Tuesday, October 31, 2006

O DESPIQUE (por António Águedo Gomes)

Isto dos Blogs, tem como se diz aqui pelo Ribatejo, os “seus adeveres” e têm-me surgido umas certas dificuldade em fazer “engrenar” os escritos que me chegam via e-mail, no Blog…

Hoje tenho o gosto de apresentar um escrito dum grande e simpático amigo meu, que mo enviou desde o Algarve.  Eu sempre admirei e muito, as raras pessoas que conseguem, pela escrita, dar-nos a felicidade duma boa e sã gargalhada.

Isso já aconteceu com o escrito do Prof. João Vitalino Martinho, que certamente, e como a mim, provocou uma boa gargalhada no seu final.

  

                                               Um conto à lareira em noite de chuva
 O despique  

O Zéi do Couço era almocreve!

 

Com diligência e tempo tornara-se um excelente mercador, especialista em todas as mercadorias rurais, e conseguira qualquer coisa de seu.

 

Era ele, quase em rigoroso exclusivo, que tudo mercava e recovava, de e para o Monte da Cruz de Pedra, ao mesmo tempo que ia tentando arrastar a asa à única filha do lavrador, de quem já se sentia senhor e amo, tanto quanto escravo, mas sem qualquer resultado prático.

 

A Raimundinha havia o fértil morgadio do Cerro Alto, que era qualquer coisa que se via, e que, junto com a graça, herdara de sua mãe.

 

Esta “qualquer coisa que se via” equivale a algumas léguas de plantio de pão para a mesa, de papas quentes para as invernosas manhãs no monte, de rações e forragem para o gado de leite e tiro, de lã e queijo, de carga e monta, de caldos e de ovos sem esquecer o de cera e mel.

 

Além barranco onde corria o ribeiro que matava a sede a uma viçosa horta que fornia de profusa verdura mais de vinte vendas em redor, começava o montado que dava avonde para as respectivas varas de marrãs capadas, de bácoras de cria, de cevados e de varrões, para alguns javardos de arribação e ainda para abundante caça de pena e pelo e também para uma boa mancheia de rolhas.

 

Havia ainda uma extensão de um rubinéctar, de que os compadres mimoseados diziam ser “uma devina diliça”, além da perspectiva, que Deus a atrasasse por muitos anos, de se lhe juntar aquilo de que o Monte da Cruz de Pedra vivia, e que o sagaz lavrador mantinha activo e prolongava como seu.

 

Era esta fazenda a ambição de maior anelo do Zéi do Couço que a queria a troco do seu nome que de muito pouco valeria para a merca.

 

Com o pensamento na Raimundinha levava ao monte muitas daquelas bugigangas tão do agrado das vaidades femininas, mas da Raimundinha nem um olhado e era a sua bojuda ama de leite, a Amália Quejera, quem regateava a qualidade, o preço, a conveniência e o recato daquelas frivolidades destinadas à morgada.

 

A terra tinha sido generosa! Pagara bem as sementes! E naquela quase noite daquele quase fim de Verão, ao abrigo das volumosas serras de palha que impediam a corrente de norte que tinha ajudado, e bem, a sua debulha, de assistir e perturbar a animação do balho das festas da colheita que fazia descansar a família da canseiras das cegaduras transactas e incitava à labuta da vindoura vindima, a gente do monte divertia-se.

 

Chegara a hora das cantigas ao despique e o Zéi do Couço já se tinha insinuado e mesmo permitira-se dirigir umas indirectas, sem qualquer resposta da Raimundinha, mas foram tantas que esta não se conteve e às tantas disparou:

 “Diz-me cá ó Zéi do CouçoC’and’abalas cá do montiP’ra levares pró tê almoçoTrês marmelos qu’ê di onti”. 

Metido na troça geral e muito encavacado o Zéi do Couço, como bom brutamontes que era, retrucou:

 “S’os marmelos te dã festaÓ os papas por enteroÓ c’arriata da bestaT’arribento o marmelero”. 

Com toda a gente de boca aberta e sem reacção, a Raimundinha, muito serena, replica:

 “N’árribentas marmeleroPôs tu nã prestas p’ra nada!Ê papo o marmelo enteroE é p’ra ti a marmelada”. 

A expectativa da resposta do Zéi do Couço pôs no ar alguns cajados e outros de prevenção, que depois de grande hesitação lá se atreveu:

 “A marmelada que fazes Dêt’á fora rapariga.Ê quer’é fazer as pazesE que sejas minh’amiga”. 

Nesta altura o lavrador decidiu intervir e, com um olhar decidido, fez baixar alguns cajados, bem poucos, e encarando bem de frente o Zéi do Couço intima:

 “Aqui nã vás ter amigaNem qu’o diabo m’afronti.Abala já c’a cantiga.Nã venhas más ó mê monti”. 

Aqui caíram todas as aspirações e orgulho do Zéi do Couço, e lá abala ele mais o seu séquito de récovas, de cabeças baixas e sem carga, comitivados pelas cortesias de um avantajado cortejo de bem alçados cajados e bordões, até às extremadas do Monte da Cruz de Pedra, e sem deixar saudades em quem ficou no balho das colheitas e no despique mofoso que se seguiu em sua memória.

 Prosador do Soltavento

 

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Um garoto como os outros, ou… talvez não…

    «  UM GAROTO COMO QUALQUER OUTRO OU…talvez não…

Quando eu tinha 9 anos, era esse miúdo que se pode ver escarranchado sobre o motor do automóvel que meu avô, médico, havia acabado de comprar e de que era muito orgulhoso.  Era uma Austin 7. Até essa data, ele só tinha andado a cavalo ou num carro muito popular em S. Miguel, um Char-a-banco, puxado por um cavalo, em que as pessoas são assentadas frente a frente, depois de entrarem por uma portinhola traseira.

Meu pai, pessoa muito enfronhada em automóveis, era continental e foi ele que escolheu o carro, para poder resistir às péssimas estradas de terra esburacada que existiam nas terras onde meu avô tinha de fazer as suas consultas, desde os Mosteiros às Feteiras, passando pela Várzea, Ginetes, e Candelária. Foi até com certa relutância que ele me colocou sobre o carro, mas como eu era o mais leve e pequenino…lá me colocou, talvez para me colocar mais em evidência, pois mostrava, constantemente, muito gostar de mim. Depois foi aprontar a grande máquina fotográfica, que estava segura a um tripé, que estava ali a uns metros e, metendo-se por baixo do pano negro para poder fazer uma boa focagem no vidro despolido, acabou por meter a chapa fotográfica e fez esta fotografia, onde as garotas à frente, são as minhas irmãs, à minha direita o meu irmão Carlos Mar, seguido do meu primo Armando e do outro lado, meu primo Eduardo e um vizinho. 

Este escrito, não vem aqui parar por acaso, mas para descrever ao curioso leitor, para o que contei no artigo anterior, A MAGIA DA VIDA, em que tive de recitar um poema, não sei de quem…mas que me tinha sido entregue pelo meu professor de Instrução Primária, para decorar e poder recitar no 1º. de Dezembro. Naquela época, todas as escolas tinham de fazer festa grande no primeiro de Dezembro, não só com teatro mas também recitando poemas alusivos à data.

Como qualquer miúdo de 9 anos, eu nunca tinha sido ensinado a recitar em público e, mais ou menos todos os alunos escolhidos para recitar, também não.  Aquilo era chegar ao “palco” e despejar o que se tinha decorado com maior ou menor facilidade e velocidade….

Como eu nunca fui de grande memória, o meu professor escolheu um pequeno poema sobre Portugal e lá fui decorando aquilo, até que acabei por fixar. Deste poema, só me lembro que começava com:

” Portugal, minha pátria estremecida, abre o teu coração e deixa-me ver…”, etc. etc…

Estávamos já em meados de Novembro e meu pai, artista nato e até tocando muito bem violino, ao saber que eu estava escolhido para ir recitar daí a dias, chamou-me à sala e disse-me:

 Vai ali para fora e, quando eu disser “entra”, tu entras e recitas.

 Assim fiz, mas entrei na sala a correr e quando ia a começar a “despejar” o poema, ele estendeu o seu braço direito na minha direcção e gritou, todo zangado: rua !

Eu, julgando que era mesmo RUA…largo a correr pelo corredor, em direcção à rua, e a pensar “desta já eu me safei hoje”, mas ele logo me gritou para recomeçar. Um pouco constrangido com o acontecimento, lá entrei devagar na sala, com os braços pendurados ao longo do corpo e, mal ia começar o poema, meu pai bramou de imediato, que não era nada assim, porque eu iria descrever em verso a História de Portugal, no tempo das nossas aventuras e descobertas à volta do mundo e isso, exigia uma certa solenidade da minha parte.

Eu sabia lá o que era aquilo de “solenidade”… mas ele me explicou que eu devia dizer a palavra “PORTUGAL” lentamente, afastando em arco os braços, como se fosse dar um grande abraço a Portugal. As mãos de deviam estar perto do peito, até abrir os braços, enquanto diria a palavra Portugal e, colocando os dois braços dobrados e flexíveis, podia então começar a recitar o poema, movimentando docilmente os braços a cada estrofe.

E vai de recomeçar tudo de novo ! Mas mal iniciei o poema, e para ver se não me esquecia de nada…estava já a “despejar” tudo aquilo em catadupa, quando fui novamente interpelado pelo meu exigente pai, que entretanto já tinha caçado algumas palavras do poema, e exigiu que ele fosse dito  muito claro e pausadamente, e assim lá vou eu novamente para o corredor, para reiniciar o poema.

Há distância de 69 anos dessa data e sendo meu pai um continental, ele deveria ter muita dificuldade em entender o sotaque açoriano de S. Miguel, pela voz esganiçada dum miúdo de 9 anos e daí, julgo eu, que me obrigasse a proferir lentamente as palavras do poema. 

Eu devo ter recitado aquilo umas mil vezes, até que ele se desse por satisfeito !

Meu pai, que já estava muito doente nessa altura, ( e até morreu no ano seguinte) ainda conseguiu ir assistir ao espectáculo na Escola Primária dos Ginetes, e ver se eu conseguiria recitar o poema, como ele desejava e foi, por isso, que perante estrondosas salvas de palmas, toda a gente dizia BIS e mais BIS. 

Do meu esforço, resultou um carinhoso alisar dos meus encaracolados cabelos, pelas mãos de meu pai, pessoa pouco dada a carinhos, fazendo-me sentir que estava orgulhoso de mim.

Como tenho saudades de ti, querido pai …

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A MAGIA DA VIDA

                                          «  A  MAGIA  DA  VIDA  »

Quando uma pessoa começa a chegar ao fim da sua vida, e ainda se encontra lúcida, como felizmente é o meu caso, ao olhar para trás, relembra um montão de coisas que se fez ou devia ter feito ou talvez ainda possa fazer, e com uma saudade e vontade imensa.

Relembra-se do bom e mau por que passou, e há bocados da vida passada, que até bem gostaríamos de poder apagar para o sempre, mas que estão tão arraigados no fundo do nosso cérebro, que é escusado…estão lá para sempre…

Vem à memória os dias na nossa juventude, até o nome do nosso primeiro professor, (no meu caso o Sr.Santos), de instrução primária, as matérias de que tanto gostávamos de aprender, ( no meu caso as redacções e os desenhos) e aquelas que tanto abominávamos… A nossa escola e o ambiente que lá se vivia, alguns amigos com quem bricámos centenas de vezes, os disparates que fizemos, o nosso primeiro encanto pelo sexo oposto, (no meu caso uma linda garota loira e filha dum faroleiro da minha terra) as reprimendas e puxões de orelhas que levámos, tanto dos nossos pais como professores, para nos chamarem à atenção, aqueles versos que tínhamos de decorar para representar no Primeiro de Dezembro, e o som das palmas do publico que gritava BIS, BIS, e que nós, envergonhados em cima do palanque, voltávamos a recitar no nosso melhor, ( uma vez, recitando PORTUGAL, até tive de repetir 3 vezes…) aqueles brinquedos do Natal, que eram feitos pelas mãos dos nossos pais e avós, que se refugiavam num quarto à laia de oficina os saquinhos de guloseimas que apareciam no chão, em frente à árvore de Natal …etc.etc.

Relembramos com intensidade as nossas primeiras engenhocas e experiências, às vezes bastante perigosas… a alegria de termos podido realizar por nossas mãos, algo a que nos dedicámos com tanto interesse, as nossas aventuras por terrenos desconhecidos pelo campo, o vermos os estorninhos à procura das lagartas que iam aparecendo atrás dos arados, a alegria de podermos abraçar um animal querido e simpático, a aflição dos preparativos para os exames escolares, o receber por empréstimo, aquela caneta de tinta permanente que a minha avó só emprestava para as escritas do exame e acrescentando que todos os que a tinham usado, tinham passado brilhantemente… a primeira vez que os nossos pais apreciaram a nossa ajuda e o mostram com carinho, e nos deixarem pensar pelas nossas ingénuas cabecinhas… tudo isto, visto à distância de 80 anos, tem a sua magia !

Quando mais tarde vamos evoluindo e encontrando os pedregulhos que sempre teimam em colocar-se à nossa frente, mesmo com algumas esfoladelas dolorosas nos joelhos, acabamos por sentir que algo se aprendeu, e até valeu a pena.

Mais tarde, já gente grande, e depois de muitos solavancos, até com a perda de familiares que desejávamos conservar para sempre…aprendemos o quanto é bom ter-se sobrevivido a estes solavancos e até aproveitar deles os seus ensinamentos.  E estamos sempre a aprender, todos os dias, mais qualquer coisa… porque a vida está cheia de coisas e pessoas interessantes para conhecer, amar e admirar.

Como é bom encontrarmos pessoas que nos estimam e estimulam a continuar as nossas “lutas”, e amigos que se conservam dezenas e dezenas de anos, alguns há mais de 50, sempre com uma abraço disponível e um sorriso aberto de estima !

Dizia um filósofo que “não tinha pena de recordar disparates que tinha feito em criança, mas o já não os poder fazer aos setenta anos…”.

A INTERNET veio facilitar imenso o encontramos A MAGIA DA VIDA.

 

Posted by Engenhocando at 10:25:14 | Permalink | Comments (1) »