Tuesday, June 16, 2009

E NASCEU UM ROBOT DE NOME MIGUEL

                         E  NASCEU  UM  ROBOT  DE  NOME  MIGUEL

 

  Crónica Nº.105 - Junho 2009
  ct1dt@sapo.pt    e http://engenhocando2.blogspot.com

   Há mais de 30 anos, ainda os meus filhos eram garotos, e agora já estão todos com mais de 50 anos, um dia me apareceram em casa, e me traziam dois motores eléctricos de subir e descer os vidros de algum automóvel e a perguntar-me se aquilo teria alguma utilidade, para os meus engenhos.
   Uma coisa que sempre me apaixonou, foi descobrir utilidades diferentes para material considerado “sucata” e logo pensei em construir um “brinquedo” qualquer e dar-lhe movimento.
   Para dizer com franqueza, esta paixão de engenhar ou engenhocar coisas, daí o ENGENHOCANDO, nasceu e cresceu comigo…
   Como eu só poderia usá-los, em forma de um robot, para lhe dar aspecto humanoide, disse à rapaziada que teria de usar latas de óleo vazias e logo se prontificaram para as ir descobrir.
   Passada uma hora, já aqui tinha uma data de latas de litro, para os braços, outras tantas de galão para as pernas, uma de 50 litros para a barriga, e uma de 10 litros, de tinta, para a cabeça.
  Como estavam todos muito entusiasmados, pú-los a soldar as latas umas às outras, e como ficou com dois metros de altura, como um dos jovens, era muito grande, e se chamava Miguel, logo o baptizaram por este nome.
  Para os ver contentes, comecei logo a estudar a forma de por os motores em funcionamento, levantando e baixando os braços intermitentemente, abri-lhe uma grande bocarra, coloquei dois farolins verdes a fazer de olhos, mas aquilo estava muito morto…ou seja, faltava-me as palmadas para o ver “nascer”…
  Assim, com a ajuda de vário material de electrónica, lá usei um velho e pequeno gravador de fita magnética, um altifalante, e um sistema mecânico  que lhe pusesse a bocarra a abrir e fechar, além dos olhos a piscar em verde. Para proteger da chuva, construi-lhe um chapéu metálico, tipo Tailandês.
  Assim, já tinha outra graça, embora não servisse para nada, a não ser para entreter as imensas crianças que me começaram a aparecer, em caravana, todas acompanhadas das suas monitoras, logo que se constou aqui na terra, que havia cá um robot que até falava.. e gesticulava. «Eu sou o robot de ferro e lata, mas não sirvo para nada…»
  Como aquilo era alimentado por uma bateria de automóvel e tinha um elevado consumo, acabou por ficar abandonado a um canto da garagem.
  
 Mas um certo dia, anos mais tarde, estava eu a transmitir e receber TV pelo meu rádio, para qualquer parte do Mundo, novo sistema de rádio nessa altura e conhecido por SSTV, quando vejo aparecer a chamar-me, um colega da Suiça e mostrava no seu cartão de visita, (QSL) um robot enorme ! Mas não era feito de latas e latinhas… Aquilo estava feito a plástico e também era com uns 2 metros de altura !
  De imediato arrancámos a falar sobre aquele interessante projecto, mas que o suiço havia mostrado numa exposição e o entusiasmo havia sido tal, que teve de continuar a vida, a construí-los cada vez mais complexos e já assistidos por electrónica com muita informática e espalhados por todo o Mundo.
  Nessa altura, eu já havia construído um braço-robot que era comandado por um microprocessador, só por curiosidade e até era muito giro de programar e ver funcionar sozinho, embora também não servisse para nada.

       

Ele podia rodar, levantar o braço, agarrar qualquer coisa, e ir largá-la onde se desejasse.
  Fiquei marado, até porque eu já dominava muitas coisas de informática e mecânica, mas como nunca estive ligado à agricultura, o assunto ficou ali parado, anos e anos. 

             
    
  O meu amigo Prof. Nogueira, do blog  wwwnovas.blogspot.com, está aqui  “de conversa” com o segundo robot, o Miguel.

  Os anos rodaram e aparece a Internet e os Blogs.
  Assim, vai de abrir um Blog e começar a descrever imensos assuntos e experiências da minha  vida, até que fui informado de que havia um blog duma senhora portuguesa, lá para os lados de Viseu, de nome Ana Ramon, e que falava de meu assassinado irmão, Carlos Mar Bettencourt Faria, dono e construtor do Observatório da Mulemba, que havia conhecido ainda em solteira, com muito carinho.  De imediato dei lá um salto ao blog e me apresentei. Ela nem sabia da minha existência…
 Tratava-se do  www.apaixaodossentidos.blogspot.com  .

      

  (Aqui está ela na sua visita a Benavente, ha poucos dias)

   De imediato, ela respondeu e nunca mais deixámos de contactar quase diariamente.
  É raro o dia em que ela não me conte novidades das suas experiências, sempre descritas de forma imponente ! É uma mulher extraordinária, de habilidade e curiosidade científica ! É uma mulher RARA !
  Foi aí que ela me falou dos seus problemas com os bandos de pássaros, os corvos, que lhe faziam enormes prejuízos na agricultura e eu me lembrei do velho robot “Miguel”, que lhe poderia oferecer, mas ele não estava em condições de ficar à chuva, vento, e Sol .
  Mas ela se mostrou imensamente interessada em o comprar…e que eu dissesse quanto custava.
  Obviamente que seria uma simples oferta, mas que vivendo ela a mais de 300 Km da minha vila, ela teria de arranjar forma de o vir buscar.
  Claro que quase tudo havia de ser alterado, porque até a tecnologia se havia alterado imenso e já se podia gravar e reproduzir som, sem fita magnética (digitalmente) e vai de pensar em executar as alterações necessárias, para que ele pudesse durar muitos meses. Mas será que dura ?
  Mas não era só o Miguel que estava velho…eu também e as alterações a fazer, demoraram muito mais tempo do que eu queria, mas finalmente, ela com o marido e um filho, cá vieram para o transportar.
  Assim, ele já está na sua quinta, e provavelmente, ela se referirá ao seu uso e comportamento, nalguma crónica do seu magnífico blog.

  Mas tenho pena de só agora, em que tão pouco tempo tenho de vida, já não poder recomeçar este projecto de novo, para lhe aplicar tantas e tantas ideias que tenho na cabeça…

       

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Saturday, April 11, 2009

E SÒ FALTAVA UM POUCO DE MÚSICA…

 

  Crónica Nº.104  11-Março-2009
  CT1DT@SAPO.PT   e   http://engenhocando2.blogspot.com

 

                          E   FALTAVA  UM  POUCO  DE  MÙSICA…

 

           

            Naquele dia em que a gerência da empresa onde eu trabalhava há muitos anos, a Rádio Free Europe, desejou oferecer um almoço à entidade máxima que estava a visitar Portugal, foram convidados todos os chefes de Serviço e suas esposas.

  Como eu estava nessa altura, a chefiar a técnica do Centro de Recepção, também fui convidado e lá fomos todos para uma grande sala em Lisboa, onde haviam colocado uma data de meses em linha, e às tantas, lá começou o grande almoço e muita conversa entre toda a gente.

  Aquilo até estava interessante, mas como eram vários pratos, nunca mais acabava e às tantas, com toda a gente satisfeita, comecei a ver um certo enjoo e até alguns bocejos mal disfarçados, tanto dos homens como das mulheres…

  É certo que a chefia continuava de amena conversa, mas como era muita gente, a maioria de nós,, não ouvia nada do que eles estavam a falar, nem nos podíamos levantar da mesa… Tínhamos mesmo de aguentar…até a chefia dar por fim aquele imenso almoço e começarem as despedidas…

  A um lado da enorme sala, havia um estrado onde se encontrava um belo piano, e uma bateria, mas o silêncio era tal, que mais nos parecia um dia de velório…

  Aquilo estava mesmo chato de aturar !

  Aí lembrei-me que talvez não fosse uma grande asneira, ir tocar em surdina, umas músicas românticas e muito baixinho, e lá me aventurei e fui.

   Naquela altura, eu sabia de cor, tocar uma data de músicas românticas, de ouvido, em especial brasileiras, como algumas da Maysa Matarazo, como aquele “Hoje eu quero a rosa mais linda que houver…”, ou “Ninguém me ama..:”, ou “Meu mundo caiu “, ou “Besame Mucho”, “Eu não existo sem você”,  etc. e carregando no pedal da surdina, além de muito baixinho, comecei a tocar aquelas minhas músicas favoritas.

  Eram slows, valsas, tangos, foxes, mas mal comecei a tocar, vejo subir para aquele palco, um jovem que se sentou na bateria e começou a fazer-lhe “festas”, fazendo ritmo que me vinha ajudar e bem. Até parecia que eu sabia de música…

  Mal sabia aquela malta, que eu só tocada
em tom de Fá maior e menor… e até ouvia muitas senhoras a cantarolar baixinho aquelas músicas tão em voga naquela altura…

 

  As músicas entravam umas a seguir às outras, brincando com o teclado e arrancando dele os meus melhores sons. Aquilo era uma delícia !


 
Sentado ao piano, eu ficava de costas para a grande sala, mas às tantas, pareceu-me ouvir um sussurro nas minhas costas e quando olhei, fiquei pasmado, pois todos os casais da nossa mesa e de outras, se tinham levantado e estavam a dançar …

  Tendo ficado muito mais a-vontade, tirei o pé esquerdo da surdina e levantei mais o som, sendo seguido de imensas palmas, de que não estava nada à espera…


 
Aquele “fim de festa”, até parece que acabou em grande, com tanta alegria de todos aqueles casais já cansados de esperar pelo seu fim e tudo acabou em bem.
  Realmente, até parecia que toda a gente estava à espera de um pouco de música…

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Monday, March 23, 2009

MEU AMIGO ARCÍLIO COSTA

      


 

       MEU AMIGO ARCILIO COSTA

  

Artigo Nº. 103            23 de Março de 2009
Ct1dt@sapo.pt   e   http://engenhocando2.blogspot.com

 

         Arcilio Costa, é um amigo que conservo  há mais de 50 anos, desde Maio de 1951, e nunca tivemos um amargo de boca, uma ausência de carinho.

   

    Desde que o conheci via rádio, na banda dos
40 metros, logo descobri uma pessoa invulgar, daquelas em que gostamos de “tropeçar” pela nossa vida, talvez por sentirmos que é GRANDE e, em muitas situações, maiores do que nós, daquelas pessoas a que hoje se chama, “amigo do peito”.

 

   O radioamadorismo, é uma espécie do que hoje chamamos de “Blog”, onde conhecemos imensas pessoas, anos e anos, mas agora, com a grande facilidade de as podermos conhecer por fotografias, imagem e som.

  O seu indicativo oficial, era CT1MI e a sua actividade radioamadorística, permitiu-lhe mais tarde, vir a conhecer perfeitamente, toda a aparelhagem electrónica da aviação, que estava a aparecer no mercado e a ensinar aos novos pilotos, como toda ela funcionava, para poder voar muito acima das nuvens, noite e dia.

 Toda a gente queria que fosse ele o seu piloto de instrução, porque sabia da sua capacidade imensa de ensinamento.

 

   Quando usando a rádio, não se pode fazer a mais pequena ideia de quem está “do outro lado”, e esta situação, muitas vezes, nos leva a grandes desaires, quando nos conhecemos pessoalmente… porque encontramos pessoas muito diferentes do que levámos anos a imaginar…

 

  Mas há 50 anos, só se podia ouvir a sua voz, mas podíamos conversar horas e horas, sobre o que estávamos a fazer e o que havíamos feito, e podíamos comentar toda a nossa vida, desde a infância, à adolescência, os azares e grandes alegrias da vida, as nossas aventuras e desventuras, com a complacência dos Serviços de Escuta Oficiais da DSR, Direcção dos Serviços de Radiocomunicações..

 

 Tanto podíamos ter uma vida muito desafogada, como cheia de dificuldades e em cada dia podíamos descobrir um assunto para conversar, uma experiência nova para fazer.

  Assim viemos a descobrir umas infâncias um tanto difíceis, mas tão semelhantes, que até parecíamos irmãos.

  Uma vontade insaciável de fazer experiências e arcarmos com as responsabilidades dos nossos, às vezes, incríveis projectos.

    

  Ele, na sua adolescência, também se entusiasmou pela aviação e de tal forma que em algum tempo, havia evoluído até à instrução de novos pilotos, e aprendido a voar imensas máquinas, praticamente todos os modelos ligeiros, existentes em Portugal.

  Não havia avião que fosse autorizado a voar, sem ter passado pelas suas mãos e corrigido de algum defeito existente e perigoso. Era um autêntico “piloto de teste” e tinha de conhecer a fundo, todos os defeitos e qualidades de cada avião, para auxiliar nas suas correcções e novos voos de ensaio, até ficar satisfeito.

  Ele tinha de conhecer as características de cada avião e, quando eles tinham de ser levados para a sua manutenção em Alverca, ele é que os transportava pelo ar e os experimentava antes da volta.

 

  

 

  Em 1961, eu me havia entusiasmado imenso pelos AUTOGIROS, aparelhos voadores  de asas rotativas e desejava fazer os primeiros ensaios, a reboque de um automóvel. Enquanto ele já era um sábio na aviação dos pequenos aviões ligeiros e de reboque de planadores, ele sabia do perigo em que eu me iria meter, e veio de Oliveira de Azeméis, a 200 Km de distância, propositadamente para me dar o reboque e conhecer um autogiro,  e como sabia pela experiência já antiga, que havia de fazer uma série de  corridas, até descobrir a velocidade em que o automóvel teria de andar, até se criar a sustentação, fez o seu melhor.

  E assim foi feito, mas o rotor de sustentação, é que não ganhava a rotação suficiente, e havia que fazer outra corrida um pouco mais rápida, e muito constante.

 

 A certa velocidade, as 360 rotações necessárias (RPM) , aconteceram e o aparelho descola muito suavemente, enquanto provocava um “zip-zip-zip” da corrente de ar no rotor, lá venho eu pendurado “naquela coisa”, a cerca de um metro de altura ! Estava a voar e a comandar a minha máquina ! Era a primeira máquina deste género, existente em Portugal.

  Mas como a pista se estava a acabar e eu ainda nem sabia que para ir mais alto, teria de aumentar a velocidade, assim que tentei fazê-lo, exagerei tanta a inclinação aos comandos, que o grande rotor de 9 metros de diâmetro, acabou por tocar no solo, à minha retaguarda, e como se danificou, tive de fazer uma aterragem forçada, mas com tanta violência que se partiu o trem de aterragem e sai uma cambalhota com a cabeça no chão e cegueira completa, embora consciente. Eu queria falar, mas não saía som nenhum…Eu estava a ouvir tudo o que se passava à minha volta, mas não podia dizer que estava vivo e nem um dedo conseguia mover…

  Então e depois dum grande esforço para dizer qualquer som, lá saiu um gemido e o Arcilio, ajudado por várias pessoas que logo apareceram, me pôs em pé, perante o alvoroço dos presentes, que gritaram ao mesmo tempo :ele está vivo!. Aí é que eu verifiquei que estava completamente cego e lhes pedi para me tirarem a terra que devia ter nos olhos, mas eles responderam que não viam terra alguma. !  Então, logo pensei que estava completamente cego ou partido a coluna !

 Foi realmente um momento de pânico, porque estava casado há pouco tempo e logo pensei o que iria ser da minha vida, completamente cego… mas muito lentamente, e seguro em pé para não cair, fui recobrando a visão e tudo voltou ao normal. Mas tinha sido uma experiência inolvidável !  Tinha valido a pena !

 Um camionista que se apercebeu do acidente, veio de imediato com ajudantes e colocaram em cima do camião os restos do meu autogiro.

 40 anos depois deste acontecimento, uma grande amigo meu, já estava a voar em autogiro MAGNI, um lindíssimo aparelho comercial e nele acompanhou a volta aérea a Portugal, e me concedeu a alegria de voltar a voar naquela estranha mas lindíssim máquina.


 
Há poucos anos, e dada a sua curiosidade pela aviação, consegui que ele fosse experimentá-la pela primeira vez, por convite do meu amigo Dr. Joaquim Figueiredo, dono e piloto do autogiro que tanta confusão lhe estava a fazer.

 

  

 

  Ambos amantes de tudo o que fosse científico, até entrámos pela medicina e construído aparelhos para tratamento de dores e inflamações, cada um com suas soluções . Ainda hoje defendemos pontos de vista diferentes !

 

   

 

Mas como pessoa muito exigente, constrói tudo com muita perfeição, nem que seja pelo gozo de as estudar, construir, afinar e experimentar ! Até os painéis são construídos por ele !


 
Como profissional exigente, percorreu o mundo de ponta a ponta, dos EUA ao Japão, para conseguir os melhores contratos e isso o levou à Direcção Técnica de várias empresas, embora mantendo a pilotagem dos aviões.

   Hoje vive da sua reforma, sempre muito distraído com tecnologias diferentes, com muito acesso aos computadores e usando o MSN que nos tem proporcionado imensas horas de contacto visual., embora nem sempre de acordo, como já é nosso velho habito.

 

   Infelizmente, como a mim aconteceu  também, perdeu a sua amada esposa, e felizmente que lhe deixou 3 filhos muito amigos, que lhe vão emoldurando a vida, tal como a mim.


  Com a sua enorme capacidade de realização, construiu uma belíssima auto-caravana, com tudo o que há de mais moderno, incluindo TV de satélite, HI-FI, painéis solares para recarga de baterias, frigorífico, etc.
passando imensas horas rodando pelo país maravilhoso que temos, para não se deixar envelhecer e enferrujar, embora já esteja com um pouco mais de 70 anos…

   Desculpa-me, Arcílio, o ter-te vindo “despir” um pouco em público,  mas se o não fizesse hoje, talvez amanhã já fosse tarde.

 

  

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Monday, March 16, 2009

E DEU -LHE O NOME DE CAMILA

       E DEU-LHE O NOME DE CAMILA

Crónica nº. 102 de Março de 2009-03-04

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http://engenhocando2.blogspot.com/

e-mail   ct1dt@sapo.pt


 

  Quando a minha amiga
Ana Bela, mais conhecida na NET, por Ana Ramon, me disse que havia dado o nome de Camila, à sua linda cadelinha Serra da Estrela, que o seu empregado Sebastião lhe havia ofertado, até senti um bac no coração !
  Mas aquele minúsculo animal, iria ser mais uma preocupação para ela e, por isso, não achou graça nenhuma à oferta…
  Só que Camila era a meiguice “em pessoa” e logo se afeiçoou à sua dona, só pedindo carinhos, o que tocou fundo no seu coração.
  Felizmente que os outros cães a aceitaram muito bem, embora ela sempre sentisse a necessidade de se refugiar no colo da dona, mal eles se aproximavam…

  Como ela tem na sua quinta, muitas ovelhas que tem de guardar e por a pastar, ainda não havia encontrado aquela raça de cão, que consiga acompanhar o rebanho, sem lhe fazer mal.
  Aquilo é um problema complicado, porque os seu cães de guarda, se atiram aos recem nascidos e os matam. Tinha de ser um cão que desde pequenino, conseguisse dormir junto delas, para as considerar como “irmãs” a quem defender, embora tenha de ser bem ensinado…

  É que, quando eu estava muito doente e num sanatório do Caramulo,  mas já me encontrava na linha dos curados, apareceu por lá um conjunto musical muito simpático, em que a Estrela era uma linda garota de nome Camila. Era o TRIO ODEMIRA.

  Aquele pequeno conjunto de 3 artistas, em que os irmãos tocavam maravilhosamente viola e a acompanhavam , mas o mais virtuoso era canhoto, e o braço da sua viola, ficava para a direita, enquanto o outro irmão, que era destro, e ficava para a esquerda.

  Assim a Camila, ficava ao meio, vestida de sevilhana, tecido de cetim azul, cantando lindamente em espanhol e rodopiando enquanto tocava as castanholas, com uma linda rosa vermelha agarrada ao cabelo.

  Aquela visão duma tão jovem alourada, deu-me volta ao miolo…

  Eu nunca havia estado perto duma “espanhola tão linda” de pele acetinada, e que pronunciava tão distintamente o espanhol , como as que eu ouvia na rádio!

  Dentro de toda a assistência, eu era o mais novo e fiquei mesmo à frente, a cerca de uns dois metros deles, porque não havia palco. Era uma sala normal de recreio.

  Talvez já fosse hábito dela, sair de dentro dos irmãos e vir cantar muito perto da assistência que a seguia hipnotizada.

  No meu caso, ela quase que me tocava com o seu nariz no meu !!! Aquilo era bom DEMAIS… até porque tínhamos a mesma idade, e ambos solteiros.

 

  Naquele tempo, ainda não havia televisão e os artistas tinham de andar sempre de terra em terra, à procura dos seus ouvintes.  Era pois uma vida extremamente dura e mal paga , pelo que eles tinham muita dificuldade em sobreviver, até porque ela era todo o amparo da sua mãe, que estava cega.

 Talvez por isso, a “minha” Camila adoeceu dos pulmões, mas como estava de visita ao Caramulo, logo foi vista e tratada pelos simpáticos médicos, e passado poucos meses, já estava a caminho da sua cura.

 Como eu já estava curado, ainda a fui visitar ao seu sanatório, Senhora da Saúde, e conversar com ela muitas vezes, pelo que ela ficou a saber de toda a minha vida, também muito difícil e cheia de solidão.

 Mas como eu não queria, de forma alguma, recair, nem um beijo lhe podia dar !

Entretanto, já curado, tive de a deixar lá, à procura da sua convalescença, e me fui embora para Lisboa, sempre com aquela fisionomia na ideia.  E pensava, : será que ela se cura ? Será que ainda está viva ?

 

  Eu não lhe podia oferecer nada, mesmo nada, a não ser aquela adoração, mas passados uns 10 anos, já com os meus 24 anos, casei-me e já tinha os meus 3 filhos miúdos, quando, quando já empregado numa firma americana, fui fazer umas férias a Albufeira, no Algarve e no meio daquela grande confusão da chegada das pessoas, vou dar de caras com ela, também já casada e com filhotes. Ela estava tal e qual a havia conhecido, embora com roupa simples, de passeio, mas era o mesmo sorriso, aquela meiguice de olhar e sorrir, aquele falar baixinho que não fazia adivinhar a linda voz que ela tinha , ao cantar !

De imediato a apresentei à minha esposa que também simpatizou imenso com ela, e se fizeram grandes amigas, nunca mais se separando durante aquelas férias.

 

 
   

  Ela se havia casado e com um rapaz, também lá doente num sanatório, que não a queria mais ver a cantar e a ter de correr meio mundo, para conseguir sobreviver.  Assim, o seu casamento foi feito com a condição de ela largar a vida artística, e estava agora, só a fazer a vida de qualquer dona de casa.
  Nesta foto, está ela com uma mão debaixo do queixo, enquanto a minha esposa se entretinha sempre com as suas rendas e um olho na garotada.

  Quem ficou a perder, foram os irmãos, que não conseguiram adaptar-se a outros conjuntos musicais muito barulhentos, e nem me lembro de que viveriam, agora sem a sua Estrelinha, no meio deles.

  E agora, viúvo  e solitário, fico a pensar se ela ainda estará viva e livre… ERA BOM DEMAIS !
 

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Tuesday, February 24, 2009

E A CRIANÇA MAL PODIA RESPIRAR…

    

     “E a criança mal podia respirar”

  Crónica nº. 101 de 24 de Fevereiro de 2009
  e-mail   ct1dt@sapo.pt

   Como estudioso de electrónica, desde há imensos anos, e sendo um radioamador, com indicativo oficial, CT1DT, tinha de estar muitas vezes empoleirado no telhado da minha casa, a montar e estudar o comportamento de antenas.
   Para ter muitos contactos com os outros colegas radioamadores, eu sempre usei a banda dos 40 metros, ou sejam 7 MHz. banda muito útil e por quase todas as horas do dia e noite

   Um certo dia, apareceram-me umas dores no pescoço, muito incómodas, um torci-colo, e que não me deixavam voltar a cabeça para lado algum… mas como estava a estudar um circuito eléctrico numa placa do tamanho de um vulgar cheque de banco, e ao tentar ajustar a sua ressonância, escolhi um sítio isolado no meu corpo, uma perna, mas quando o circuito começava a aproximar-se do que eu procurava, a perna começava a aquecer e eu já estava a usar uma baixíssima potência do emissor, o que me fez enorme confusão, até porque já tinha lido muita coisa sobre diatermia, mas a medicina só usava potências enormes, da ordem dos 100 e mais Watts !
  Como diabo tão minúscula potência, me estava a amornar a perna ?  

   

   Dada a minha torturante dor do pescoço, lembrei-me de a colocar no sítio onde me doía, metida dentro duma capa de cheques, e ali fiquei, feito parvo, à espera de ver o que estaria a contecer, mas ao fim de 5 minutos, já farto de estar naquela posição, retirei-a, mas as dores haviam desaparecido ! Aquilo até parecia magia !
   Chamei a minha esposa que, há muitos dias, tinha umas dores na coluna, devido a uns esforços que havia feito e perguntei-lhe se gostaria de experimentar “a coisa”, pelo que ela, muito admirada de me ver já sem as dores no pescoço, logo se prontificou e se sentou ali ao meu lado, e eu lhe colocado a placa, na zona sacroilíaca, entre as cuecas e a coluna, durante uns 15 minutos. Qual não foi o nosso espanto, quando ela se refere a que as dores tinham desaparecido por completo e até levou as mãos ao chão, dobrando-se pela cintura, para me mostrar que o podia fazer agora, e sem dores…

   Este assunto tão interessante, levou-me novamente à leitura de várias obras sobre as Ondas Curtas na Medicina, que possuo, todas em espanhol, mas em todos os aparelhos, eles usavam dois eléctrodos, enquanto eu só usava UM.. Ou seja eles usavam bipolaridade, enquanto eu estava a usar unipolaridade, além de minúscula potência…

  Certo dia, uma vizinha me bateu à porta e trazia um livro de capa encarnada na mão e me disse:
 ”O Sr. Portugal, que muitas vezes vejo em cima do telhado com as suas antenas, e a trabalhar com ondas de radio, veja aqui escrito que, para a sinusite, coisa que me atormenta há imenso tempo, eles dizem que as ondas de radio funcionam muito bem”, e acrescentou: “O Sr. podia aplicar-me essas suas ondas de radio ? “ 

           
   
  Como eu já tinha feito os ensaios comigo mesmo e com a minha esposa, prontifiquei-me a fazer mais um ensaio com a Placa, tendo o cuidado de lhe solicitar que mal ela sentisse um ligeiro amornamento, me dissesse, para eu ainda poder baixar mais a potência do gerador de radiofrequência, o meu emissor das telecomunicações.
  Ao fim de 15 minutos, quando lhe retirei a Placa da testa, ela logo me disse: “Eu já sou outra e até respiro com muita facilidade e já nem tenho as dores de cabeça nem os olhos a chorar, nem o nariz a pingar…”
  Aquilo era bom demais, mas indiquei-lhe que devia voltar no dia seguinte, para fazer mais uma sessão.
  Realmente ela apareceu, mas já sem qualquer sofrimento, e dizendo que por estar tão bem, talvez já nem necessitasse de mais. 
   São passados muitos anos, pois isto ocorreu em 1980, e como encontro muitas vezes esta vizinha, sempre lhe pergunto como está, e a resposta é sempre a mesma : “Como nova”.

  

   Foi por esta altura, que estando de visita a um campo de aviação, vim a conhecer um jovem dentista que estava a aprender, como eu, a pilotar um avião ligeiro ULM QuickSilver, era casado com uma médica, que estava presente e dum miúdo muito simpático, o Joãozinho, mas com aspecto muito triste…

  ” Mas você quer ver-se livre dessa teimosa sinusite, com duas sessões ?”, perguntei-lhe eu.
   Como ele estava sempre com corrimento do nariz, e dores de cabeça, bem localizadas na testa, o que era péssimo para o seu oficio, dado estar sempre a necessitar das duas mãos, aceitou e nesse mesmo dia, que era sábado, ele me apareceu com a esposa e o miúdo.
   Os médicos, normalmente, não querem nem por nada ouvir falar de medicinas alternativas, e a Dra. ali estava ao meu lado, a assistir ao tratamento do marido, mas eu reparei que o miúdo estava com grande dificuldade em respirar… Quase só lhe faltava chorar…muito quieto e calado…cheio de medo…
  E vai daí, perguntei-lhe: “ Mas esta criança está mesmo com falta de ar !?”, ao que ela me respondeu que era um martírio, pois tinha de estar sempre com uma “bomba” à mão e muitas vezes haviam ido a um hospital, às tantas da madrugada, quando os ataques de falta de ar aumentavam, para lhe darem oxigénio…
  “E pior” , acrescentou ela, “é que não vemos forma de resolver este problema”.

   Como sempre gostei muito de medicina e acompanhado meu avô médico, logo desde miúdo, como já tenho contado várias vezes neste blog, perguntei à Dra. “A senhora permite-me que o ausculte ?”
   Embora com ar de muito admirada, e testa franzida, ainda me perguntou : “Mas o Sr. também sabe auscultar ?” , e
  Logo agarrei num dos estetoscópios que sempre tenho em casa, para medir a minha tensão arterial.

  Mas para meu espanto, ao ouvir o pulmão direito do garoto, onde podia ouvir a entrada e saída de ar, perfeitamente, no esquerdo, era silêncio total !  Não havia daquela criança estar tão aflita !
  E entregando o estetoscópio à Dra. a convidei para repetir as minhas medidas e ela logo confirmou que realmente aquele pulmão parecia parado…
  E perguntei à Dra. ” Permite-me que lhe aplique uns 2 W de ondas de radio e só dois minutos ?”, ao que ela respondeu que não via qualquer problema nisso e assim apliquei a Placa.
  O pai do miúdo já tinha feito a sua sessão e já se sentia “desentupido” e aliviado, quando se foram embora, mas eu fiquei desejoso de ver o como o miúdo se iria mostrar no dia seguinte, pois era Domingo e era uma experiência com uma criança de tenra idade.
 
   E assim aconteceu, voltando os três, no dia seguinte para uma segunda sessão do pai, embora estranhando muito o comportamento de calma do miúdo, já sem qualquer amostra de falta de ar, mas como os seus pais nada diziam, acabei por ir buscar o estetoscópio e vai de auscultar novamente o miúdo, já ouvindo lindamente o ar a entrar naquele pulmão esquerdo do garoto, agora activo uns 80 a 90 %. e voltei a entregar o estetoscópio à mãe para ela ver a diferença. 
  Aí perguntei-lhe: “Mas o miúdo tinha tido necessidade da “bomba” desde aquela sessão da véspera ?”   ao que ela respondeu que não só não a havia pedido e até tinha levado o resto da tarde e todo o dia seguinte, em correria e alegria pela casa, coisa que há muitos meses ele não poderia fazer, com ataques de falta de ar.  Ainda lhe pedi um raio-x daquele minúsculo tórax, mas embora a Dra. me dissesse que traria no dia seguinte, por qualquer motivo, que ainda hoje desconheço, não trouxe.
  
  Tive de esperar uns 5 anos, porque não tinha a sua direcção nem telefone, até a voltar a encontrar em consultas, noutra terra, e mesmo pelo telefone, lhe perguntei pelo miúdo, ao que ela me respondeu que nunca mais tinha tido falta de ar, havia crescido imenso, era muito bom aluno e até fazia desporto, sem se cansar. Estava curado !

  O entusiasmo pela diatermia feita com os pequenos emissores dos radioamadores, foi tal, que me obrigou a ter de construir mais de 400 Placas…mas ao chegar aos meus 80 anos, acabou-se a paciência e nunca mais construi nenhuma.

  Entretanto, e durante todos estes anos, vários médicos me apareceram para experimentar a Placa neles ou em familiares e sempre com magníficos resultados.
  Ainda hoje, sempre que o meu pulmão esquerdo começa a piar e a dar-me tosse, lá vão alguns minutos sobre a clavícula desse lado, e lá fico sem pieira, durante uma data de dias.

  Vai uma pessoa entender estas coisas…
 
 

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Sunday, February 15, 2009

MEU AMIGO JOÂO PEREIRA

  “MEU AMIGO JOÂO PEREIRA”
  Crónica nº.100 de 15/2/2009
  
   Todos nós temos pessoas que se cruzam na nossa vida e há algumas que sobressaem por algo nos dizerem muito de especial.  João Rodrigues Pereira, foi em deles.  Ele tinha uma figura interessante e até se parecia muito com o actor de cinema americano  Clark Gable.  
   Quando eu adoeci dos pulmões, em 1945, fui encontrá-lo e conhecer, no sanatório CENTRAL do Caramulo, lá para os lados de Tondela, e ele tinha tuberculose num rim.
   Felizmente que ele já estava em estado de cura e logo que me aconteceu o mesmo, nos colocaram na mesma mesa da sala de jantar, onde já estavam dois técnicos dos CTT, o Mário Martins, e o José Fonseca. 
  Naquela sala enorme, havia gente de todas as idades e profissões, mas eu era o mais novo.
  Talvez por eu ser uma pessoa muito extrovertida, logo chamei a atenção de alguns outros doentes, uns em melhor estado do que eu, e outros bem pior.
  
  Uma coisa de que eu gostava muito de fazer, eram caricaturas e havia ali, naquela malta toda, imensas para fazer.  Assim escolhi o que tinha uma cara mais fácil de caricaturar, o que os meus colegas da mesa, acharam imensa graça, porque estava mesmo parecida…
  Como o meu amigo João Pereira, tinha muita habilidade para escrever versos, logo iniciámos uma página que era colocada no painel da sala de jogos, com os seus versos e as minhas caricaturas.

  Este meu amigo João Pereira, era engenheiro Geógrafo, e toda aquela malta era casada, mas vivendo muito afastados das suas familias. Só eu era ainda solteiro.

 
  Nas mesas mais próximas, estavam também doentes, médicos como o Dr.Amaro da Silva Rosa, o desenhador Alvaro Caffer e Reno, e muitos outros, pintores, caixeiros viajantes, professores e sei lá, quantas mais profissões.

  Logo a seguir`ao almoço, onde nos tínhamos de apresentar da camisa, casaco e gravata, havia um espaço de tempo de quase uma hora, antes de termos de ir fazer as CURAS,  em que todos tínhamos de estar deitados numas camas estreitas de ferro, num alpendre, a apanhar os belos ares da montanha, sem nos deixarmos dormir e sem falar.
  
  Neste período de pausa entre o almoço e a CURA, o meu enorme quarto de dormir, era “Invadido” por estes amigos, embora fossem só uma meia dúzia dos mais selectos, mas como todos fumavam, quando dali saiam, era tanto o fumo, que eu tinha de abrir as janelas, para ele sair…

   Cada um falava das suas coisas, das saudades das esposas e filhos e se contavam anedotas, quase sempre bem picantes… 
   Toda a outra malta se juntava numa sala de jogos no outro extremo do andar, a jogar as cartas ou o dominó.

   Talvez, e não sei porquê, eu havia ficado no centro daqueles encontros mais ou menos ruidosos, mas também é certo de que era o maior quarto daquele sanatório, porque se havia curado o meu companheiro de quarto, o Isolino, e assim, eu estava com mais espaço disponível.
  Foi na época da foto que encabeça esta crónica, que me entusiasmei em construir uma estação de rádio “pirata”, muito pequena e sem conhecer nada de eletrônica, que a construi e pus a funcionar, mas os seus 2 ou 3 Watts, chegavam a quase todos os outros sanatorios.
  Naquele tempo, nenhuma outra rádio lá chegava, e depois das CURAS, eu ainda tinha uma hora disponível, para irradiar o meu radio. Depois entrava a funcionar o Radio Polo Norte, também montado no Caramulo, por outro meu amigo, o Joaquim Seabra.

Como no inverno, todos andávamos de fortes capotes pretos, mais parecíamos uns pinguins e daí o ter dado o nome de Radio Clube dos Pinguins, (RCP) à estaçãozinha de rádio.
  Como a energia eléctrica era fornecida por um grande gerador, à noite, a luz ficava tão fraca, que nenhuma telefonia conseguia tocar, mas como eu havia construído um elevador de tensão, já tinha energia para um rádio, e lá vinha aquela malta toda para o meu quarto, para ouvir as noticias, os discursos políticos, as rádio-novelas, a música e…fumar.
  
   Como ele não tinha filhos, vivia com uma pena imensa das crianças doentes e internadas do SANATORIO INFANTIL, ali mesmo atrás da Ermida e que era controlado por freiras, até porque havia crianças de colo e todas cheias de saudade dos seus pais.  Aquilo fazia mesmo pena !

  Um dia, em que havia adquirido um pequeno projector de cinema de manivela, ele me perguntou: E se mandássemos vir uns filmes de desenhos animados, para entreter os miúdos ?
  Aquela ideia também me apaixonou e começámos a fazer peditórios destinados aquele fim, por todos os sanatorios , pelo que se conseguiu o dinheiro suficiente para mandar vir os filmes, e comprar uns pacotes de rebuçados, para entregar aos miúdos mais disciplinados…
  Logo que chegavam os filmes, lá agarrava eu num tripé com o projector de 9,5mm, enquanto o João Pereira levava os filmes e os pacotes de rebuçados.
  A criançada ficava louca de alegria e nós os dois também.

  Depois de nos termos separado, porque ele se veio embora e curado, ainda lhe escrevi a dizer que estava a viver em Benavente, e ele me havia contado que estava a trabalhar nas medidas da Barragem do Alqueiva, em pleno Alentejo.
   Não me lembro porquê, às tantas perdemos o contacto um do outro e ele até pensou que eu tivesse morrido.

   Mas um dia em que um casal de Benavente, onde eu vivia, estava de férias no Alentejo, e no mesmo hotel do meu amigo, ele ouviu falar do meu nome e logo desejou fazer referência à minha pessoa, com ar muito contristado, por julgar que eu já não existisse, mas logo foi informado de que me conheciam perfeitamente e que já tinha casado com uma linda ribatejana e tinha 3 filhos !
   De imediato me apareceu de visita, acompanhado da sua esposa, a D. Carlota, e tendo passado a viver em Samora Correia, a 6 Km de Benavente, agora empregado na Companhia das Lezirias.

 

   E vivemos mais alguns anos, imensos fins de semana, até que ele começou a ter muita dificuldade de andar e vim a saber depois, que ele havia falecido de Parkison.

   Entretanto, este tão grande amigo, de há mais de 50 anos, nunca mais esqueci e dele me recordo imensas vezes, com imensa saudade. 
  
     

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Monday, February 9, 2009

AS MINHAS LINDAS “ALVAROZES ”

     ” As minhas lindas “ALVAROZES “
    Crónica nº. 99  de 10 de Fevereiro de 2009
    e-mail   ct1dt@sapo.pt

     O Sr. Agostinho, era o pai da minha linda tia Maria, e tinha sido emigrante nos EUA por muitos anos, trazendo de lá, já farto de trabalhar e ganhar algum, a sua filha, uma garota muito bonita e dócil, mais ou menos da idade da minha mãe, também nascida em 1902. 
    Esta minha tia Maria, era um encanto de pessoa, sempre pronta a rir e até cantava muito bem, a acompanhar-se das músicas americanas que a sua grafonola tocava em discos de 78 rpm, sempre tendo o cuidado de lhe mudar as agulhas, para que os seus discos não se estragassem.
    Aquela grafonola, devia ser única, nos Ginetes e ela não deixava que mais ninguém lhe tocasse…
    Ela teve dois filhos mais ou menos de seguida, o Eduardo (falecido no fim de 2008, e o Armando, e o mais velho, era até da idade do meu irmão Carlos Mar, e quando eu nasci, já eles tinham uns 3 anos.
   Só muito mais tarde, uns 20 anos, ela “emprenhou” , como se diz nos Açores, e até foi uma briga, porque meu tio Assis e seu marido, queria à viva força, que fosse um menina, mas naquele tempo, nunca se sabia o que dali viria daquela barriga, e minha mãe sempre lhe dizia, que isso de sexo, só a Deus caberia, mas meu tio logo ripostava , muito chateado, que ela nem pensasse em lhe parir, como por lá se dizia, outro rapaz…Tinha que ser uma menina !
  Toda a gente gozava com aquela mania de meu tio, mas o que é certo é que apareceu mais outro rapaz, o Alberto dos Reis Leça, hoje Vereador da Câmara Municipal de Ponta Delgada.
    
   Esta linda senhora, havia nascido nos EUA e lá educada, pelo que falava fluentemente o inglês e o português que sempre falava com seu pai. Ela  adorava música americana e até tinha de memória, as suas letras, sabendo lindamente cantá-las. Como ela tinha visto pessoalmente espectáculos ao vivo. até dançava enquanto cantava.

 
  
  Mesmo, após velhinha, mantinha aquele ar doce e sorriso que tanto me havia encantado em toda a minha juventude.

 

  Meu tio Assis, ficou tão chateado que até deixou de lhe falar por muito tempo… Aquilo é que ele ficou mesmo chateado, porque a diferença de idade dos filhos já crescidos, para a vista dele, aquilo mais parecia um neto…enquanto a minha mãe tinha dois rapazes e 3 garotas…
  Este meu tio era uma pessoa muito calada e até, nunca me lembro de o ter visto sorrir…nem muito menos, dar uma gargalhada…
  Embora tivesse duas espingardas, nunca o vi ir à caça, sendo uma de calibre 12 e uma outra linda, de dois canos, de 9mm , que eu adorava pegar ! Meu avô, que tinha imensa habilidade e treino de tiro, até me dizia que meu tio não tinha grande habilidade para aquilo…
  Como todos os rapazes da família, tinham aprendido a língua inglesa, ele não teve dificuldade em conseguir, mais tarde, entrar para a Armada, até porque além do inglês, que ele havia aprendido com a minha avó, e a seu mãe Maria, genuinamente americana, também falava fuentemente, ele havia aprendido Morse, o que lhe era exigido para a sua profissão de Director Semafórico do seu observatório marítimo, ali muito perto do imponente Farol dos Ginetes, mais conhecido por Farol da Ferraria.
   Daquele sítio, se abarcava todo o horizonte marítimo do Sul de S.Miguel e, quando era dia, e aparecia a léguas de distância, um navio qualquer de grande porte, ele tinha por obrigação comunicar com ele, para saber a sua nacionalidade, de onde vinha e para onde ia, além do que transportava.
  Algumas vezes, até conseguia ajudar os navios, com pessoas que lá se encontravam doentes e podia preparar a entrada dos navios em Ponta Delgada, para assistência médica imediata.
  Hoje, há os rádios, mas naquela época, ainda estava na sua infância, e só se podia comunicar a tão grandes distância, por meio de Morse por luz, ou com bandeirolas, uma em cada mão.
  Como ele ficava com as duas mãos ocupadas, tinha de memorizar, muito calado, os sinais que estava a receber pelo seu enorme óculo que estava seguro por um valente tripé. Depois, dirigia-se para a sua chave de Morse, e comunicava para o seu Quartel General, o acontecido, alem de registar no seu livro diário.
  Todos nós, os rapazes, quase todos da mesma idade, em que eu era o mais novo e ainda estava na Escola Primária, enquanto as minhas irmãs ficavam em casa a brincar com as suas bonecas ou a estudar francês com a minha avó, ou a estudar música.
  Aquele observatório do meu tio, ficava um bocado longe e tínhamos de ir a pé, mas aqui e ali, lá nos íamos alimentando de amoras silvestres e “rebuçados” , além de bebermos água fresquinha, que brotava aqui e ali, das grotas sempre frescas.

  
  
  Infelizmente, não possuo nenhuma fotografia do Observatorio onde trabalhava meu tio, mas aquilo era um largo cimentado e circular, tendo ao meio um enorme mastro de navio, por onde meu tio fazia içar certas bandeiras que estavam muito bem guardadas, e à vista, numa casinha pequena, logo seguida dum outro compartimento onde se encontrava a aparelhagem de medida, como higrómetros, barómetros, medidor da força do vento, termómetros. etc. etc. além duma secretária onde ele “clicava” em código Morse, por linha telefónica, todos os dados para a cidade de Ponta Delgada, para a Capitania.
  Talvez que, devido aos horários da Armada, ele nem tinha tempo para sorrir, e sempre foi uma pessoa muito soturna .
  Mas havia alguns períodos em que não havia trabalho e já podíamos brincar por ali à volta ou/e a fazer-lhe perguntas.
  Um dia, quando lhe perguntei o porquê de haver tantas “cordas” naquele mastro, ele sempre dizia que, em marinha, só havia cabos e que só havia dumas cordas; a do sino e a do relógio…
  Meu irmão Carlos Mar, é que não perdia toda aquela azáfama das transmissões do Morse e aquelas agitadas operações das transmissões com as bandeiras. Talvez por isso, muitos anos mais tarde, em Angola, em 1940, ele veio a construir o seu Observatório da Mulemba, muito ligado à NASA.
  Em 1976, foi assassinado por malvadez militar.

  Meu primo Eduardo, estava mais entusiasmado com os faróis, o poder acompanhar os faroleiros até ao seu mais alto andar, onde estavam os sistemas de rotação dos espelhos, as fortissimas luzes, e a “corda” que os faroleiros tinham de carregar, com uma bruta manivela e muita força de braços.
 Esta “corda”, não era mais do que um brutal peso que estava pendurado desde lá de cima, até ao rés-do-chão. Fiquei muito orgulhoso , aqui ha poucos anos, quando o Almirante Duarte Lopes, radioamador CT1VV, me envia uma revista da Armada onde, na sub-capa, se mostrava e foto do Farol da Ferraria e se fazia a alusão a uma descoberta deste meu primo Eduardo Reis Bettencourt Leça, de um sistema electrico que tinha vindo resolver o trabalho da recarga da “corda” dos faróis.
  Talvez por este motivo, ele tenha vindo a ser faroleiro em toda a sua vida, mas ele, assim como todos os outros faroleiros, tinham de andar sempre a mudar de casa, à volta da ilha de S. Miguel, para dar assistência aos imensos faróis existentes, em que alguns estavam implantados em rochedos incríveis, com o Oceano Atlântico sempre a bater-lhes, o que só pessoas mesmo intrépidas podiam fazer, para transportar os pesadíssimos bidões de combustível de barco a remos, e retirá-los para os rochedos, ficando normalmente, completamente encharcados ! Aquilo é que era um ofício chato !!!!
  Ele sabia que havia outros faroleiros fixos, mais graduados, onde podiam ter as suas famílias, mas isso exigia uma preparação técnica que ele não possuia ainda; a electrónica.
  Já perto do fim da sua vida, e a esposa com um cancro na cabeça, ele me pediu para lhe ensinar muitas coisas sobre electrónica, para poder fazer exame e subir na carreira, o que felizmente conseguiu, embora sua esposa falecesse pouco tempo depois.
  
  Mas voltando um pouco atrás, aquele Sr. Agostinho, que era uma pessoa forte mas muito calada, quando o tempo chovia, ele se entretinha a responder por carta, aos seus amigos do EUA, e eu ficava extasiado a vê-lo escrever ! Aquilo era tão lindo de ver…até porque ele rodeava as letras maiúsculas, duns floriados muito belos e todas as letras eram escritas com imensa perfeição !
  Eu nunca havia visto uma pessoa escrever assim, e aquilo era lindo de ver !
  Ele ali estava na mesa da cozinha, enquanto a minha tia Maria estava a fazer os seus trabalhos domésticos e assim que cozia pão de milho, sempre nos guardava uns pãozinhos de farinha de milho, com açúcar, porque sabia do quanto eu gostava deles.
  Eu julgo que toda a casa tivesse sido feita por ele, e do lado de trás, havia um aumento para uma casa de banho e o lavadouro manual  da roupa.
  Mas a sua casinha, até tinha sala e tudo muito limpo, mas era raro entrarmos nesta sala, não fossemos levar terra nos pés, lá para dentro…
  Não sei porquê, nunca ouvi lá falar do que havia sido o seu trabalho nos EUA, mas uma coisa era certa, ele havia trazido de lá, uma data de ferramentas que tinha guardadas e muito bem fechadas, no sótão da sua casa, sítio onde dormiam os meus dois primos.
  Ainda me lembro que no dia da matança do porco, a tia Maria lá nos metia a todos para dormir, o que dava sempre, um tremendo forrobodó, com aquela mistura de rapazes e meninas.
  A sua casa era modesta, e pequena, mas muito aconchegante, além de ter imensas coisas por ele construídas, pois era uma pessoa que estava sempre ocupada a semear, plantar, colher, guardar, a construir mobília, e até havia comprado uma terrinha, onde fazia a cultura de certos frutos e tabacos que depois, em casa e com as folhas bem secas, fazia um molhe bem apertado, como se fosse cortar couves para um caldo verde, e numa maquineta do tipo de corta-bacalhau, por ele construída,  “migava” o seu tabaco, que enrolava nas mortalhas, para poder fumar.
  Quando ele estava a fazer este trabalho, tinha de abrir o seu “esconderijo” das ferramentas, por onde eu podia espreitar as suas lindas ferramentas…todas muito bem arrumadinhas e limpas…
  Mas quando ele tinha de fazer qualquer obra de carpintaria, ele vestia umas calças azuis, cheias de bolsos, e que eram a minha adoração ! Ele dizia que se chamavam  “over trousers”, mas como aquela palavra era muito difícil de pronunciar, para mim, eu lhes chamava de “Alvarozes”…
  Aquilo eram as calças que eu mais adoraria possuir, não só porque eram compridas, mas a minha mãe é que foi difícil de convencer…
  Mas um dia, tanto a chateei e beijei, que ela foi comprar ganga azul e lá me construiu as minhas adoradas “alvarozes”, onde metia nas algibeiras, toda a tralha que necessitava para brincar, como um canivete para construir com um galho apropriado, em forma de “Y” , as muitas fisgas que ia construindo.

   Talvez que o  trabalho profissional  do Sr Agostinho, nos EUA, fosse de muita exigência mecânica, e como nesta foto, talvez pudesse ser ele, com as suas “alvarozes”, a mais de 100 metros de altura…

   

  Hoje estas “alvarozes” são muito usadas pelas garotas e na ilha da Madeira.
  Acho uma certa graça, que após passado tanto tempo, a TVI tivesse ido fazer uma telenovela intitulada “Flor do Mar”, a esta ilha, onde tudo anda à volta duma garota rica, que emprenhou dum rapaz pobre, sempre vestido de “alvarozes”, e que foi abandonar a sua filhinha, à porta da casa do seu pai.

   Como o Sr. Agostinho sempre tinha sido mecânico de qualquer coisa, nunca me lembro de o ter visto naquela casa cor-de-rosa, onde eu nasci e me criei, até ter de sair de S.Miguel, para estudar no Continente, em Lisboa, embora a sua alegre casinha estivesse ali a menos de 100 metros de distância.
  Hoje tenho pena dele não ter ficado mais acarinhado e até, devido ao seu feitio acanhado e reservado, nunca o vi junto das pessoas que todos os anos visitavam a casa cor-de-rosa.
   Era gente “fina demais”, para seu gosto…

 

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Sunday, October 12, 2008

E O VAPOR AGUENTOU-SE…

 

  Artigo Nº.98 de 12 de Outubro de 2008
  E-mail   ct1dt@sapo.pt
 
  Esta crónica, devia estar inserida no artigo que escrevi há tempos e intitulado “Amanhã já não tens avô”, em Junho do Ano passado, pois foi o que aconteceu no dia exacto do seu falecimento e, porque já tinha a viagem comprada de navio, de S.Miguel para Lisboa, nem me foi possível assistir ao seu enterro.
  Era realmente, um dia tristíssimo para mim, mas essa viagem não podia ser adiada, porque não podia mesmo, até porque tinha de estar no Continente, para entrar na Escola Industrial Marquês de Pombal, onde já estava matriculado.
  Eu só conseguia recordar a sua expressão sorridente, com a sua cara deitada sobre a sua mão esquerda, mas já falecido.
  Aquela impressão de que nunca mais veria aquele meu adorado avô que tanto carinho me havia dado, fazia-me doer e muito a alma…
  Até fiquei com a impressão de ele estava à espera daquele dia, para se despedir de mim.
  Eu só tinha 16 anos, mas sempre vivi muito agarrado àquela simpatia, àquele carinho que só um avô pode dar a um neto e ele sabia que nunca mais me poderia acariciar nem me ensinar o tanto que sabia, nem me ouvir a ler as notícias dos jornais, ali deitado ao lado dele, na sua cama, embora só recostado, como num sofá.
  Como não havia luz eléctrica, ali estava eu horas e horas a ler-lhe as notícias, à luz dum candeeiro de carbureto, que todos os dias era carregado pelo empregado, o Sr. Manuel que, além de ir buscar água numa carrocinha de mão, também tratava de manter o seu carrinho Austin-7 impecável, além de fazer as cobranças anuais das avenças, vinte escudos que cada agregado familiar entregava ao médico, para ter direito a assistência médica em todo o ano, fosse uma ou uma dúzia de pessoas…
  Antes disto, eu lhes escrevia do Continente, cartas enormes a descrever como estávamos a viver, das nossas dificuldades e falta de dinheiro…
  Foi a este propósito, que escrevi neste blog, o artigo ” Um açoriano abandonado em Lisboa”, em Fevereiro de 2007.

 Sair e entrar nas ilhas açorianas, naquele tempo, só de navio e haviam vários.
 Eram necessários 3 dias de viagem, sendo 1,5 até à ilha da Madeira, e outro tanto, da Madeira ao Continente.

 Assim que o navio se pôs ao largo, até parecia uma lagoa, quase sem ondulação, e ali íamos direitinhos à Ilha da Madeira, onde ele teria de ser carregado de bananas, anonas, uvas, maracujás, etc.
  Comigo, iam outros rapazes, mais ou menos da minha idade, também para estudar no Continente e como o vapor ia carregado de gente, tudo servia de graça e toda a gente se ria por qualquer coisa, embora fôssemos todos na proa do navio, onde há mais balanço, e por isso é a 3ª.Classe.
  Como não havia balanço, até parecia que íamos num paquete de luxo, não fora o termos de dormir nos porões, por não haver mais beliches disponíveis !

  Eu devia ser o passageiro mais triste que ali ia, e até um tanto ridículo, porque na véspera do falecimento de meu avô, ele me havia pedido para levar comigo a sua viola, uma linda peça de música, de que eu já sabia todos os acordes e afiná-la.
  Mas a minha tristeza era maior do que ter à mão aquela viola, e sem coragem para a agarrar, embora a malta protestasse de eu não a tocar…
 Mal sabiam eles de onde vinha aquela viola, e a razão porque eu não lhe tocava.

 Como o mar estava imensamente calmo, quase todos os passageiros da 3ª. classe, se encontravam debruçados na amurada, da proa, a verem imensos golfinhos , como a tentarem andar mais depressa que o navio…

  No dia seguinte, ainda era quase noite, começámos a ouvir uma certa algazarra, porque alguém já sabia que devia estar a terra à vista e vai tudo de se levantar, até porque para muitas pessoas que lá iam, era a primeira vez que iriam ver terra, de bordo de um navio e isso era uma situação empolgante !
  Para mim, já era a quarta vez que cruzava o Oceano Atlântico entre os Açores e o Continente, pelo que nada daquilo já me interessava, mas realmente o ver-se terra, tem sempre um certo mistério, pois ao contrário do que se poderia pensar, não se vê uma ilha na penumbra, lá muito longe, mas sim umas casinhas colocadas entre as nuvens, uma aqui, outra ali…a centenas de metros de altura !
 Para toda aquela gente, que tinha a sua primeira viagem, eram gritos de alegria ao descobrir ; olha ali outra…e outra ali mais abaixo…olha tantas no Céu….
 Uma neblina teimosa, bloqueia toda a visão, mas como os navios iam direitos à ilha, de hora a hora, cada vez aparecem mais casas que se perdem pelo céu a dentro, a perder de vista, por entre as nuvens…
  Ou seja, nós já estávamos muito perto da ilha, e só aquelas casinhas no céu se podiam ver, mas mal nos aproximamos mais, e a neblina desaparece, estamos somente a umas centenas de metros de terra, e até dá a impressão de que o navio vai entrar de proa pela terra a dentro…
  Chega tão perto, que se podem ver as pessoas e os carros a andar, os pequenos barcos de pesca, todo aquele imenso verdejante florido que entra pelo céu a dentro, como se a ilha não tivesse fim, em altura !
  E sente-se na pele o que teriam sentido os marinheiros das nossas caravelas, ao avistar terra !.
  Mas, subitamente, o navio roda 90 graus e vai a acompanhar a costa da ilha, até num repente, se entrar na baía do Funchal e se poder assistir à azáfama da sua população com a nossa chegada.
  De terra vem um aroma imenso de flores e frutos exóticos, inebriante.
 
 Num repente, nos vemos acompanhados de imensos barquinhos minúsculos, com duas pessoas, um adulto que rema, e uma criança de tenra idade, que vai em pé na proa, que se atira à água, depois de ver que alguém de bordo, lhes atira moedas e que eles num repente, enquanto elas fazem zig-zag nas águas cristalinas, eles as agarram, metem na boca, e voltam para o seu barquinho, mostrando ufanos, que as conseguiram agarrar, esperando cada vez mais moedas e assim acontece durante uma boa hora, enquanto o navio se encosta à doca.
  Chega a ser impressionante o tempo em que aquelas crianças tão jovens de 5 e 6 anos se aguentam sem respirar, e a ir buscar as moedas. E chega-se a ficar preocupado…
  Aquilo é especialmente emocionante, porque estando a água tão transparente, se pode ver o trabalho daquelas crianças, e a sua habilidade para nadar a tão grande profundidade, pelo que os passageiros do navio, acompanham estas proezas e mal eles chegam cá a cima, atiram mais e mais moedas, cada vez mais valiosas, e eles lá voltam a mergulhar continuamente…

  Depois do navio encostar, é toda a azáfama de ir visitar a aromática cidade do Funchal, esbarrando com imensas pessoas a quererem vender cachos e cachos de bananas lindas, por poucos escudos, e cestos de fruta pronta a comer de tão madura e aromática.
  Mas depois dumas horas em que podemos visitar terra, o navio apita e lá vem toda aquela gente, tanto passageiros como vendedores de lembranças e fruta, cada vez mais barata, e é ver um caudal de cachos enormes de bananas chamadas “de prata”, por serem gordinhas, muito doces e aromáticas, às costas dos passageiros, convencidos de que as podem trazer até ao Continente e presentear as suas famílias, além de terem fruta para imensos dias…. 

 E acabou a festa, já quase de noite, quando o navio se põe ao largo, agora carregadíssimo de paletes de cachos de banana enchendo os porões, e o convés, mal deixando um cantinho onde a malta se possa deitar para dormir um pouco.
 Mas agora, o caminho é outro, pois temos de aproar a uma outra ilha, Porto Santo, a caminho do Continente, mas naquele dia, apanhámos um temporal dos diabos, em que ninguém se aguentava em pé, a não ser às ombradas contra as paredes e toda a gente a vomitar, gritando para que a rapaziada lhes tirasse da frente os cachos de banana, e as caixas de maracujá, e as belas uvas, e as anonas, etc. etc. e que assim vão desaparecendo das portas dos camarins, embora ninguém se atreva a levantar dos beliches, tais são os balanços !
  
 Eu já tinha apanhado mar mexido, mas aquilo era demais !
 Mesmo com a proibição de se sair na proa, eu ainda me consegui esgueirar e fugir para a ré, subindo os degraus que levam para junto da chaminé, onde se podia apreciar a robustez daquele navio, a tentar não se transformar em submarino, mas metendo toda a sua altíssima proa pelas enormes vagas frontais, entrando toneladas de água por cima da proa e convés, para logo a seguir, subir uma nova vaga, subir, subir , até já com ela toda livre, e quase metade do navio sem água por baixo, voltar a enfiar-se pela nova vaga a dentro, estremecendo de proa a popa, num estrebuchar violento dum monstro, que perecia estar a guerrear, para não morrer sufocado…

E toda a noite foi assim, até que tudo acalmou e lá fui para o porão da frente, deitar-me um pouco, no meio duma tremenda confusão de caixas de banana espalhadas por todos os lados…
 Só ao acordar, é que todos estranhámos que o navio estava todo de lado… Que coisa estranha, quase a emborcar-se…numa posição realmente ridícula para um navio daquele porte…
 Quando chegámos cá fora, é que vimos o porquê daquela situação;  é que as grades de caixotes que vinham no convés, tinham deslizado todas para o lado esquerdo, desequilibrando imenso o navio!!!
  Estávamos à entrada do Rio Tejo e o navio parado, todo tombado, numa figura realmente ridícula !
  E ali estivemos horas e horas, à espera que nos viessem rebocar, qual navio pronto a emborcar-se, mas o vapor, se aguentou !

 Quem hoje se faz transportar de avião, não faz a mais pequena ideia do que era uma viagem de barco, o encanto de pensar nas caravelas, nos descobrimentos, nem as paisagens que se podem ver durante horas, enquanto os navios vão andando até entrarem no porto do Funchal.
 E só dão pelo intenso aroma da ilha, quando saem dos aviões, mas muito longe da cidade do Funchal, das suas gentes e das habilidades daquelas dezenas de crianças alegres e corajosas, que se atiravam à água na ânsia de ganhar mais umas moedas.
  Na realidade, uma viagem por mar, à ilha da Madeira, onde meus avós nasceram e se criaram, era das coisas mais emocionantes por que uma pessoa pode passar.
 

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Tuesday, September 30, 2008

A FADA DO MEU LAR

 

  Artigo nº.97 de Agosto de 2008
  e-mail  ct1dt@sapo.pt

    Mesmo após tantos anos, da minha esposa ter falecido, não há um Natal, em que não me lembre dela, aquela mulher que tanto se esforçou, por me dar felicidade, durante quase 50 anos, de casado…
   Na realidade, tivemos uma vida um tanto difícil e sempre com dificuldades financeiras, para podermos acompanhar os nossos 3 filhos a terem uma vida saudável , feliz e simplificada.
   Mesmo agora, com 81 anos, mesmo um tanto longe dos meus filhos que sempre têm as suas vidas diferentes e os seus Natais especiais, eu sinto e julgo que sempre sentirei a sua falta. Ela era bem a minha outra metade…
   E é nestas datas, em que mais recordações me vêm ao espírito, aquela azáfama da véspera, aquela quantidade de doces que ela sempre fazia, a contar com todos os filhos, além duma velhinha, a sua avó materna, que esteve a viver uma data de anos na nossa companhia, e de que já falei naquela crónica recente, e intitulada ” Senilidade…coisa estranha…”.
  Verdade seja dita que, talvez por nunca termos vivido com abundância de nada, nem eu, nem os meus filhos rapazes, fomos atraídos por andar à procura de prendas, mas bem pelo contrário, a minha filha Antonieta, era ao contrário, tal e qual a mãe, e vivia todo o ano à procura de alguma coisa a que todos achassem graça naqueles dias 25 de Dezembro e, ainda todos de pijama, nos reuníamos na sala, para ver o que nos teria calhado de oferta.
  Nós, os rapazes, raramente conseguíamos descobri algo para aumentar aquela enorme rima da embrulhos e caixas coloridas, não tanto pelas despesas que teríamos de fazer, mas por falta de habilidade, embora sempre esperando que alguém se tivesse lembrado de nós…
  Mas era emocionante ver aquela pilha de presentes amontoados, à espera que a minha esposa começasse a ver os nomes que estavam escritos em cada embrulho e assim, sempre havia presentes para toda a gente, coisas sempre baratinhas, pois como ela só trabalhava em casa, tinha todo o comando nas verbas que eu ia recebendo todos os meses, de ordenado, e lhe entregava totalmente, pois já sabia que ela teria o cuidado de reservar alguns tostões para os meus cigarrinhos e alguns litros de combustível para o nosso velho carrinho.
  E sempre ficávamos deslumbrados com as coisas que ela descobria, sorrateiramente e ia guardando ao longo do ano, para aquele dia festivo, tudo bem escondido nos armários.
  A gente não necessitava de dizer se precisava disto ou daquilo, porque ela até sabia melhor do que nós e já andava a procurar no mercado os seus preços, para as adquirir em conformidade com as suas possibilidades financeiras, para não por em perigo a nossa alimentação, educação, a renda de casa, a água, a luz, o telefone e algumas roupas mais necessárias.
  Ela tinha a habilidade de ter tudo na mão, adaptando os fatos dos mais velhos, para os mais novos, e embonecando a nossa casinha com imensos bordados e rendas lindíssimas, que nós íamos vendo crescer dia a dia, todo o ano.
  
  Recordo aqui, que em certa altura, ela se havia queixado de que o relógio despertador, a que ela dava corda todos os dias, sempre estava na sua mesa de cabeceira, e fazia muito barulho com o seu tic-tac constante, durante a noite, e resolvi ir à procura de um mais silencioso, para lhe oferecer num Natal, o que consegui e muito bem embrulhadinho, o fui guardar dentro das minhas tralhas, longe da vista dela.
  Mas no profundo silêncio que existia à volta daqueles armários, ela estranhou um tic-tac e tanto procurou, que foi encontrar o bonito embrulho onde ele estava e logo pensou…cá está o relógio que ele me vai ofertar pelo Natal, mas calou-se muito calada e matreira…
  Esse relógio era um despertador amarelo, realmente muito silencioso e, como todos, possuía um “cabelo” agarrado ao seu volante, para lhe manter o movimento de vai-vem.
   Por graça, às tantas eu lhe dizia:  E é amarelo…. e ela sorria, simplesmente…gozando…
   E é redondo…é ela sorria…
  E tem cabelo…. e ela sorria, enquanto eu julgava que ela nunca mais saberia do que eu estava a falar.
  Até que chegou o Natal e ela na mesma sorridente, depois de ver o relógio, me disse que já sabia, porque um dia, tinha ido à oficina dos meus brinquedos e havia ouvido o seu tic-tac…, mas beijou-me agradecida, na mesma.  É engraçado recordar que esse mesmo relógio, continua sobre a sua mesa de cabeceira, parado desde o dia em que ele faleceu…há já uma data de anos…
  Aquilo era um dia de beijos para toda a gente e a cada prenda que era desembrulhada, a expectativa de cada um na sua descoberta, a alegria imensa de poder receber uma prenda tão desejada.
  Qualquer coisinha que nos calhasse, já era uma festa, nem que fosse um lenço ou uns peúgos !
  Mas a minha filha Antonieta, essa era demais, pois até ia comprando coisas para ela, durante o ano, na mira de ter mais uns embrulhos para abrir e fazia uma grande festa…ao abri-las…
  Nós, rapazes, nunca sabíamos de quem vinham tantos presentes.

  Quando apareceram as panelas à pressão, eu havia ficado deslumbrado, pois sabia que estando a água à pressão, aumentava muito a sua temperatura, e por isso, se podia cozinhar mais rapidamente.
   Ainda eram raras no mercado, mas eu consegui uma e vai de ser mais uma prenda para a minha esposa, embora lhe notasse umas certas reticências, quanto ao seu uso…não fosse aquilo explodir… mas um tanto contrafeita, vai de colocar-lhe tudo o que necessitava uma boa sopa de feijão e lá a colocou ao lume.
  Mas mal a água começou a levantar a válvula e a fazer pxi pxi pxi, ela largou tudo e fugiu da cozinha, cheia de medo, espreitando de longe, não fosse aquilo fazer PUMMMM ! Estava mesmo apavorada !
  Ela não acreditava muita nestas coisas, ditas modernas e ficava sempre de pé atrás…
  Claro que eu logo entrei na cozinha e reduzi o lume, até porque só interessa um leve pxipixi, indicando que a pressão está a 2 Kg, ou sejam 200ºC…julgo eu.
  Depois, ela desejou ver se já tudo estaria cozido e houve que a abrir, pelo que vendo que ela não tinha coragem, lá fui levantar a válvula e depois de baixar a pressão a zero, fui colocá-la debaixo da torneira da água fria, para a poder abrir, o que ela acompanhou e, a partir dessa data, até ao fim da sua vida, sempre usou panelas de pressão, que em várias festividades, eu sempre ia conseguindo comprar e assim ela ficou a possuir umas 3 ou 4, que ainda hoje existem.

  Em todos os Natais, a minha esposa fazia um grande alguidar de velhoses, aquela massa de abóbora, que é fermentada durante muitas horas e depois de crescida, se põe a fritar ao lume, em pequenas bolas,  e depois é polvilhada com açúcar e canela. Aquilo era realmente, uma delícia !
  Como éramos muitos, tinha de fazer sempre uma boa quantidade e as ia guardando num armário.
   Como disse há bocadinho, estava connosco, aquela velhinha simpática a D. Rosa,  que se juntava a nós no abrir das prendas, e sempre recebia coisas de que necessitava, rindo, agradecida por se terem lembrado dela.
   A sua alimentação, tinha de ser muito especial, praticamente sopa de legumes e sopas de café com leite, além de uma peça de fruta, coisas que ela pudesse comer e trincar com as gengivas, pois dentes é que já não tinha há muitos anos.
   Mas na véspera daquele Natal, ela caiu à cama e até nos parecia que iria morrer a qualquer instante…
   Muito quieta e pálida, mais parecia uma defunta, enquanto a minha filha muito amargurada, andava à sua volta a pedir-lhe para não morrer nesse dia e esperasse para depois do dia 26, para não estragar a sua festa.  Mas a velhinha, ali continuava, de olhos fechados, e sem dizer palavra, só respirando!
   Todos estávamos muito tristes, pois ela já tinha imensa idade e não entendíamos o porquê de ela estar assim a passar-se, mas ao fim do dia 24, ela abre os olhos e sorrindo, muito matreira, nos diz que esteve muito agoniada, com a quantidade de velhoses que, à socapa, ia roubando das travessas das velhoses…
  Felizmente que as suas aflições passaram e no dia 25, já estava pronta para receber as ofertas e voltar às maravilhosas e fôfas velhoses que a minha Alice sabia fazer como ninguém.
  
  

  
  
  
   
   

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Friday, August 29, 2008

senilidade…coisa estranha…

 Artigo Nº. 96 de Agosto de 2008

 Nota:

  Os 95 artigos escritos anteriormente, estão indicados em Julho de 2007, na lista da direita.

Em caso de dificuldade, pode escrever-me para  ct1dt@sapo.pt

   SENILIDADE…COISA ESTRANHA !!!!!!

   Aqui há muitos anos, tive o prazer de ter na minha casa, uma avó da minha esposa, que por ter ficado afastada dos seus 5  netos, estava a viver sozinha na sua casa, embora tivéssemos encontrado uma jovem que até podia ser filha dela, que a ela se dedicou, mas não podia estar as 24 horas de cada dia.

 E o pior, é que todos os seus netos, desejavam ver-se livre dela, nem que fosse pelas suas férias, mas o que é certo é que ela ficava sempre em casa, dizendo que ali é que se sentia contente, rodeada das suas coisinhas.

 Mas quando chegaram os 80 anos, chegámos à conclusão de que ela teria mesmo de vir viver connosco e, como havia um quartinho disponível, lá a conseguimos trazer, embora notando que ela mais desejava que fossemos nós a ir para a sua casa, em vez de ela para a nossa…

 Claro que isso era impossível, porque ela vivia numa casa muito antiga e sem comodidade alguma, mas foi nela que nasceram todos os seus netos e a sua única filha.

 A velhinha, aquela Rosa Agrieira, tinha muita piada e era muito esperta, muito atenta a tudo o que se passava à sua volta e sempre pronta a ajudar de quem dela se aproximasse, mas os netos estavam todos espalhados pelo país e dois em Inglaterra, pelo que a única disponível, teria de ser a minha esposa, até porque o gosto pelas férias, já se tinha atenuado, com o afastamento dos nossos filhos, e assim não fazia grande sacrifício em ficar constantemente com ela.

 Passado pouco tempo de ela estar na nossa companhia, começou a queixar-se muito dumas dores nas costas que não abrandavam em qualquer posição, nem de dia, nem de noite…

Segundo o seu médico assistente, Dr. António Ventura, ela estava cheia de bicos de papagaio, mas como tinha uns bons pulmões e coração, teria que inevitavelmente, sofrer daquelas dores, até porque já sabia desde há muito, que o seu estômago não aguentava qualquer analgésico. Quando ele ia a sair de nossa casa, ainda lhe perguntei:  “Então vamos abandonar a velhinha ao seu sofrimento ?”, ao que ele respondeu:  «E ela vai ter muito que sofrer, porque com aqueles pulmões e coração, está para durar..:”.
 E fiquei a cismar, pois já tinha lido umas coisas sobre Ondas de Radio ou Diatermia, e era coisa que eu poderia fazer, por ter a profissão da electrónica e ser radioamador com indicativo CT1DT. Mesmo com esta ideia na cabeça, falando pela radio com outro médico amigo, Dr. Fragoso de Almeida, também radioamador, como eu, mas com indicativo CT1PK, , ele me disse que dada a sua idade tão avançada, provavelmente não daria nada, mas se não fizessem bem, mal não faria…
 Foi quanto bastou para eu entrar de imediato na construção dum gerador de ondas de radio e ao aplicar as suas placas nas costas da velhinha, logo verifiquei que ela tinha lá um grande alto, mesmo no meio das costas e muito doloroso. Assim, coloquei uma placa acima e a outra abaixo, e ajustei a potência até ela dizer que já estava morninho…e assim ficou durante 15 minutos.
 Mas, ao fim deste tempo da aplicação da Ondas Curtas, ela que tinha sido levada ao colo, por mim e minha esposa, toda encolhida e gemendo com as dores, não desejou ajuda e, realmente se levantou da cama onde tinha feito o tratamento e muito direita, só dizia:  «Isto é milagre…é milagre, só pode ser milagre…», e lá foi pelo seu pé, para o seu quartinho, tendo-se assentado num confortável “maple” e pegado numa costura que já estava parada há muito tempo, pondo um lenço branco sobre o seu cabelo já muito branco, por causa do Sol.
 No dia seguinte, fui convidá-la para fazer uma segunda sessão, mas ela até respondeu que já nem necessitava… mas lá foi pelo seu pé e se colocou de lado, para fazer a nova aplicação.
 Para nosso espanto, aquele inchaço havia desaparecido por completo e como ela era magrinha, até se podiam contar agora, as vértebras.

 Mas eu sempre estranhei que ela só se alimentasse de sopas de café com leite, fazendo sopas com pão integral e não queria mais nada…a não ser um fruto qualquer…
 A minha esposa é que me contou que aquilo já era a sua alimentação, desde há mais de 30 anos, desde que havia descoberto que aquela dieta experimental, não lhe provocava as tremendas dores de cabeça de que vinha a sofrer desde há muitos anos…
 Mas certo dia, a velhinha aparece com vómitos e mais vómitos e só se viam coisas negras a sair pela boca, pelo que a minha esposa logo descobriu a malandrice… Ela tinha ido ao alguidar das azeitonas, e como já não tinha dentes, sem que ninguém desse por nada, ela as ia papando, e cuspia para dentro do alguidar, os caroços, para que ninguém soubesse ! Aquilo é que ela era uma velha marota…
 Isto descobriu minha esposa, porque, ao chegar ao fim das azeitonas, estavam lá uma data de caroços…
 Não havia ela de estar aos vómitos…mas sempre negando que se tivesse atirado a elas…

 Mas já para cima dos 90 anos, a velhinha começou a dizer que via procissões a andar pelos cortinados do seu quarto e os meninos e o Sr. Prior…e outras vezes, eram touradas e cavalos…e danças…
 Como seria aquilo possível, pois ela interrompia a conversa normal, que estava a ter connosco, para se referir ao que estava a ver e depois ria-se e dizia: «Isto deve ser da minha cabeça, porque realmente, não pode ser…»
 Segundo conversa com os médicos, ela estava a ficar senil e isso era normal, quando algumas pessoas chegavam àquela idade.
  Um dia, ia eu a passar em frente à sua porta, ela me chamou, pedindo-me para chamar a mãe daquela menina que estava ali mesmo, a chorar pela mãe…
  Oh pá, aquilo era demais, pois não havia qualquer criança nem ali nem na casa, e pedi-lhe para me indicar onde é que essa menina estava, pelo que ela logo me disse; «aqui, aqui, », mas quando eu passei a mão pelo sitio, para lhe mostrar que não havia ali criança alguma, ela me disse; «ela fugiu para trás daquele móvel…»
  Mas o que diabo eu poderia fazer ? Aquilo é que estava mesmo ali, uma açorda !!!
  Mesmo assim, e porque o móvel não era muito pesado, ainda o afastei da parede para ela ver que não estava lá ninguém, mas a velhinha se mostrou um tanto amargurada, por eu não a ter visto e até me pareceu chocada, tal era a certeza de que a havia visto e até feito festas à criança…prometendo-lhe que iria procurar a sua mãe.
  Aquilo só poderia ser um curto-circuito cerebral, entre a sua memória actual e a antiga, em certos períodos de tempo. Eu já havia ouvido falar daquilo, mas estar na presença da pessoa, é que nunca !
  Se fosse hoje, talvez ainda experimentasse as mesmas Ondas Curtas…

  Noutra altura, ela me chamou para me mostrar, muito envergonhada, puxando um niquinho a sua enorme saia, como tinha inchado um joelho e isso lhe dificultava imenso o andar.
  Mas porque diabo ela não me teria dito isso há mais tempo?  Realmente, aquele joelho tinha o dobro do tamanho do outro !
  De imediato, lhe apliquei as Ondas Curtas e para meu novo espanto, no dia seguinte, os dois joelhos já estavam com o mesmo tamanho e ela já podia andar.
  Pois passou a haver outro problema, pois sem dizer nada à neta, muito sorrateiramente, saía de casa e ia dar uma volta pela vizinhança, conversar com as velhas da sua idade, até que a minha esposa dava pela sua falta e lá andava à sua procura. Aquilo é que ela era uma velha matreira !!!
  Um dia, e preocupado não fosse ela dar algum tombo e partir-se toda… ainda lhe falei no uso duma bengala, mas ela logo se insurgiu, dizendo; « Bengala eu ? Para quê, para me chamarem de velha ?»
  Aí respondi: «Mas oh Rosa, quando é que se convence de que já está velhinha ?»
  »Pois é, Sr. Portugal, que era a forma por que sempre me tratava:  «Pois é…tem razão, eu sou mesmo  uma velha tonta…”, mas nunca a usou, preferindo andar aos tombos !

   Certo dia, por eu ter comprado uma máquina de costura eléctrica, a convidei a experimentá-la, e ela assim se assentou à sua frente, e vai de pô-la a funcionar, carregando no pedal…mas aquilo arrancou a toda a velocidade, o que a pôs a rir às gargalhadas… Mas lá se habituou e passado algum tempo, já se entendia com ela, fazendo bainhas de cortinados e panos para limpar o pó, o que a distraía imenso.

  Esta velhinha veio a falecer aos 95 anos, mas sempre muito lúcida, a ponto de nos ter pedido para chamarmos um Escrivão do Registo Civil e, para nosso espanto, ela deixou bem claro, perante testemunhas vizinhas, que deixaria a sua “terça” à minha esposa…por ter sido a única neta que lhe havia dado o carinho de que ela tanto necessitava, e durante os 8 anos que viveu connosco.
  Este seu propósito, acabou por  resultar em que todos os seus irmãos, lhe deixassem de falar…

  Como minha esposa sabia que eu não podia estar ao pé de mortos, e ela já havia falecido uma hora antes de eu chegar a casa, para almoçar, que nada me disse, mantendo somente a porta do seu quarto, fechada.
  E aguentou-se sem chorar, durante todo o almoço, só se vislumbrando uma certa tristeza…
  Quando a despiram pela última vez, ela mostrava bem um enorme volume na barriga, como se tivesse lá dentro um enorme fruto.
  Ou seja, aquelas tremendas dores de cabeça que ela havia tido 30 anos antes, já seriam devido àquele tumor que estacionou, com a dieta das sopas de café com leite.
   Vai uma pessoa entender estas coisas !!!!
 
 
 
 

Posted by Engenhocando at 19:16:34 | Permalink | Comments (3)