Wednesday, November 22, 2006

Meu amigo Murilo Lopes

      Meu Amigo Murilo Marques Lopes

Se há coisas interessantes na minha vida actual, é recordar aqueles amigos com que alguma vez “tropecei” na vida e me vêm à memória, com histórias muitas vezes rocambolescas.

Eu tinha 24 anos, quando entrei para o serviço da Rádio Europa Livre, e o vim encontrar na RARET em Benavente, como técnico de electrónica.

É daquelas pessoas que nasceu para a rádio, e sendo um pouco mais novo do que eu, tudo fazia para estudar profundamente, tudo o que ia aparecendo de novo naquela época.

Nascido perto de Leiria, em Arrabalde da Ponte, veio para Lisboa, onde o seu pai tinha uma fábrica de tecelagem, mas que ele abominava ! Assim, e já muito apaixonado pela electrónica, encontrou uma casa em Lisboa, onde viria a fazer furor com a sua rapidez de raciocínio e reparação de tudo quando fosse electrónica, em poucos minutos.

Em 1951, respondeu a um anúncio de jornal, duma empresa ( a RARET) que necessitava de técnicos de electrónica, qualificados, e respondendo a ele, foi de imediato admitido.

Ele logo se apercebeu de que não era o sítio ideal para trabalhar, porque só havia montagem de equipamentos e a sua manutenção esporádica. Não havia lugar para criação…   

A certa altura, Setembro de 1957, entusiasmou-se em emigrar para os EUA, onde durante alguns meses, se ocupou da reparação ao domicílio de receptores de TV e depois para a RCA, onde trabalhou nos cálculos de lóbulos de antenas de broadcasting, e não só, durante 24 anos e depois para a Marconi no Canadá, e por lá ficou até hoje.

Nota do Editor

  

Murilo era dotado duma memória que nunca mais acabava, tão grande quanto a sua enorme testa e aventurava-se em tudo quanto pudesse sentir gozo.

Em 1951, ainda não havia ponte sobre o Tejo, em Vila Franca de Xira, e a travessia era feita de barco.

Um dia, ele comprou um velho Fiat-500, e mesmo antes de ter carta de condução, já andava em Benavente, por todos os lados, mas certo dia, desejando ir a Lisboa, pediu a um condutor da Empresa, de nome Frazão, já falecido, que estava de folga, se o acompanhava, não fosse ser agarrado pela polícia, sem carta, e lá fomos nós, mas na volta, apanhámos o último barco de Vila Franca e mal pusemos os pés em terra, deste lado de Benavente, vemos um polícia de trânsito mandar parar. -Será que já estamos lixados ? perguntei eu ao Murilo…  Mas não, o polícia queria uma boleia para Samora Correia, porque não via mais carro algum. Mas como diabo ele se conseguiria meter dentro do minúsculo Fiat-500 onde eu já estava todo amarrotado há uma data de tempo, com o pescoço torcido ?….

                               

 Mesmo depois do Murilo lhe fazer ver que era impossível ele lá caber também, o homem, que ainda por cima, não era nada pequeno, e não tendo mais nenhuma hipótese de chegar a casa, lá se foi infiltrando e encolhendo, tendo o Murilo e o Frazão chegado o mais possível os bancos para a frente, ficando com as caras espalmadas de encontro ao vidro…enquanto eu e o polícia, tínhamos ficado com as caras espalmadas um de encontro ao outro… Aquilo estava mesmo cómico !!!

 Mas seria possível que aquele micro-carro, conseguisse aguentar tamanho peso ? Mas lá arrancou e depois daqueles 7 Km da recta do Cabo, lá ajudámos o agradecido polícia a ser “desencaixotado” de dentro do carro e seguimos viagem.

-Naquele tempo, todos os anos, havia cheias tremendas no Ribatejo e, por norma, a recta do cabo ficava cortada mesmo do lado do Porto Alto. Era sempre uma tremenda chatice !

Nesta altura, o meu amigo Murilo já se tinha enjoado do Fiat-500 e vai de comprar um velho Porsche, o qual era as suas delícias, e aproveitava todas as oportunidades para lhe fazer imensas judiarias…sem ofensa para os judeus….claro está, mas ele era positivamente muito hábil na condução e até exagerava nas suas possibilidades.

 Um dia, íamos de Jeep, para o trabalho mas, por falta de condutor, ele foi autorizado a nos transportar. Aquilo já não era a primeira vez, mas naqueles tempos, ter carta de condução…era coisa muito fina, mas o Murilo tinha-a.  Assim, e vai de andar na máxima velocidade que o Jeep dava, com todo os pessoal agarrado aos tubos metálicos dos assentos, e sem ver nada para fora, quando ele grita:- Agarrem-se que eu vou fazer a curva …

 Aquilo era uma curva em ângulo recto, e era totalmente impossivel, para qualquer carro, fazê-la sem dar uma data de cambalhotas… Assim, e perante a nossa grande aflição, perante o acidente gravíssimo que iria inevitavelmente acontecer, o “malvado” Murilo, que sabia bem calcular as possibilidades do carro, em vez de se fazer à curva, fez um breve zig-zag e continuou em frente…parando uns metros à frente, para fazer marcha-atrás e então meter pelo estreito caminho que nos levava ao Centro de Recepção.

 Devíamos estar todos brancos como a cal da parede, mas como estava escuro, lá passámos despercebidos … mas quando nos apeámos, até parecia que íamos todos embriagados, aos tombos…

 Por meu lado, e depois dum velho comilão de gasolina, um Ford V8, eu havia comprado muito barato, por ter volante à direita, um lindo Triunph Standard que fazia revirar os olhos a toda a gente…

              Ele era azul celeste e cheio de cromados !

 Não prestava para nada, mas ao menos era bonito que se fartava !!! Hoje seria um carro de museu, pela certa !

Certo dia, o Porsche do Murilo partiu a cambota em Vila Franca de Xira e vai de pedir-me socorro, para o rebocar até Benavente, mas a Recta do Cabo estava novamente cortada em mais de 2 Km !  Já era azar, até porque tanto o meu carro como o dele, eram muito baixos… mas se bem eu havia conseguido ir de cá para lá, enquanto se estudou a forma melhor para amarrar uma corda ao Porsche, quando chegámos ao meio de recta do Cabo, já estava um fila enorme de carros parada mas, um condutor de camião “astreveu-se” a passar e pensando eu que, enquanto o camião estivesse no meio da estrada, que não se via… e se eu me mantivesse muito perto dele, também o conseguiria. Aquilo era tenebroso, dada a escuridão total à nossa volta, onde ainda se podia ver água a perder de vista !

…Mas lá íamos andando, até que começo a ouvir um apito tocar freneticamente e pensei com os meus botões:- mas quem diabo me deseja ultrapassar sem ver estrada alguma, mas qual não foi o meu espanto, quando vejo o Porsche do Murilo a meu lado, literalmente a boiar e a ver-se a afundar !

-Oh diabo, pensei eu, e agora o que é que eu posso fazer ?   A água esguichava para dentro do meu carro pelas frinchas das portas, com toda a força e ainda havia mais umas centenas de metros à minha frente, até atingirmos Porto Alto.

Mas como nada podia fazer e muito contristado por ver o Porsche cada vez mais afundado , lá continuámos, até que perante um grande estrondo no meu carro, que todo estremeceu, senti que o Porsche já estava a querer meter o nariz da estrada e pedindo a Deus que o meu para-choques aguentasse, vai de continuar, sempre com o carro em 1ª. velocidade e, felizmente, lá chegámos ao outro lado, onde abertas as portas, vimos jorrar água por todos os lados !!! O carro do Murilo esteve mesmo às portas de fazer de submarino…aquilo era só água…que lhe tinha chegado quase ao queixo !

Tinha sido o bom e o bonito se o meu Triunph parasse no meio daquela cheia !!!! Todos encharcados até aos ossos, lá chegámos a Benavente, sãos e salvos.

«Noutra altura, e estámos no inicio da TV em Portugal, e o Murilo pensou que havia de conseguir receber a TV americana, nem que fosse por uns segundos, pois a firma Nordemend lhe ofereceria um televisor, se ele o conseguisse provar.

O Murilo já tinha feito uma data de prospecções à propagação, num receptor Hammarlund SP600, lá para os lados dos 60 MHz e tinha ouvido o “gemido” característico do vídeo, mas por mais que sintonizasse o televisor, só havia imagens com muito lixo, mas elas estavam lá !  Havia que conseguir uma melhor antena.

   Aqui a montagem pronta para receber as imagens dos EUA, fotografar o televisor e gravar em audio o que fosse possível, e foi !.

Como não era pessoa para se atrapalhar, vai de calcular uma rômbica para aquela faixa, mas necessitava de 4 postes altos, nem que fossem eucaliptos, mas só os conseguíamos arranjar, lá para os lados de Samora Correia.

Nessa altura, o Murilo tinha um Peugeot, com porta-bagagens amplo, mas os postes eram muito maiores do que o carro inteiro, talvez umas três vezes… !

Assim, amarrámos os 4 eucaliptos fortemente uns aos outros, com os lados mais pesados dentro do porta-bagagens, e o resto veio a rojo pela estrada… enquanto eu, todo encolhido dentro do porta-bagagens, com a tampa aberta, segurava fortemente os pesadíssimos eucaliptos, com toda a minha força !

Hoje, passados estes mais de 54 anos, isso seria totalmente impossível, mas naquela época, não havia trânsito quase nenhum entre Samora Correia e Benavente nem muito menos polícia. Foi a nossa sorte !

Depois foi por os eucaliptos na vertical, o que deu uma trabalheira terrível e com a ajuda das escadas dos bombeiros, lá fomos acima amarrar a rombica.

Estávamos completamente estafados, mas o Murilo não desistia. Assim, agarrou um circuito electrónico, por ele desenhado e construído, cá fora do TV e ligado ao seu AVC e, no caso de haver um aumento de sinal, ele tocaria um valente alarme para o acordar. Em frente ao televisor, já ele tinha sobre um tripé, uma máquina fotográfica apontada e só havia que esperar, até que em certa noite, aquilo começou a berrar e o Murilo enroscado no seu pijama de flanela, correu para a sala onde realmente se estava a ver relativamente bem um tipo a tocar viola, que foi logo fotografado.

Aquilo foi um sucesso para a Nordmende, que, conforme havia prometido, lhe ofereceu um televisor e ele até foi entrevistado para os jornais, junto da sua “trapizonga” toda montada, depois da firma se ter inteirado da verdade do programa captado àquela hora !

« Aí por volta de 1952, tinha eu construido um barco plano e todo forrado de chapa de aluninio, que levava um motor Mercury de 10HP, emprestado, a empurrar, mas o raio do motor deu-lhe para falhar um dos dois cilindros, e aquilo só andava muito lentamente. Enquanto o Murilo estava à frente, a conduzí-lo, eu lá atrás, trocava velas, abria e fechava gasolina…mas o malvado dali não saía.  Como tanto eu como ele, eramos uns nabos em natação, tivemos o cuidado de colocar bem à mão, uma câmara de ar, para o que desse e viesse…

  Nesta altura ainda não tinha o motor Mercury 

Aquilo era um dia de excursão pela Vala Nova abaixo, até ao Rio Tejo, e numa fragata, lá ia imensa gente passar o dia.

Só que, eles lá se foram afastando e eu ao tentar passar para a frente, o raio do barco mete a proa dentro de água e em menos de 2 segundos, desapareceu, ficando nós os dois à tona de água, agarrados à mesma câmara de ar…

-Agora é que arranjámos uma boa, oh Murilo, digo eu, só pensando no motor emprestado e que teria de devolver…

Ai da minha vida !!! mas embora com a água muito verde e escura, senti que mesmo ali ao pé de mim, estava qualquer coisa a boiar e qual não foi a minha alegria, quando verifico que era o depósito do motor, que logo agarrei e assim de dois ocupantes da boia, ficámos três…

Felizmente que passados poucos minutos, vemos aparecer muito lentamente, uma fragata que logo nos acudiu e tendo-nos atirado uma corda, lá fomos para bordo, mas levando pendurado o barco com o motor.

E assim fomos até à foz da Vala Nova, onde toda a gente nos esperava com bastante inquietação mas agora toda risonha, lá iam apanhando os seus banhos de Sol e comendo os farneis que haviam levado.

Mas eu é que não largava o motor e tanta volta lhe dei, que acabei por o por a funcionar, mas agora com os dois cilindros, mostrando a sua pujança ! Como eu havia levado uma prancha, pedi ao Murilo que ma puxasse e lá vou eu deitado em cima dela, com a ideia de que, mal ela ganhasse velocidade, eu me poderia por em pé, mas….opsss, num repente, ela deu meia volta e eu fiquei por baixo dela e a sentir-me ir para o fundo, até que senti as costas arrojar no leito do rio e quando já pensava em marinhar pela corda acima, até porque sabia que no seu fim, estava o barco, acabo por verificar que felizmente, eu até podia por os pés no fundo e ficar com a cabeça de fora… Que alívio !!!

« Histórias com este Murilo, nunca mais acabam !!!

-Um certo dia, ele resolveu dar boleia a uma data de malta, 6 pessoas, onde se incluia uma garota por quem ele andava apaixonado e que ficou assentada do lado de tras dele. Como o carro ia completamente cheio e já era bem noite, eu que ia no lado do pendura encostado à porta, levei o meu braço esquerdo e a mão sobre as costas do banco, a qual ficou mesmo ao lado da cabeça do Murilo.  Às tantas, talvez lhe tivesse tocado no seu cabelo, mas o que é certo é que ele se convenceu de que seria a sua querida garota e vai de fazer-me festas carinhosas na mão…

Eu ainda aguentei um pouco, para ver no que aquilo dava, mas como as suas “carícias” estavam cada vez mais fortes, acabei por dizer-lhe: -Oh pá quando é que me deixas de apalpar a mão ?  Aquilo é que foi uma risota de toda a gente…. 

            Murilo hoje, a gozar a sua bela reforma no Canadá, em 2006.

 Aqui, como Marconi Field Engineer, em 1990. 

   Mas o seu gosto pela náutica, continuou mesmo no Canadá !

 

Posted by Engenhocando at 15:32:09
Comments

3 Responses to “Meu amigo Murilo Lopes”

  1. Sílvio Leiria says:

    Palavra que dei aqui umas grandes gargalhadas por causa destas histórias com o Murilo!!! HA HA HA
    Bem haja por mais esta e vai daqui um abraço do
    Sílvio

  2. Aguedo Gomes says:

    Ora viva!

    Antes de mais um sonoro BOM DIA!

    Sem desfazer no penteado dos calafates de Alvor e muito menos na compostura dos polícias de giro, o engenhoso blog “engenhocando” está insuperável!

    Atesta, sem contestação, que a juventude não se esvai com os anos, antes enriquece-se com a experiência adquirida ao longo do tempo e a recordação das irreverências e engenhoquices de um grupo no dia a dia na sua idade de ouro, que o meu jovem AMIGO do alto dos seus imponentes dezasseis lustros tão engenhosamente relata com a pujança e o vigor de quem não sente o desânimo, e o alento de quem não teme o passado vivido e o futuro viver.

    Meras felicitações estão aquém do merecimento de tanta generosidade distribuída e tão deliciosamente narrada.

    Faltam-me as palavras para exprimir a minha sincera admiração pelo que acabo de ler e orgulho-me de poder contar com a mercê que me dispensa ao considerar-me no rol dos seus amigos.

    Um muito reconhecido OBRIGADO

    Águedo

  3. Joaquim Afonso Machado says:

    Meu Caro Colega Radioamador CT1DT,

    Já tinha ouvido falar de si, já li muito do que escreve na QSP, já o escutei na rádio, mas nada me tocou tão profundamenta como o artigo “ficheiro RNH nº. 38″.

    Eu, sou dos que escutou a Rádio Europa Livre e é para mim uma honra saber que o Colega lá trabalhou.

    BEM HAJA POR TUDO QUE FEZ… BEM HAJA POR TUDO QUE ME ENSINA

    73
    CTIDCV
    966510613

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