôpa de 10HP, Mercury, que estava abandonado no canto duma oficina e que pertencia ao amigo António Paim, director da firma Mecânica Agrícola.

Embora em estado de novo, ele tinha os carretos do hélice “desdentados” e o seu dono não estava interessado em mandá-los vir de fábrica, pelo que mo emprestou e assim, ali vou eu a Lisboa, à procura duma oficina que mos fizesse, o que consegui e vai de montar o motor no meu esquisito barco plano, feito com chapa de alumínio rebitada por todos os lados.

Ah ! Aquilo agora era outra coisa e aqueles 10HP já faziam o barco patinar sobre água, mas devido ao seu formato plano por baixo, era difícil de fazer voltas, quase se emborcando…e pregando cada susto dos diabos…

Mas o brinquedo como estava a dar muito que falar, acabou por chegar aos ouvidos do Antonio Paim, que o seu motor estava já a funcionar e, como pretexto de que tinha necessidade dele para levar comida a agricultores que estavam isolados na lezíria, pelas cheias, lá tive de o devolver e… acabou-se a brincadeira com aquele barco.

                   

 Uns anos depois, já com o meu filho mais velho com 12 anos, vai de construir um pequeno barco em madeira de contraplacado, e pensando no problema das voltas, levou um fundo em “V” pouco acentuado e, como o amigo Paim me voltou a emprestar o motor, ali vamos nós, agora para a maravilhosa Barragem de Magos, ali perto de Salvaterra de Magos, experimentá-lo.

Eu havia feito os moldes em cartão, para ver como iria fabricar o casco e dada a simplicidade da construção, ele foi feito em dois dias, pelo que ficou conhecido pelos “Dois dias”.

 O “DOIS DIAS” sobre uma rulote estranha…

Dai para a frente, foi um nunca mais acabar de usar barcos oferecidos e que haviam sido abandonados por grandes defeitos, mas depois de muito os estudar e alterar, lá os iamos pondo a navegar, perante o grande gozo dos amigos dos meus filhos que todos os fins de semana apareciam na barragem nem que fosse para dar uma voltinha ou aprender a fazer “sky”

   Assim, já com motor velho de 50 HP Mercury, aquilo já era outra coisa em velocidade e conforto de comandos ! Estávamos finalmente, a “voar baixinho”….

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Wednesday, November 8, 2006

ENCOSTADO A SALAZAR

 

Depois de um ano entre a vida e a morte, em 1945, tive conhecimento de que o nosso Presidente Salazar, iria visitar mais uma vez, a Estância Sanatorial do Caramulo, para assistir a uma missa na minúscula capela lá existente.

Pelo que vim a saber, há muitos anos que ele, pela altura das suas férias em Santa Comba Dão, fazia aquela visita  e dizia-se que era em romagem ao sítio onde havia encontrado a cura aos seus antigos padecimentos pulmonares.

Aquela capelinha, tinha uma entrada em escadas muito apertadas, de tal forma que duas pessoas ao subí-las, tinham de se sentir encostadas.

Desde a minha infância que havia admirado a coragem daquele homem que estava a “endireitar” Portugal destruído pelas constantes revoluções de 1926 e a sua imagem estava presente em todas escolas primárias portuguesas.

Quando ele chegou, já estava um mar de gente à sua espera e, como eu estava desejoso de o ver o mais próximo possível, fui-me chegando para as apertadas escadas que davam acesso à porta da ermida e, perante um estrondar de palmas de toda aquela gente, ele lá saíu do grande carro preto que o estava a transportar e sorridente, vestindo um negro fato impecável, acenou a toda a gente, abrindo caminho por entre a multidão, com certa dificuldade, até que teve de passar e roçar pelo meu ombro direito, subindo nós os dois, lado a lado, a escadaria.

Aquilo era empolgante para mim, pois sabia que ele só andava muito bem escoltado, mas ali, naquela Santa Terra, ele não ligava a protocolos e se sentia seguro e adorado das suas gentes. Via-se que estava a pisar um terreno que lhe tinha sido tão familiar, durante os anos de tratamento. Aquela gente até lhe parecia familiar, tal o sorriso simpático que lhe dirigia, como que a dizer: cá estou e vivo, mais uma vez e graças a Deus. Curiosamente, nunca ouvira dizer que ele havia estado lá em tratamento e possivelmente até será uma novidade para quem está a ler este depoimento, mas era o que constava.

Até poderia ter sido o sítio onde algum seu familiar tivesse estado a tratar-se, e isso lhe desse saudade, mas a verdade nunca vim a saber.

Uma coisa era certa, todos os anos, ele lá ia subir a Serra do Caramulo, para este evento…

À sua espera, estava o Director da Estância, o Dr. Abel de Lacerda com a família.

Como a ermida já estava completamente cheia, nem consegui arranjar espaço para assistir à missa, mas uma coisa tinha sido certa, eu havia estado encostado ao ombro do Homem mais famoso de Portugal, por escassos segundos.

 

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Sunday, November 5, 2006

A MALVADA PERNA TORTA

   O “QuickSilver” ULM de 1985

A foto acima, é muito mais recente, de 2006, e mostra a volta do baptismo de voo da minha filhota Antonieta, num QuickSilver pilotado pelo piloto-Instrutor António Palma, meu grande amigo.

Como tanto ela como ele, estavam viúvos, até resolveram casar-se.

Esta minha filha havia herdado do pai, o grande interesse por experimentar todas as máquinas que lhe pusessem pela frente. Assim, aprendeu rapidamente a andar de bicicleta aos 4 ou 5 anos, embora voltando a casa, frequentemente toda arranhada dos trambolhões, chorando, mas, logo de seguida, e cheia de tintura, ali ia ela novamente para cima da bicicleta…

  Na foto ao lado, podemos ver um pequeno tractor que usava um motor de bicicleta motorizada, que só usava a primeira velocidade, brinquedo este que era pilotado primorosamente pelo meu filho Mário, nessa altura com 4 anos.

Foi por esta altura, 1959, que eu havia construido um minúsculo automóvel para os meus já três filhos,

e que utilizava um vélho motor de 100CC, daqueles que pegavam à corda e era a delícia de imensos miúdos que corriam atrás dele.

   Aquilo era tudo feito de chapa zincada e o motor ia colocado atrás.

A embraiagem era feita com o esticar duma correia que estava a patinar num tambor e o travão era muito rudimentar, comprimindo uma sapata contra o tambor da desmultiplicação de RPM. Assim, os garotos logo aprenderam que era necessário desembraiar, antes de travar, senão aquilo não parava…

Como não havia dinheiro para jantes e pneus novos, havia usado 4 pneus velhos de lambreta e as jantes, eram dois discos de chapa de ferro que apertavam fortemente os dois bordos dos pneus, um de encontro ao outro. Como tudo aquilo era muito leve, e os miúdos também, nem necessitava de câmaras de ar.

O volante havia sido improvisado com uma roda da frente dum velho triciclo abandonado.

Como a minha filha ainda era muito pequena e mal chegava aos pedais, um dia, não encontrando o travão, pos-se a olhar lá para o fundo, e vai de chocar com um carro que estava parado, mas como ia muito devagar, nada lhe aconteceu, já não se podendo dizer o mesmo da frente do carro, que ficou um tanto amachucada. Mas saltou lá de dentro, toda feliz, por já ter conseguido conduzir o carrito, às voltas pelo bairro onde morávamos, como já fazia o seu irmão Mário com mais um ano de idade.

Mas, voltemos aos aviões, ou “coisas” que andam pelo ar !

-Os aviões QuickSilver, possuem umas longas pernas de tubo de alumínio Dural que, embora reforçado com outro no seu interior, e perante uma aterragem “dura”, vergavam para dentro, pelo que a asa desse lado, ia quase parar ao chão.

Para substituir esta malvada perna, era uma odisseia, porque o avião tinha de ser levantado no ar, com a ajuda de 4 pessoas, duas em cada lado, enquanto o mecânico rapidamente retirava os parafusos de cima e debaixo e enfiava uma perna nova. Aquilo era literalmente uma chatice e com tantos alunos a aprenderem a pousá-los, era certo e sabido que de 15 em 15 dias, lá havia uma malvada perna torta…

O problema assanhava-se ainda mais, quando eu, um franganote de 60 Kg, também tinha de ir ajudar a levantar o avião pelos tubos da asa. Sempre era levantar uma coisa de 200 Kg e cada ajudante teria de conseguir aguentar os seus 50 Kg o tempo suficiente para a substituição da perna torta…

Mas um dia e, depois de ter estado a estudar bem as triangulações em que o aparelho era montado, pensei que devia ser perfeitamente possível fazer esse trabalho, sem qualquer ajuda, e, perante a aflição do Fernando, que não acreditava, consegui provar que uma só pessoa, podia levantar um lado do aparelho e com um pé, fazer escorregar para baixo dum tubo robusto, que vai de lado a lado, uma pienha de suporte.

Depois no outro lado, podia fazer a mesma coisa e assim , o trem de aterragem ficaria todo no ar e se podia facilmente e sem qualquer esforço, retirar o ou os tubos tortos das pernas e substituí-los com toda a facilidade.

     O mecânico Rui, mostrando um dos lados do avião levantado e já com uma pienha colocada dum lado. Com um pé, ele está a mostrar que a roda desse lado, já está solta do solo, mas para que todo o trem de aterragem fique solto, ainda havia de colocar do outro lado, outra pienha. A partir desse altura, e como as pernas já não ficam a fazer força alguma, era muito fácil retirá-las.

O mais curioso, é que durante os 5 anos anteriores da Escola, nem os fabricantes se tinham lembrado desta simples solução. Assim, desde 1990 para cá, nunca mais houve qualquer problema na substituição das “malvadas” pernas tortas destes aviões…

  Em 1991, entra para a AEROLAZER, o piloto-instrutor Miguel Serro, que vem reforçar a equipa de instrutores da Escola e também José Lino que podemos conhecer pela foto seguinte. Se bem que estas fotos são recentes, eles ainda se mantêm muito parecidos.

  Como eu estava mais ou menos, sempre por ali, fizemo-nos grande amigos e tive o prazer de voar com eles e aprender muitas mais coisas sobre o voo, em especial em situações um tanto mais difíceis, com o José Lino.

Aqui há uns anos, o Lino convidou-me para ir voar com ele num QuickSilver, agora indo ele  como passageiro…, mas às tantas ele me diz : -o avião é meu e obviamente larguei os comandos.

Ele faz uma “rapada” (voar muito perto do solo) à pista, com o motor “nos copos” (máxima potência), com o vento de cauda e ao chegar ao seu fim, mete o manche à barriga e deixou o aparelho subir velozmente, até que, devido ao enorme ângulo de ataque e à perda de velocidade inerente e propositada, o avião para no ar e entra em perda a uns 100 metros de altura e vai de meter o nariz em baixo. Nesse preciso instante, ele me grita: o avião é teu e vai de pousá-lo…

Eu estava sem comandos e ainda por cima, com o avião ao contrário da direcção de aterragem, mas pensando que, para ele me exigir aquela complexa manobra, era porque poderia ser feita e de imediato, meti motor, manche à frente e pé esquerdo, voltando rapidamente a ter o avião de frente à pista, pelo que já com ele direitinho e a boa velocidade, consigo fazer a aterragem perfeita !

- Olha que isso não é fácil, e os meus parabéns por o teres conseguido, acrescentou-me ele.

Obviamente, eu havia sentido o prazer de o ter conseguido, até porque há muitos meses não pilotava e isso vinha-me provar a confiança que ele em mim depositava.

Uns anos antes, aí por volta de 2000, quando chego ao Campo de Voo, o Fernando tinha acabado de aterrar um avião acabado de construir e que estava em “rodagem”.  Mal me viu, disse-me logo: pega no avião e vai fazer uma meia hora de voo com ele, indo para onde te apetecer.

Verdade seja dita que eu sempre fui um desorientado em voo, sempre preocupado em perder o rumo e a pista, pelo que os meus voos eram sempre feitos com a pista à vista…

Aquilo era o mais moderno dos QuickSilvers, já com motor sobre a asa, mas eu nunca o tinha pilotado sozinho. Aí perguntei-lhe se não seria arriscado e até perigoso para mim e para o aparelho, agarrá-lo e, sem mais aquelas, por-me a voar nele, mas ele logo me informou de que era um avião igual aos outros, embora com mais potência de motor.

Assim, um tanto contrafeito, até porque já tinha 73 anos…lá peguei nele e vai de voar uma meia hora, tempo que para meu gosto, e já era até demais… Eu já estava mesmo farto de voar….

Na verdade, eu gosto mais das mecânicas, do que voar. Assim, 10 ou 15 minutos de voo, já me chegam…

Aquilo era uma máquina e pêras, pois sendo eu muito leve, com 60 Kg. ela reagia prontamente a todas as manobras e até ganhava velocidade a que não estava ainda habituado,  mas lá o aterrei, depois daqueles enormes 30 minutos… e reportei como o voo tinha ocorrido.

- Eu sabia que ias gostar, reportou o Fernando todo amável e sorridente.

 

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Saturday, November 4, 2006

Manuel dos Santos Almeirão por João Vitalino Martinho

  Editor

  Certas figuras genuinamente descritas por quem tem habilidade para tal, tomam um vulto extremamente curioso.

 Meu amigo João Vitalino Ribeiro Martinho, é um destes afortunados e dotados de uma habilidade imensa para escrever, desde os tempos da sua mocidade, quando andava por Coimbra a estudar.

Na imagem que mostro a seguir, tinha ele 22 anos e estava em Coimbra a tirar o seu curso.

Acho que tem um certo interesse comparar esta foto com a que já foi publicada, até porque ainda mantém bem os seus traços da juventude folgazã.

                                                                                                 O Editor

      Meu amigo Vitalino em mais um dos seus saborosos escritos sobre a sua vida no Ribatejo, de onde é natural e a sua forma peculiar de observar figuras genuinamente ribatejanas.

                               Manuel dos Santos  Almeirão

                                                         1917-2002

                                                                                 
João Vitalino Martinho


 

      Naquela espécie de código de identificação que vigorou no Espinheiro durante muitos anos, Pincelico era a  alcunha deste simpático e popular espinheirense.

 

     Aqui está um caso paradigmático dum epíteto que, pelo diminutivo, já indica um tratamento carinhoso. Haverá uma razão que está na génese desta alcunha, como de tantas outras, simplesmente, ao comum dos mortais, paira sempre uma dúvida face a qualquer raciocínio dedutivo na tentativa de decifrar estes pequenos enigmas. Seja como for, Pincelico, de corpo franzino, com poucas forças para aguentar a rudeza  da enxada, fez-se barbeiro.

 

    Como parece comum a quantos enveredam pela arte de Fígaro tão cantada na ópera de Rossini, Pincelico era homem de diálogo fácil, uma espécie de repositório dos acontecimentos mais marcantes que recolhia e difundia na clientela frequentadora do seu tugúrio situado no largo principal da aldeia. Muito correcto e  de trato afável adquiriu grande  popularidade tendo merecido a estima de toda a gente.

 

     Naquele tempo, durante a grande festividade do ano que era o Natal, vinham as bandas de música alegrar o coração  de jovens e  anciãos que se incorporavam atraídos por saxofones, tubas e trompetes.

 

     Muitos dos nossos conterrâneos, simulando a postura gestual do mestre, lá

seguiam nos desfiles pelas ruas atapetadas de mato, marcando o compasso com a mão, atitude que iria  merecer recriminação, quando, acabada a festa e iniciadas as podas das vinhas, interrompiam o trabalho para  imitarem o toque dos instrumentos e marcarem o ritmo com o serrote e a tesoura.

 

     Numa aldeia em que qualquer acontecimento musical era festejado, pela raridade, havia como que uma ansiedade colectiva pelo prazer auditivo pelo que, quase toda a gente decorava os estilos  que mais tarde serviam de modas  para os bailes que eram abrilhantados por acordeonistas  admirados e rodeados de todas as atenções. Entre eles tiveram grande projecção Eugénia Lima, o Luisico e o Guerra.

   

     Seduzido pelo dedilhar das teclas, pelos reflexos luminosos dos acordeões e pela notoriedade alcançada pelos seus executantes, Pincelico sentiu um grande desejo de ser tocador.

  Andou dias a simular o trabalho dos dedos  nos teclados e botões, experimentou posturas corporais, anteviu belas  perspectivas…..sonhou e…..decidiu.

 

     Foi a casa do capitão Louro, contou-lhe o seu projecto…que os cabelos e as barbas não davam para viver…que sempre arranjaria mais uns tostões..etc. etc.

     E….lá partiram para Lisboa donde trouxeram um avantajado instrumento de teclas..

      Durante meses os vizinhos do Pincelico estiveram sujeitos a uma espécie de tortura própria duma aprendizagem sem mestre….frim…frum..frum…frim

 

    ( Ti Pincelico )

 

    Verdade se diga que tal incómodo permitiu ao povo fazer uma espécie de avaliação dos progressos, até que um dia um grupo de rapazes o interpelou:

_ Ó Manel tu estás  capaz de fazer um  balho..!

   E lá ajustaram o preço e  a sala do Ti  Urbino para fazer o lançamento do novo acordeonista.

   Não se aventurou o Pincelico. Conscio das suas limitações tocou umas marchas e umas valsas, Corridinhos  ainda não….Mas como a rapaziada não era muito exigente e o que queria era ter pé para se agarrar às raparigas ( e  elas a eles ),descontadas as  fífias, foi o estreante aprovado com distinção neste test acordeónico.

 

    Mas eis que surgiu um concorrente. O Joaquim Brites mais conhecido pelo Jaquim Leitão comprou um acordeão de botões, sujeitou-se ao percurso da aprendizagem e começou a fazer bailes.

 

   (Joaquim Leitão)

     Dividiu-se o povo do Espinheiro. Criou-se um grupo de adeptos de teclas versus outro dos botões. Acirrou-se a divisão e o que estava em jogo já não eram os acordeões mas as músicas tocadas pelo Pincelico e pelo Leitão.

     Estes sempre amigos, divertiram-se durante décadas com as tropelias dos seus adeptos.

   Ainda hoje, nos tios e tias dessa época, continuam arreigadas as suas convicções:

                           -Eu gostava mais do Leitão…!

                           - POIS EU, ERA DO PINCELICO….!

                                                                                                                  Fim

 

 

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O HELICÓPTERO

                                    

       UM SONHO TOMANDO REALIDADE

                                                 —————————————-

Estava eu em 1951 e a apaixonar-me imenso pelos helicópteros, talvez porque não havia qualquer pista de aviões por perto, a não ser lá para os lados de Cascais, o que era demasiado longe para mim.

Por outro lado, aprender a voar, custava muito caro e o que eu ganhava como técnico de rádio, e acabado de me casar, não dava para por em prática aquele sonho.

Por outro lado, como gostava muito das mecânicas e já sabia manejar com certa destreza as máquinas de soldar a autogénio, electrogénio, tornos e berbequins, sentia que talvez fosse capaz de construir um pequeno helicóptero, pelo que fui a Lisboa e ali para a Rua do Ouro, encontrei numa biblioteca, uma minúsculo livro de bolso, dedicado à aviação vertical.

Nele, havia descrita toda a história rocambolesca de imensos entusiastas que se tinham resolvido, tal como eu desejava, a levar à prática as suas experiências e até se mostravam fotografias dos seus “loucos” intentos, mas sem qualquer descrição técnica.

Em todas as experiência descritas, eles haviam utilizado motores de automóvel, motores muito pesados naquela distante época, enquanto eu já havia tomado contacto com os motores VW que proliferavam  em todo o mundo e pensei que talvez pudesse também fazer alguma coisa, usando um destes motores, mas… não havia dinheiro para tal… Malvado dinheiro !!!

Como a nossa Televisão RTP, estava a dar os seus primeiros passos, resolvi escrever-lhes a pedir uma entrevista, o que eles aceitaram e lá vou eu, todo nervoso, para Lisboa, para esse efeito, no dia marcado.

                          (Na RTP em Maio de 1958)

Aquilo era uma “bagunça” dos diabos, gente a correr por todos os lados e lá me apresentaram um dos locutores entrevistadores, que me “empurrou” para uma espécie de café que lá havia, e num canto, já com a cara toda pintada, ele me perguntou se devia chamar-me de “inventor”… ao que respondi que, nem pensar, pois eu era simplesmente um entusiasta.

Enquanto ele tomava o seu café, foi-me preparando para as respostas às perguntas que iria fazer e, como graças a Deus, eu nunca havia tido “papas na língua”, estava preparado para abordar, em frente às câmaras e EM DIRECTO, os meus intentos e dificuldades.

Dali a minutos, já estávamos assentados em frente um ao outro, com a recomendação de não olhar as câmaras e num monitor ali perto, lá vejo aparecer a minha fronha…pelo que a adrenalina saltou-me ao coração, mas consegui aguentar.

Num quadro preto que havia indicado como necessário para poder desenhar rapidamente o “brinquedo” que estava a tentar por em prática, e mostrando um pequeno modelo que havia construído propositadamente para facilitar a minha explicação, em poucos minutos descrevi o aparelho e da dificuldade maior que seria a escolha do motor. Como eu já estava muito inclinado para o VW, aproveitei para me referir a ele e, de imediato aprecio um grande reboliço na sala, com pessoas a esbracejarem, uns muito indignados e outros a rir….

Eu devia ter “metido água”, e assim foi, por ter feito propaganda a uma marca, à borla !

Mal acabou a entrevista, vieram-me chamar porque alguém estava ao telefone, a querer-me falar, e vim a saber que era um director da VW que me desejava entrevistar de imediato. E assim aconteceu, enquanto recebo de oferta, um motor VW reparado e em muito bom estado, que deveria ir buscar a certo armazém.

Em poucos minutos, já lá estava eu e, todo entusiasmado, ali venho para Benavente, não só com um motor, mas também uma caixa de velocidades. O meu sonho estava a tomar forma !!!

Nessa época, de lembrar que estávamos em 1952, havia uma oficina térrea ali perto do rio Sorraia, à saída de Benavente e a caminho de Salvaterra de Magos, que se chamava Branco & Carvalho e onde eu já tinha realizado várias coisas, incluindo uma torre de 12 metros, em arame de aço, para elevar as minhas antenas.  Eles, pois, já me conheciam, e se dedicavam em especial, às alfaias agrícolas e dada a habilidade de as construir e rectificar para uso nos nossos terrenos, haviam granjeado um lugar cimeiro neste campo.

Mestres nos seus ofícios, eles levavam imenso tempo a experimentar e alterar o funcionamento das charruas, no campo, para ultrapassarem as que vinham do estrangeiro, pelo que as suas, estavam  a encontrar no campo, uma grande procura.

Como todos os três, se juntavam no campo a apreciar a par e passo, como as charruas estrangeiras funcionavam, logo ali mesmo discutiam as possibilidades de as melhorar, o que vinha a acontecer uns dias depois.

Embora as pessoas mais importantes daquela oficina, fossem realmente um Branco e um Carvalho, havia uma outra figura, muito simpática também, de alcunha Zé Gordo, (pai do admirável António José Coimeiro), por ter sido extremamente magro… e que, depois de saberem dos meus intentos, me deixaram ir começar o meu projecto, lá para os fundos das oficinas. 

Assim, e durante as minhas férias do emprego que entretanto eu havia conseguido na RARET, empresa americana fundada com o dinheiro de milhões de pessoas particulares e oriundas de imensos países, o meu “helicóptero” começou a tomar forma.

Para transportar o movimento do motor para a vertical, eu havia rodado a caixa de velocidades, 90º e além de ter bloqueado o diferencial, para só que um lado rodasse, havia retirado todos os carretos do seu interior, só lá mantendo os da primeira e segunda velocidade, para  poder escolher no final a mudança mais apropriada, e conseguir um peso o mais leve possível.

O motor teria de ser arrancado à manivela, pois eu não queria manter o pesado motor de arranque, até porque ele me iria exigir mais o peso duma grande bateria… Aquilo tinha de ser o mais leve possível !

Esta “caranguejola” foi montada em cima de delgados tubos de aço soldados a Tobim e, como os planos já estavam articulados desde meses anteriores, tudo ia sendo adicionado rapidamente, perante o olhar mais ou menos desconfiado e espantado, do mestre Branco, Carvalho e Zé Gordo …

O sistema mecânico que iria transportar a rotação do motor ao rotor (as pás) estava a dar muito trabalho, pois eu sabia que iria ter a minha vida pendurada por ali e havia que ter o máximo de cuidado…

    O sistema do rotor principal, que inclui o global e cíclico 

Para o sistema de anti-torque, aquilo também me estava a dar uma trabalhão, aproveitando sucatas daqui e dali, mas o projecto rocambolesco lá ia tomando forma, com o uso de rolamentos de esferas e carretos cónicos e alavancas para variação de passo do rotor de cauda .

Um banco duma velha motoreta foi agarrado em cima da caixa de velocidades, onde eu me iria escarranchar, a cavalo, e o movimento do hélice anti-torque, lá no fundo do aparelho, era feito por um delgado tubo de aço apoiado em várias chumaceiras de bronze que havia estado a tornear num pequeno torno que lá existia, parado a maioria do tempo, pois todos os trabalhos de torno da oficina, eram feitos em grandes tornos.

De uma grande “polie” enfiada no veio vertical, uma correia fazia rodar o hélice da cauda a cerca de 2000 RPM, e que me parecia ser o suficiente para obter o terrível anti-torque… Esse tambor, pode ver-se na foto principal, mesmo atrás dos rins do piloto.

Os rotores teriam de ser feitos em madeira e algumas ferramentas tiveram de ser engenhadas, para que os seus perfis fossem idênticos, tanto por cima como por baixo e a todo o seu comprimento. Depois foram polidos e envernizados, para ter o menor “drag” (dificuldade no avanço) possível.

Obviamente que teria de os ir construir numa carpintaria, e passados mais alguns dias, eles já estavam prontos a ser montados nos sistemas mecânicos do helicoptero.

Tenho pena de não me recordar do jovem carpinteiro que tanto me ajudou, mas não me lembro mesmo do seu nome…

Como eu já tinha alguns conhecimentos do Centro de Gravidade dos rotores, tive de adicionar alguns pesos nos bordos de ataque, para levar este CG para os 25% dos seus perfis.

Aquilo estava a tomar forma, e as férias de 21 dias, já estavam a terminar…

       O aparelho na sua fase final

Por intermédio dum guincho, já havia pendurado o aparelho no ar, comigo a bordo, para me certificar do seu Centro de Gravidade. 

Transportada aquele “geringonça” para um terreiro atrás de onde hoje é a fábrica do pão, e acompanhado de imensos curiosos que apareceram de todos os lados…, e depois de várias peripécies, porque o raio do motor, que sempre havia pegado facilmente, não havia forma de pegar…

Juntou-se àquela malta, o Fernando Côdea, filho do Domingos Maria, e que era um expert em motores, e depois de várias tentativas, lá arrancou o malvado motor, mas meio destrambelhado, mostrando falta de compressão e falha de cilindros, pelo que houve de jorrar gasolina para dentro dos cilindros e tentar lavá-lo do pó que se havia infiltrado pelos escapes livres, tirar e meter velas, aproximar um carro para usar a sua bateria…enfim, os diabos, mas lá pegou e se foi “arredondando”.

Quando pareceu tudo estável, eu me escarranchei sobre a caixa de velocidade e dando a uma manivela para engatar a embraiagem, o grande rotor de 8 metros de diâmetro lá começou a rodar e a ganhar rotações. Aquilo até estava a ser giro de ver e empolgante, perante o tremendo ruído do escape livre do motor, e a gritaria de toda aquela gente curiosa que eu havia pedido para se afastar o máximo que pudesse, não fosse haver alguma surpresa desagradável e/ou, possivelmente fatal…

Eu estava imensamente interessado em saber se o motor teria ou não potência para aguentar o rotor nas 350 RPM, ao aumentar o passo global e vai de fazer subir o seu comando, que estava à minha mão esquerda. De imediato, começou a levantar-se uma poeirada dos diabos à volta do aparelho, o que obrigou todos os mais atrevidos, a dar uns passos atrás e as mulheres a agarrarem os seus lenços na cabeça e outras à procura dos seus, que já lhes tinham sido arrancados…

Como eu nunca havia estado ao pé dum helicóptero real, nem sabia dum facto da maior importância, e que se chama Precessão. Assim, quando tentei empurrar o manche em frente, o aparelho inclinou-se para um lado e todos os movimentos do chamado Prato Cíclico, estavam errados ! Que diabo estaria a acontecer ?

Uns anos mais tarde, vim a entender aquela questão da “precessão” e que é devida ao efeito de giroscópio, reflectindo-se os comandos num ângulo de 90º. Assim, teria de incluir essa precessão no prato cíclico do rotor, para que os comandos ficassem certos, o que iria demorar mais uns tempos. 

Eu estava positivamente exausto e as férias haviam acabado ! Assim, dei as experiências por terminadas e o aparelho foi arrumado, para “ambos” irmos descansar…

Cerca de um ano depois, em 1959, vieram trabalhar em Benavente, na pulverização aérea de sobreiros, com lagartas, uns curiosos helicópteros franceses, de nome Djinn, modelo SO 1221, os primeiros que não tinham problema do torque, porque a sua turbina comprimia ar que era empurrado por dentro das duas pás e saindo, à laia de foguetes, pelos extremos do rotor. Aquilo era espantoso e funcionava maravilhosamente, pelo que foram muito fabricados.

              Um Djinn em voo

A valente turbina de 300 HP, era posta em rotação por uma grande manivela lateral, onde duas pessoas podiam agarrar e embalar as turbinas até se dar a sua ignição. Para lhes dar uma ajuda, eu me havia agarrado àquela manivela várias vezes… 

No entanto por qualquer motivo estranho aos meus conhecimentos, eles não ganharam futuro e nunca mais se ouviu falar deles.

Mas dada a sua presença em Benavente, fui logo conhecer o pessoal técnico que os acompanhou e meter conversa com o piloto, a quem convidei para ir ver o “meu helicóptero”. Assim aconteceu, mas logo notei que ele, agarrando o manche e olhando para os movimentos do cabeçote de comando, global e cíclico, só me dizia que “não está bem…”, mas não foi capaz de me dizer o porquê, aquilo por que estava eu tão interessado, a tal precessão.

Uns dias depois, ele me convidou para ir voar no Djiin, o que, obviamente, muito me encantou, até porque era o meu primeiro voo em helicóptero ! 

Só uma data de anos mais tarde, já em 1980, e perante um modelo teleguiado de helicoptero modelo JetRanger,  que um amigo vindo de África, de nome António Martins, me ofereceu, mas bastante incompleto, vim a entender aquele malvado problema da precessão do comando do rotor, que uma data de anos antes, tanto me havia feito confusão.

   Arrancando o helicoptero JetRanger tele-guiado

Este modelo ainda voo várias vezes, mas ao tentar pousá-lo em terrenos cheios de ervas…acabou sempre por se destruir, por se sentir agarrado pelas ervas, embora uns dias depois, já estivesse pronto para outra…depois de imensas reparações e rotores novos. 

 E assim acabou a odisseia dos helicópteros, ficando-me a imensa saudade da juventude onde tantos disparates e engenhocas fui fazendo…  Estava mesmo ENGENHOCANDO…

 

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Friday, November 3, 2006

O REINO Por A . Águedo Gomes

   Mais um escrito do amigo Águedo Gomes


 Um conto das 2002 noites… de espertina O reino encantado  

Nota de abridura: Este conto de embalar, passado de geração em geração, chegou até nós, contado de viva voz pelas avós, nas horas de fazer oós.

 

Era uma vez um Reino Encantado que ficava lá p’rás bandas do rabo deste velho mundo, à borda d’água prantado, e tão no extremo que atrás dele só havia o sol posto.

 

Era um pachola e recatado Reino que vivia a santa paz do Criador.

 

No princípio foi verbo virulento anticéptico!

 

Virulento porque era rápido a virar com violência, os modos de pensar, de agir e até as jalecas; anticéptico porque impelia a acreditar que tinha que ser-se anti qualquer coisa e era-se anti tudo e anti todos.

 

E naquele tão anti…go e bonançoso Reino Encantado havia desde os anti faz-se isto, passando pelos anti faz-se aquilo e a metro, até aos anti faz-se seja o que for e nada se fazia no Reino em que toda a gente reinava.

 

Neste Reino muito virado ao progresso, progredia-se e trabalhava-se hoje menos que ontem mas mais que amanhã para que crescesse o PIE – Produto Interno Estúpido.

 

Era um Reino mais que banal!

 

Era um Reino bananal de que dizia-se ser o Reinadio Reino dos Bananas.

 

De burocracia reduzida, já só tinha a funcionar menos de metade dos locais de atendimento, o despachar papeis nos locais públicos era a tiro.

 

Tirava-se carta e bilhete, aquela para conduzir, este para se saber quem se é, e com tiros mais certeiros tirava-se certidões desde a da parição até à do passamento, mas esta nunca era para quem a tirava.

 

Nas hortas do Reino, muito viradas para as verduras, eram uma beleza de hortaliça as alfaces pequenas e os grandes nabos, a que se dedicavam quase em exclusivo e, como não estavam viradas para as “encarnaduras”, os tomates eram muito mirrados e escassos e, quando apareciam, eram em seguida esmagados para fazer gaspacho.

 

Era, por excelência, um excelso Reino ecológico, não só pelo muito que ecoava, mas também por ter aeroplanos de pedais e machimbombos de vela.

 

Velava-se tempos infinitos à espera que aparecesse um e com lugares vagos e havia que pedalar muito para se conseguir ir pelos ares do meridião para o setentrião.

 

No Reino Encantado não havia falanges!

 

Os entronizáveis eram societários das associações recreativas, difusas por todo o Reino, as quais instituíam recreios de proposição reitoral para a entronização em causa.

 

Nos reitorais recreios para inculcar o reitor do Reino ou os reitores subalternos, os circunstantes recreavam-se com “reitóricas” tão brilhantes que até faiscavam e chamuscavam.

 

Gozava o Reino de uma sólida economia!

 

Tinha montes de bancos e caixas!

 

Os primeiros para os reformados tomarem sol, uma coisa rica que podiam tomar à vontade, as segundas para os associados das recreativas encaixarem valiosas funções.

 

Por ser um bom investimento toda a gente investia no tesouro do Reino, e às vezes era cada investida que fazia pensar na falta de uma IVA – Informação do Valor Alcançado.

 

A real indústria produzia e consumia, acima de tudo, subsídios de consideráveis qualidade e variedade e que eram grandemente apreciados e difundidos.

 

Os mais procurados eram os que metiam água, porque cobriam os danos causados pelas secas nas subsidiadas semeações que não tinham sido feitas por causa das cheias.

 

Também tinham enorme aceitação os que eram aplicados na subsistência das associações recreativas, tanto de bombordo como de estibordo, pois o Reino tinha fortes tradições marítimas e não queria borrascas nos recreios.

 

A nobreza do Reino era muito modesta!

 

Os mais insignes e iluminados varões não passavam de barões, mas havia muitos!

 

Havia-os de tudo e para tudo. Desde os barões dos bares até aos barões das águas, nítidas e turvas, passando pelos barões da luz e da sombra, todos tinham Dom e a mesma divisa no brasão: - “Andar na Brasa Para Reinar”.

 

Foi o Dom dos barões da saúde que erradicou totalmente todas as doenças no Reino, quando descobriu que o melhor remédio para os doentes era não lhes dar remédios.

 

E a saúde do Reino era excelente o que dá um final feliz ao conto.

 

Se alguém adormeceu antes de acabar, é que o conto é mesmo de embalar.

 

Nota de fechadura: Atente o utente deste conto de embalar que se achar que se dá ares a algum outro de despertar é pura imaginação do lente.

   Prosador do Soltavento

 

Posted by Engenhocando at 18:39:26 | Permalink | No Comments »