Saturday, November 11, 2006

UM LINDO PASSEIO DE CARRO DE BOIS

 

                                  « UM PASSEIO DE CARRO DE BOIS  »

Nos dias de hoje, ninguém pensaria em ir fazer um passeio em carro de bois que se desloca a uma velocidade de dois ou três quilómetros por hora, mas durante imensos anos, era, embora muitíssimo lento, o veículo mais potente para arcar com pesadíssimas cargas ou vencer terrenos e estradas muito inclinadas.

Mas, naquela Primavera de 1937, meu pai nos surpreendeu com a hipótese de irmos todos dar um passeio de carro de bois, à lagoa das SETE CIDADES. Aquilo nos surpreendeu um tanto, porque ele já estava muito doente e até viria a falecer dois anos depois, com somente 45 anos !

    Na ponta esquerda do mapa, na seta amarela, fica a freguesia de GINETES onde nos encontrávamos. VARZEA que fica a uns 3 Km de distância, era a terra para onde nos tínhamos de deslocar, antes de ser iniciada a enorme subida da montanha, a cumieira. No mapa, aquela mancha azul, é a lagoa das SETE CIDADES.

Tudo foi preparado nos dias anteriores, até porque o passeio iria demorar o dia inteiro e havia que preparar comida para uma data de gente grande e miúda.

Com os meus 10 anos, meu irmão Carlos Mar com 13 anos, minha irmã Manuela com 11, a Leonor com 9 e a Gabriela com 7 ou 8, todos adorando aventuras pelo campo, aquilo estava a prometer !!!

No dia marcado, fomos todos levantados à força, até porque ainda era quase noite, toca a vestir as roupas de passeio e a tomar o pequeno almoço.

Ainda mal se via, mas vimos chegar o carro de bois que nos iria transportar até à lagoa das SETE CIDADES e vai de ajudar a para lá transportar toda aquela tralha, de cestos e mais cestos, sacos e mais sacos, garrafas de água …que o agricultor/condutor, em cima do carro, ia arrumando convenientemente, lá na frente.

Dado que nessa época, nem havia água canalizada, o Sr. Manuel, empregado da casa, todos os dias tinha de empurrar uma carrocinha com dois barris de água, com mais de 80 litros cada um, que ia encher numa fonte, ali a uns 200 metros de distância e de volta, tinha de “alombar” com eles e despejá-los num grande depósito de barro que tinha uma torneira em baixo, ou então transportá-los até ao lavadouro da roupa.

Ele também se ocupava de ir buscar a lenha necessária para o grande e negro fogão de ferro da cozinha e até de manter o automóvel Austin-7, adquirido há poucos meses, sempre brilhante.

Assim, não se podia tomar banho geral todos os dias e aquilo era tudo muito economizado…

 -O carro de bois trazia duas parelhas de 4 enormes bois que pacientemente, ali estavam à esperar da ordem de marcha, o que veio a acontecer poucos minutos depois, com toda a malta “arrumada” de pé, encostada a uma espécie de cesto de vimes, que só deixava a traseira aberta, onde se assentaram meu pai e minha mãe, com as pernas penduradas do lado de fora do carro. Com aquele cesto dum metro de altura, todos ficávamos só com a cabeça de fora e não havia qualquer possibilidade de lá cairmos para a rua.

Assim, mais parecíamos cachos de uvas num carro de bois nas vindimas do Norte de Portugal…chiando por entre os vales do Douro, carregados de toneladas de uvas…

     « Ermida Senhora de Fátima, entre GINETES e VARZEA»

Mas ao fim de um quilómetro, já estávamos todos fartos de lá estarmos “encestados”…e vai de saltar tudo para a rua e correr para todos os lados…

Ainda o Sol não tinha nascido, já estávamos a passar ao lado da linda ermida Nossa Senhora de Fátima, e com todo o Oceano Atlântico à nossa esquerda, a perder de vista !

 Mais uns 3 quilómetros à frente, chegámos à VARZEA, de onde se iria começar a enorme subida, encosta acima da cumieira, até ao topo e já com a lagoa à vista, lá a uns 300 metros abaixo, iríamos começar a descida. Quanto mais subíamos, mais a nossa vista abrangia… e os fortes bois, lá iam conseguindo puxar aquele pesado carro por ali acima. Durante as nossas explorações de terreno, lá fomos encontrando nascentes de água muito fresca e pura, que pondo as mãos em concha, íamos bebendo sofregamente.

Com pena do esforço que os animais estavam a fazer, até os meus pais se apearam do carro, que seguia agora e só, com os mantimentos, enquando iam subindo os dois, a pé,  sorrindo e conversando, de mãos dadas, talvez comentando as nossas brincalhotices.

Para todos nós, aquilo era uma aventura imensa, porque era a primeira vez que iríamos apreciar a beleza daquela tão falada lagoa, onde tantas vezes meu avô tinha de ir visitar os seus doentes, mas a cavalo, pois o carrinho tinha de ser poupado !

     « À vista de tão grande beleza, quase chorámos de alegria »

 (Aquilo que estávamos a ver, era um pouco diferente desta imagem, porque estávamos num outro lado, mas desse lado, não tenho fotografia.)

Devido aos arbustos que circundam a enorme cratera, formam-se duas lagoas, em que uma é nitidamente verde e a outra azul. Elas são unidas por um estreito corredor, ficando do lado de lá…o “curral das freiras”…não sei por que diabo era esse nome…

Como o dia estava lindo, coisa um tanto rara nas ilhas, porque tão depressa faz Sol como chove a cântaros…lá fomos passando o tempo correndo e brincando uns com os outros, na melhor galhofada possível ! Na realidade, raramente entrávamos em brigas e nada de queixinhas, porque ainda levávamos algum puxão de orelhas…

Agora, havia que meter a toda a força os travões de sapata àquelas rodas de madeira, chiando que se fartavam ! Por todos os lados havia amoras lindas e muito negras, molhadas pela humidade da noite, e tudo nos servia para as apanhar, comer e guardar. Foi cá uma barrigada das antigas !!!

Assim, rapidamente chegávamos ao povoado e logo de corrida, perante a aflição dos nossos pais, vai de despir e meter os pés dentro de água, e mais qualquer coisa ! Aquilo era tão grande, que mais parecia um mar, mas completamente plano e brilhante, com nenúfares aqui e ali, a boiar à flor da água ! Aquilo era o paraíso !

Algumas mulheres estendiam roupa lavada na lagoa, sobre a relva limpa, para secar ao Sol. O silêncio era tal que quase doía ! A nossa gritaria, repetia-se em eco pelas montanhas e vai de experimentar as vozes que fizessem mais ecos…e ficávamos a rir com aquele olá…olá…olá… 

- Hoje, vai-se de automóvel até à borda de água e até se podem visitar miradouros sabiamente escolhidos, como este, de onde um fotógrafo tirou esta espectacular fotografia.

Quando o avião aterra em S.Miguel, é mesmo ali ao pé de Ponta Delgada, onde os taxis nos levam a visitar toda a fabulosa ilha, levando-nos aos miradoiros mais belos, embora só alguns possam ser “descobertos” pelos naturais da ilha, porque se tem de andar uma centena de metros por veredas apertadas, onde um automóvel não pode circular.

Meu primo Eduardo Leça, que foi lá faroleiro na ilha, uma data de anos, teve a gentileza de nos ir mostrar os melhores sítios, quando há poucos anos, em 1988, fui mostrar a “minha” ilha à minha falecida esposa, que havia de falecer em 1991. E ele até nos mostrou as imponentes terras do Nordeste, com as suas matas cerradas e a profundidade enorme e dada a sua grandiosidade, até nos chocava. Aqueles milhões de árvores haviam nascido DENTRO uma das outras, naturalmente e, por isso estavam completamente emaranhadas, e tudo aquilo era verde, muito verde, a mais de 300 metros e profundidade !

   « A ESPECTACULAR  LAGOA  DO FOGO »

E também nos mostrou a LAGOA DO FOGO, também linda de morrer !

Quando chegou o meio da tarde, todos borrados das amoras que havíamos comido, e sujos dos pés à cabeça, lá voltámos para casa, depois de um passeio de carro de bois, que havia de ficar para na minha história.

 

Posted by Engenhocando at 15:31:41 | Permalink | Comments (1) »

A LAGOA DAS SETE CIDADES e outras

                         

                                            « A LAGOA DAS SETE CIDADES E OUTRAS »

Quem nunca foi visitar as ilhas dos Açores, não pode fazer a mais pequena ideia do que aquilo é !

Verdade seja dita que eu só conheci a ilha de S. Miguel, onde nasci em 1927, mas até para os açorianos, não era fácil nem barato, conhecer a ilha toda, até porque ainda são umas léguas de comprimento !…

Para qualquer continental, aquilo é um bocadinho de terra com água por todos os lados, mas pensando em LÉGUAS… já se pode ter uma ideia da sua dimensão !

      « As lagoas verde e azul, das Sete Cidades  »

Lá em baixo, uma pequena povoação, com o mesmo nome da sua lagoa, lá vive e reza na sua linda igreja, para que aquele Paraíso seja mantido pela Providência.

Nascida de vários vulcões extintos há imensos anos, é composta de enormes crateras onde as nascentes e as chuvas, formam lindíssimos e enormes lagos, repletos de arvoredo luxuriante por todos os lados, reflectindo nas suas límpidas águas doces, toda a vegetação circundante.

                «  Um recanto da Lagoa das Furnas  »

Sendo um micro-clima, as chuvas são tão abundantes, que não se encontra um metro quadrado de terreno sem planas e todas elas viçosas e regadas constantemente por Deus Nosso Senhor. Ali, e dadas as temperaturas tão amenas, tudo se cria na terra, nem que seja nas valetas, facto que obriga a que os cantoneiros, estejam sempre de enxada na mão a limpá-las… Aquilo chega a ter a sua graça, porque é frequente encontrarmos pés de milho com mais de 2 metros de altura, nas valetas…

É por isso que S.Miguel é conhecida pela “Ilha Verde”, onde o pó não existe, por mais vento que se levante…e o gado se cria a pastar com um pé amarrado, para se ir alimentando das ervas frescas e que vai “adubando” enquanto anda em círculos com uns 10 metros de diâmetro. Os pastores só têm de lá ir retirar as estacas, de vez enquando, para o mudar de sítio, retirar o seu magnífico leite, de que produzem os belos queijos açorianos, e , ao chegar da noite, o gado ali fica a dormir ao relento, com o seu pêlo malhado de preto e branco brilhante. 

Assim, é frequente vermos diariamente cavalos carregados de dois latões a cada lado e o pastor em cima, viajando pelas estradas cobertas de túneis de árvores, onde o Sol mal consegue penetrar.

O clima é pois propício para o desenvolvimento de plantas como o Chá e os ananases, embora estes sejam criados em estufas, o vinho tinto, a groselha, o araçal, os figos, etc.etc. 

   

 Numa piscina das Furnas, a água jorra tão quente e sulfurosa, que imensas pessoas de todo o Mundo, lá vão à procura de cura para as suas doenças de ossos, reumatismos e doenças de pele.

  Ali mesmo ao lado, um magnífico hotel está à espera destas pessoas que podem gozar de passeios a pé, a toda a hora, por entre aqueles espectaculares e aromáticos jardins.

          «  O Hotel Terra Nostra, junto da Lagoa das Furnas  »

Nenhuma destas belezas se vê, quando se entra em S. Miguel pelo mar, porque tudo está “escondido” no seu interior, mas felizmente que actualmente, em poucos minutos de viagem, de automóvel, as podemos ver e, normalmente em miradouros habilmente escolhidos onde, num repente, se abrem a nossos pés estas imagens poderosas de encanto e surpresa ! Parece que se abre o Céu na nossa frente, e até  parece que nos falta o ar ! Como é possível haver tanta beleza, e aqui a uma hora de avião !

Depois podemos viajar até lá abaixo, a mais de 300 metros de profundidade, para apreciarmos de perto aquelas indiscritíveis maravilhas, num ambiente celestial de silêncio, perfume e limpeza !

Mas a ilha “está viva”, “respirando” constantemente pelas suas imensas “narinas”, onde se pode ver, ali mesmo a nossos pés, água a ferver e gases, o seu hálito especial, a sair das suas profundidades, nas Fumarolas , e tirando os sapatos, podemos sentir que a terra e as ervas estão mornas !  Por baixo de nós, está a terra a ferver, mas ninguém se assusta… Aquilo é mesmo assim, há centenas de anos, e até achamos graça…

A meio metro de profundidade, estrategicamente enfiados pela terra abaixo, os açorianos enfiaram tubos de cimento, cheios de buracos de lado e por onde jorram os violentos “calores” da terra, como maçaricos, e lá se podem colocar panelas com comida que, passada uma meia hora, se apresenta toda cozida e pronta a comer !

Conta-se por lá, com muito gozo, que um cientista estrangeiro, lá foi visitar essas furnas fumarentas e mal sentiu o calor que brotava da terra a seus pés, e o rugido das “narinas” das entranhas da terra, fugiu assustadíssimo, com todo o seu material científico às costas,  garantindo que aquilo estava eminente de explodir…

   « As “fumarolas” na Lagoa das Furnas »

Esta tremenda agitação vulcânica, deu origem, há uns anos, ao seu aproveitamento, com uma estação geotérmica construída na freguesia da Ribeira Grande, onde S.Miguel aproveita 30% da sua energia eléctrica, com água captada a cerca de 1000 metros de profundidade, à temperatura de 200ºC.

  A Central Geotérmica da Ribeira Grande

Um rico inglês que há imensos anos foi visitar estas “Furnas” ficou de tal forma extasiado e fascinado com o clima que lá encontrou, que mandou vir de imensas partes do Mundo, plantas exóticas que lá plantou e, assim, podemos apreciar as luxuriantes plantas do Japão, Indonésia, Brasil,  etc.etc. É tudo do que há de mais belo.

Descrever por palavras, esta ilha tão especial, só por Grandes Escritores.

E eu, relembrando tudo isto, penso ter tido a sorte de ter nascido no Céu !

 

Posted by Engenhocando at 09:26:10 | Permalink | Comments (1) »