Monday, November 13, 2006

MANUEL FÉLIX …… Por João Martinho

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João Martinho, é um narrador nato de histórias, amigo de há mais de 50 anos. Ele é daquelas pessoas com quem uma pessoa se sente feliz por ter tropeçado na vida. São dele as histórias aqui já publicadas Albertino Manelico, José Rosa e Manuel dos Santos Almeirão. A sua história de hoje, intitulada MANUEL FÉLIX, é mais uma bela prova do seu engenho e arte em descrever pessoas. Tenho o prazer de informar o leitor, que estas memórias irão ser publicados numa obra intitulada “TIOS E TIAS DO ESPINHEIRO” .              O Editor

 


                        MANUEL   FÉLIX

                          1936-198?

                                                              Por
João Martinho
 

   Não há epíteto que melhor defina o estado anímico vivido por este  espinheirense,  na sua breve passagem pelo espaço terreno, do que  a alcunha   “O  Risota” .

    Nasceu na  Etiópia , um agregado de casas com paredes de taipa implantado na orla do pinhal que, do Forno Telheiro, se estendia na direcção  de sudoeste.

    Risota viveu a alegria e a felicidade plena numa espécie de dádiva divina que faria inveja a tantos que, nadando em dinheiro, não encontram, neste mundo, a paz de espírito  almejada.

    Teve uma vida emoldurada pelo optimismo,  encarando as agruras com descontracção e as dificuldades como meros acidentes de percurso, coisas insignificantes, incapazes de bulir com a firmeza do seu intelecto.

      Merecia este conterrâneo que a ele  fosse atribuído o titulo de decano da risoterapia, pois  militou no campo oposto ao masoquismo, aliviando dores alheias, vergando até males físicos e sofrimentos onde a medicina tradicional não entrava.

      Sendo filho do Ti Félix e da Ti Gaiata , um casal parco de bens materiais para quem um pedaço de pão duro servia, quanto bastasse,   na partilha pela prole e era ponto de partida para o exercício do poder paternal com a correspondente formação baseada no respeito, Risota riu de tudo.

          Riu da fome e do frio, da dor e do suor que lhe empapava o rosto na época das cavas e das debulhas. Riu das bicas, na colheita da resina, e riu de toda a gente arrancando gargalhadas por onde passava.

                                                                         

    Em criança transpôs para a escola os bons hábitos adquiridos em casa  não criando qualquer problema de ordem disciplinar, mostrando  docilidade, obediência e receptividade, bendizendo a professora a pureza dos projectos educativos  familiares das gentes das aldeias.

    De olhos bem abertos, talvez surpreendido com a  experiência de socialização a que ia ser sujeito e porque tinha ouvido dizer  “muito riso pouco siso” reprimiu quanto  lhe foi possível a tendência natural que o caracterizava. .

      É  claro que a empatia,  gerada pelo bom relacionamento,  com a professora  acabou por  permitir o afloramento completo da sua personalidade. Integrou-se nas matérias do currículo escolar e, rapidamente aprendeu a ler .

      Um dia, durante  uma aula de língua materna pediu-lhe a professora que lesse um texto do livro único adoptado nessa época e que tinha por título  “A gatinha e a Boneca “

       O Félix atacou com grande volume de voz que ia  morrendo no decurso da leitura até emudecer. Estranhou a professora e invectivou-o:

       -Anda rapaz..! Continua…!

Contrapunha o aluno:

         Não quero….tenho vergonha…..!   E.. ria….ria  ..em gargalhadas que mais pareciam protestos e lamentos…

          Notou a professora que a frase que  o Félix evitava era a seguinte:

         -  Gosto  mais da boneca mas não diga nada à bichana .

        Indagou e veio a saber que , no Espinheiro , o termo bichana tinha uma conotação sexual e era dado como obsceno.

        Risota, desempenhando as funções de  coveiro, morreu com  quarenta e poucos anos deixando o Espinheiro atónito e consternado.            Foi  conduzido em ombros à sua última morada onde ficou a perpetuar a máxima de Cícero  “mors omnium rerum extremum est” (a morte é o fim de tudo) . Partiu com a espera a que cada um tem direito no chamado transe final.

                                     Rapazes quando eu morrer

                                     Levai-me devagarinho….

                                     À porta do meu amor

                                     Descansai um bocadinho…..……  

 

                                                                                                         Fim

 

Posted by Engenhocando at 09:08:12
Comments

One Response to “MANUEL FÉLIX …… Por João Martinho”

  1. Maria Leonor Ferraz Leça Faria Pereira de Brito says:

    Então meu irmão…já tenho uma caixa de correio para mandares mensagens. Para ti mando-te um beijo…para mim parabens…uma recem-nascida internauta.

    ml

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